23 de abr. de 2019

sobre pratos e louças

decidi fazer uns comentários em tom de brincadeira, isto depois de já ter passado algumas semanas a fazer feiras de velharias - possivelmente não se enquadram nos temas que trago para aqui, mas apeteceu-me...
comecei de novo a fazer estas feiras em primeiro lugar para me manter ocupada com outro objectivo para além de procurar emprego e pesquisar sobre mistérios, e em segundo lugar como uma forma de despachar tudo aquilo de que já não necessito, incentivar os meus amigos a fazer o mesmo, assim como a família; também tive a sorte de me deparar com um local abandonado onde as pessoas tinham "despejado" artigos que já não queriam, possivelmente depois de uma mudança - muitos deles estavam simplesmente partidos e teriam sido atirados para lá - acabei também por fazer uma amizade com o funcionário de um centro de recolha, um senhor muito simpático que já me arranjou também algumas peças; resumindo, apesar de não obter grandes lucros com as vendas tem sido uma actividade interessante, mais até pelo prazer da procura, da compra do que pela venda em si - e quando arranjo um prato ou uma jarra pintada, é impressionante que as pessoas não olham à peça em si, à sua beleza estética, à sua composição, e pegam sempre na peça em primeiro lugar de forma a ver se é Spal, Vista Alegre ou Sacavém - recordo até um belo prato de colecção que tive, com uma reprodução de um quadro de Botticelli, e que a pessoa que comprou afirmou inclusive que detestava a imagem, mas comprava por ser de 89 ou 90, já não me recordo, e que lhe faltava o prato desse ano... 
lembrei-me que esse é possivelmente o motivo da existência das belas cristaleiras com espelho atrás, nunca me ocorreu porque não é uma peça que existisse nos meus pais, eles não tinham grandes possibilidades para investir em louceiros,  mas certamente o objectivo do espelho será para possibilitar ao coleccionador poder ostentar a marca da peça...
apesar da minha formação em restauro e de amar tudo que é antigo, há aspectos do coleccionismo que não consigo entender, e penso até que em certa medida funciona como uma doença, semelhante à acumulação compulsiva, poderá até compensar pela falta de outras coisas essenciais na vida das pessoas como o amor ou a família; não entendo o objectivo de, por exemplo, ostentar uma cristaleira com louças, cristais e pratos de colecção quando de repente chega um terramoto e as peças poderão estragar-se... porque num ápice a vida dá uma volta, e podemos ter de deixar tudo para trás... 

16 de abr. de 2019

Eckhart Tolle - Shouldn’t We Live As Simply As Possible





ao ver este vídeo de Eckhart Tolle lembrei-me dum episódio que passei um destes dias num supermercado conhecido onde passei com o intuito de levar umas guloseimas para a minha sobrinha a caminho do hospital, onde ela tinha dado à luz, nessa manhã; como é habitual, agarrei numa caixa de cartão e comecei a meter as minhas compras, quando vi uns vasos à entrada, bastante giros, orquídeas e jarros de várias cores, pousei a caixa e decidi levar também uma planta e estou entretida a tira-las para fora de forma a escolher um jarro roxo que estava atrás quando chega junto de mim a supervisora, cheia de nervos, dá um suspiro e começa a arrumar as minhas plantas - ao que eu respondo "calma, estou a escolher" - "e vai levar estas também?" - "não se preocupe que eu arrumo no final"; estou a arrumar as plantas quando procuro pela caixa com o resto das compras e caixa nada... fui ter com o segurança que estava junto a mim e perguntei se a supervisora teria arrumado a minha caixa de cartão, ao que ele responde "é o mais provável"; bem, lá vou eu voltar a escolher as compras, não é... ao chegar à caixa para pagar, a menina a comentar com a colega que falta pouco para sair, e ainda bem...
vivemos com expectativas irrealistas, queremos tudo pronto já, sempre a correr dum lado para o outro, sempre ocupados a fazer alguma coisa, não podemos estar parados - no emprego é a mesma coisa, anda tudo a mil, tudo para ontem, as pessoas não se apercebem que acabam por ter uma má prestação, são desumanas, conseguem stressar quem está ao lado; patrões e chefes apenas olham a números, ou então pensam somente no próprio umbigo... 
  

12 de abr. de 2019

Lista de ficheiros liberados pela Wikileaks até à data, 12/04/2019



https://file.wikileaks.org/file/?fbclid=IwAR1vozr0c9RDbi6mHZoKooWX8P2-AcNN5orMkcm2rANxJlbe_qYbzn3xoHg


breve resumo:

- Steve Jobs Morreu com HIV (https://file.wikileaks.org/file/steve-jobs-hiv/)

- Caso Madeleine McCann: informações que confirmam que o sequestro foi organizado pelos pais; fala sobre resquícios de sangue nas roupas dos pais detectados por cães farejadores, não havendo relato de que ela se magoou, para justificar o sangue nas roupas (eles nunca enganaram ninguém)

- Imagem de bombas nucleares na África do sul; provavelmente o país mente sobre toda a frota militar viola pactos nucleares internacionais

- Camião da coca-cola atropelou 19 crianças que estavam saindo duma igreja na Tanzania, 10 morreram, nada foi relatado (https://file.wikileaks.org/…/coca-cola-kills-10-children-in…)

- Michael Jackson e seus 10 anos de investigação do FBI, conclusão: inocente.

- Obama já sabia de sua vitória 4 anos antes das eleições

- Casos de racismo contra brancos praticados por imigrantes na Europa (https://file.wikileaks.org/file/bnp-racism-leaflet.pdf)

- Planos de ataques nucleares em países da Ásia, localização de bases e raio de destruição nuclear (contém imagens de armamentos preparados) (https://file.wikileaks.org/file/www.armagedon.org.il/)

- Arquivos sobre o 11 de setembro, ataque as torres gémeas (https://file.wikileaks.org/file/9-11_all_messages.7z)

- Angela Merkel tendo sigilo bancário desconfinádo (https://file.wikileaks.org/file/angela-merkel.pdf)


10 de abr. de 2019

A Ustacha


Julho de 1917. O tempo está óptimo em Corfu. É um oásis de calma, enquanto a guerra ruge ao longe, por toda a Europa. Há já alguns meses que as tropas sérvias estão reagrupadas nesta ilha, juntamente com milhares de civis que fugiram ante a invasão das forças combinadas da Áustria-Hungria, da Alemanha, e da Bulgária. No reino da Sérvia, já nada resta. Corfu é a etapa de repouso, após a longa e extenuante marcha através das montanhas feita pelo que resta dos elementos dispersos do exército sérvio, perseguidos pelas tropas dos Impérios Centrais.
Quando reagrupados e rearmados, os regimentos sérvios voltam a partir para o combate, em direcção a Monastir e Salónica, três homens conferenciam na vivenda posta à disposição pelo rei Pedro I da Sérvia.
O monarca, o seu chefe de governo - o velho Pachitch - e ex-alcaide de Spalato (Split para os servo-croatas), Trumbitch. Este último é o chefe do partido nacionalista croata. Em 1905, foi ele um dos artífices da "Revolução Fiume", que marcou o início das manifestações a favor da união dos croatas, dos eslovenos e dos sérvios.
Estranho colóquio, este de julho de 1917, onde, enquanto a sorte das armas ainda nada decidiu, um sonho secular vai subitamente criar corpo. Animados por uma singular fé no futuro, Trumbitch, Pachitch e Pedro I formam o projecto de construir uma pátria comum: reunir sob um só Estado, realizar a unidade dos três ramos da grande família dos Eslavos do Sul, que seria colocada sob a soberania de Pedro I da Sérvia.
Os projectos de Corfu agradam a todos os eslovenos, a todos os croatas? As coisas, regra geral, não são assim tão simples. Mas, em Corfu, tudo parece claro.
Trumbitch não veio com vários responsáveis croatas propor a união aos sérvios? Não se fazem ouvir outras vozes quando, ainda antes da queda dos Habsburgos, sob a inspiração do chefe dos eslovenos, o abade Karochetz, no decurso de um congresso reunido em Laibach (a futura Ljubkjana) pede por sua vez a união dos jugoslavos (cujo nome significa eslavos do Sul)?
A partir de então, enquanto se desenha a vitória dos Aliados contra os Impérios Centrais, a ideia  da união dos eslavos do Sul abre caminho e, em outubro de 1918, numa altura e que a Dupla Monarquia está em decomposição. Zagreb vê abrir-se um congresso nacional dos eslavos do Sul, onde se encontram, lado a lado, croatas, eslovenos, dálmatas, bósnios e herzegovinos; todos estão de acordo em adoptar uma resolução de união em trono da Sérvia. Em novembro do mesmo ano, a Assembleia de Montenegro, descontente com a atitude do Rei Nicolau, repudia o soberano e vota igualmente a união à Sérvia.
Para os nacionalistas sérvios, para o movimento pan-eslavo, a hora há tanto esperada chegou.
A 1 de dezembro de 1918, 20 dias após o armistício, o príncipe Alexandre, tornado regente do reino em consequência da retirada do seu pai, Pedro I da Sérvia (será proclamado rei em 1921), aceita render-se ao voto formulado pelos diferentes grupos étnicos. Em março do ano seguinte, a Assembleia Sérvia, Skoputchina, reúne em Belgrado os delegados de todas as regiões a partir de então chamadas a viver em comum.  A união dos jugoslavos será sancionada. É o delírio colectivo, a desforra da derrota de Kossovo.
Diplomaticamente, o tratado de Saint-Germain, concluído com a Áustria, e o de Triana, assinado com o império Húngaro, vêm determinar os limites do reino.
Croácia, Eslovénia e Dalmácia são atribuídas sem dificuldades à Sérvia? Do lado de Banat de Temesvar eleva-se, com a Roménia, uma contestação, que termina em partilha.
A região de Klagenfurth continua a pertencer à Áustria, após o plebiscito. Mas é a propósito da Istria e das ilhas Dálmatas que se põem então questões extremamente espinhosas.
Face às pretensões dos eslavos do Sul, a Itália insurge-se hoje, como a Dupla Monarquia antes da guerra. Eis os motivos:
No início da guerra, a Itália rompeu a Tríplice Aliança (Alemanha-Áustria-Hungria-Itália), para alinhar na Entente (França-Inglaterra-Rússia). As pretensões dos austríacos sobre os Balcãs pareciam-lhe de molde a romper o equilíbrio de forças. Por outro lado, a Itália esperava de uma vitória dos Aliados a recuperação de Trentino, de Trieste, e se possível da costa Dálmata, que pertencera anteriormente à Republica de Veneza.
Hoje, muda de atitude. O novo rei da Sérvia vem, no fim das hostilidades, fazer sombra às reivindicações italianas sobre certas zonas das margens do Adriático.
Aquando das reuniões de Paris, preparatórias da paz de Versalhes, o delegado italiano, Orlando, faz valer as promessas feitas pelos Aliados em favor do seu país num acordo secreto assinado em Londres no início das hostilidades e que foi decisivo para chamar a Itália ao campo dos Aliados, a despeito dos esforços do ex-chanceler alemão, von Bulow, enviado a Roma com a missão de tentar reter a Itália na Tríplice Aliança.
Assim, no fim da guerra, a Itália reclama o que considera ser-lhe devido, isto é, as suas pretensões de 1914 sobre as costas dálmatas. Ora, estas regiões são povoadas por uma maioria de eslavos. Evocar a presença italiana nas costas dálmatas é para os eslavos do Sul a quadratura do círculo, o regresso a um domínio outrora exercido pelos austríacos e de que os jugoslavos se julgavam justamente livres.
Enquanto a conferência dos embaixadores, reunida em Paris, se encarrega da aplicação do tratado de Versalhes, o poeta italiano Gabrielo d'Annunzio e os seus partidários marcham sobre Fiume e colocam as grandes potências face a um facto consumado.
Se, na cidade, uma grande parte da população é italiana, o porto, ainda que mediocremente equipado, deveria constituir para os sérvios uma necessária saída para o Adriático, uma vez que Trieste volta À Itália.
A 12 de novembro de 1920, na conferência de Rapallo, as potências vitoriosas julgam sair do impasse declarando cidade aberta a zona contestada.
Os italianos nem por isso deixam de prosseguir a sua ocupação. Finalmente, em 1924, a conferência dos embaixadores decide-se a atribuir à Itália a cidade em litígio, exceptuando o arrabalde de Susak, de maioria eslava, e a localidade vizinha de Porto Barros.
Toda a costa dálmata é cedida à Sérvia, com excepção de Zara e de algumas ilhas de importância estratégica.
Era abrir, entre italianos e eslavos, um contencioso espinhoso, e favorecer, com a conivência da Itália, tornada mussoliniana, o estabelecimento de bases para os separatistas de todas as cores que aceitarão mal a vontade centralizadora de Belgrado, exercida com pouca perícia sobre povos tão recentemente unidos.
Seja como for, a Sérvia de 1918 tornou-se um Estado importante: território mais do que duplicado, população triplicada, passando de 5 para 15 milhões de habitantes. Muda igualmente de nome, para se tornar o Reino dos Sérvios, dos Croatas e dos Eslovenos.
Em Belgrado, é imediatamente convocada uma representação provisória para votar uma Constituição: primeira reunião oficial de todos os jugoslavos - isto é, sérvios, croatas, eslovenos, dálmatas, montenegrinos, bósnios, herzegovinos e macedónios...
À febre da união não tarda a suceder-se a decepção, e depois o rancor. As populações outrora repartidas por 5 soberanias diferentes - Sérvia, Montenegro, Áustria-Hungria, Turquia - têm dificuldade em encontrar um novo modus vivendi... Diferenças de cultura, de região, de escrita, de pólos de atracção, não se apagam com um toque de varinha mágica. A oposição mais evidente reside nas diferenças entre sérvios e croatas. Os primeiros, ortodoxos, utilizando para a escrita os caracteres cirílicos, são e continuam a ser atraídos pela Rússia; alguns deles pelo bolchevismo. Os croatas, pelo contrário, estão ligados ao catolicismo, escrevem em caracteres latinos e a sua igreja mostra-se rebelde à submissão a qualquer poder temporal. O governo de Belgrado demonstra uma certa desconfiança em relação à antiga nobreza austro-húngara e abstém-se de incorporar no jovem exército jugoslavo oficiais que são os inimigos de ontem.  Na Macedónia, numerosos grupos étnicos anexados são búlgaros de coração e odeiam os sérvios. Eis o pano de fundo.
A realidade política, à partida, mascara questões muito mais profundas. Se, em 1919, os partidários da centralização levam a melhor, se é constituído um governo onde vemos lado a lado o sérvio Protich, o esloveno Korochetz, o croata Trumbitch, a crise não tarda a fazer-se sentir: para além das batalhas políticas no campo fechado da Skuptchina entre os radicais do velho Pachitch (são muito conservadores), os liberais (mais francamente democráticos), os comunistas têm 54 deputados na assembleia e pouco depois são colocados fora da lei pelo governo devido a um atentado perpetrado por um filiado do partido contra o partido do Interior, um facto continua evidente: o mosaico de povos cujas evidências parecem doravante unidas só poderá subsistir duravelmente com a condição de se criar um sistema federalista muito amplo.
As populações apercebem-se das sérias diferenças que as separam. Os recém-chegados queixam-se de serem oprimidos pelo centralismo excessivo e pela burocracia de Belgrado.
"Para os sérvios - dizem - as situações; para nós, os impostos."
Os croatas mais ricos pensam que os fundos recolhidos nas novas províncias são sobretudo utilizados
para melhorar a condição relativamente atrasada da velha Sérvia. A voz dos croatas ergue-se com tão maior autoridade quanto se encontram solidamente agrupados em torno de Raditch, chefe do partido dos camponeses. Se, finalmente os croatas se resignam a aceitar a Constituição jugoslava, não tardam a aliar-se aos partidos da oposição para combater o governo. Com a morte de Pachitch, um dos artífices da reunificação jugoslava, em 1926, e a eclosão de uma nuvem de partidos políticos, torna-se impossível obter uma maioria estável. As crises ministeriais sucedem-se.
É necessário fazer um retrocesso, se queremos ver claro nesta situação. Quando, em 1917, um certo numero de responsáveis croatas se mostram partidários da união com a Sérvia, nada está ainda resolvido na Croácia.
Em 1918, na Dieta Croata de Agram (nome austríaco de Zagreb), o Sabor, decidiu, é verdade, a separação do Império de Habsburgo, cujo fim se adivinha próximo. Mas não ficou de modo algum assente fundar um Estado em comum com os sérvios.
Sabor foi abolido. Através de uma espécie de golpe de Estado, foi constituído um "conselho do povo", com vagas semelhanças àquilo a que se poderia chamar uma representação democrática do povo croata.
Este "conselho" decidiu a reunificação da Croácia com a Eslováquia e a Sérvia num só reino, sob a dinastia sérvia dos Karageorgevitch.
A grande massa do povo croata não se aliou de modo algum a esta resolução, adoptada por processos muito pouco democráticos. Mas encontrou-se colocada ante um facto consumado. Houve reuniões populares apaixonadas, protestando contra a ideia de um Estado único dos eslavos do Sul, mas foram dispersadas com efusão de sangue. O Sabor, de resto, não foi dissolvido nem reconvocado. Ante as medidas de repressão decididas por Belgrado, o partido croata não teve outra solução além do refúgio numa resistência passiva. Foi assim que os croatas se recusaram a tomar parte no estabelecimento de estruturas políticas e administrativas do novo Estado.
É assim que a Constituição jugoslava, elaborada em Belgrado no sentido do centralismo, é preparada sem a colaboração do povo croata. E foi só 6 anos após o nascimento do reino sérvio-esloveno, como ao princípio lhe chamaram, que se correu o risco de anunciar eleições gerais, que tiveram como resultado, na Croácia, a derrota absoluta da ideia de um Estado único, pois o partido que mais se lhe opunha obteve uma estrondosa vitória nesta luta eleitoral: trata-se do Partido Camponês Republicano da Croácia, cujo chefe era Stiepan Raditch. Este, tornou-se o chefe quase lendário do nacionalismo croata.
Os deputados croatas mantinham-se afastados do Parlamento de Belgrado, a fim de deixarem bem claro que consideram não ter o novo Estado uma existência legal.
A partir de então, o diferendo entre sérvios e croatas não deixou de agravar-se: os sérvios insistindo em impor, e com falta de subtileza, a ideia do centralismo aos croatas, estes opondo-se-lhe por todos os meios. Em 1925, os partidos e as organizações nacionais croatas, incluindo todas as associações de carácter confessional, foram dissolvidos por ordem de Belgrado, por hostis ao Estado. Aproveitou-se para isto um atentado cometido contra o ministro do Interior, ainda que os croatas não tenham tido, e isto sabe-se perfeitamente, qualquer espécie de relação com os assassínios de Milorad Draskovitch.
Não foi então necessária a intervenção directa da França para evitar a guerra civil e o desmembramento do novo Estado? Raditch modificou a sua atitude e reconheceu a dinastia reinante dos Karageorgevitch. A política de abstenção era abandonada.
O status quo, porém, foi de curta duração.  
20 de junho de 1928. É o drama. A Assembleia Nacional, no coração de Belgrado, é teatro de um drama de loucura. Sérvios e croatas enfrentam-se no hemicíclo. Em plena sessão, um deputado montenegrino, Punitsa, mata a tiros de revólver dois dos seus colegas croatas e fere mortalmente Raditch. O gesto de um louco reabre o fosso entre sérvios e croatas. Imediatamente, os deputados croatas abandonaram o Parlamento. Uma vaga de nacionalismo exacerbado sacode os povos unidos ao reino da Sérvia. O regime está absolutamente desacreditado. Torna-se impossível governar.
Politicamente, é o momento escolhido pelo rei Alexandre para agir. A 6 de janeiro de 1929, estabelece a "ditadura real", suspende a Constituição, pronuncia a dissolução do Parlamento. A ditadura é a dos sérvios, do seu exército e da sua polícia. O Estado toma o nome de Jugoslávia. Alexandre quer afirmar ainda mais, se possível, o carácter centralizador e unitário do novo regime. Rapidamente, é proibida toda a actividade de partidos políticos, todos os partidos e organizações nacionalistas croatas são dissolvidos.
O rei acaba de cortar todas as pontes, retirando a si mesmo a possibilidade de vencer a crise através de negociações com os croatas, procurando com eles vias de compromisso. Consequência lógica: o que não pode ser tolerado legalmente - ou melhor, ditatorialmente - encontra o seu fermento na clandestinidade.
Assim nascem, entre as correntes de nacionalismo que agitam contra o domínio sérvio as nações reunidas em torno de Belgrado, as sociedades secretas. Outra consequência: aos olhos dessas sociedades secretas, o inimigo é o rei Alexandre I.
A 20 anos de distância, os objectivos a alcançar para estas sociedades secretas são muito diferentes dos da Mão Negra.
Por volta de 1910, para a Mão Negra, o inimigo era o sistema austríaco, o qual era preciso destruir. Uma fórmula bastante vaga, em que a vítima escolhida - o arquiduque Francisco-Fernando - fora designado por uma razão ocasional: uma inoportuna visita a Sarajevo. Passaram-se 20 anos. Os homens que vão constituir as primeiras malhas das sociedades secretas - na Macedónia é a Orim, na Croácia é a Ustacha - têm objectivos mais precisos: fazer triunfar os nacionalismos locais suprimindo um ditador odiado: o rei Alexandre. Com este fim, apoiam-se em cumplicidades exteriores: a Orim, nos búlgaros; a Ustacha, no governo de Mussolini, que sonha em recuperar as costas dálmatas e a quem a agitação provocada pela Ustacha vai - pelo menos assim o julga - ajudar nos seus desígnios.
Após o assassínio de Raditch, o Dr. Ante Pavelitch, advogado de Zagreb, funda a organização secreta revolucionária nacionalista da Ustacha, que uma palavra que significa os rebeldes, os insurrectos. Pavelitch é, desde há muito, adversário da ideia jugoslava. Em 1918, combateu a união dos sérvios e dos croatas e foi uma das personalidades dirigentes do Sokol croata, que, como a organização so mesmo nome na Boémia e na Morávia, não era senão um movimento nacionalista de tendência eslavófila.
Além da Ustacha, Pavelitch organiza a Guarda civil croata, que se esforça sobretudo por chamar a si a juventude das escolas primárias e superiores. Esta Guarda desempenha um papel importante no momento da instauração do Estado croata.
Pouco a pouco, vão-se encaixando nos seus lugares os elementos dispersos de uma encenação que terá por desenlace uma dupla tragédia: a do rei Alexandre, e em breve a da Jugoslávia.
De um lado, a politica do rei. Consiste em reprimir, numa nação pouco segurado seu destino, todo e qualquer movimento separatista, pois tais movimentos são a seus olhos prejudiciais à coesão do conjunto. A severidade da repressão exclui qualquer método persuasivo. Em réplica, aquilo a que poderíamos chamar o espírito local, só pode subsistir combatendo o elemento conquistador, pois na opinião dos croatas, e na de numerosos macedónios, a Sérvia faz figura de conquistadora e eles mesmos de povos conquistados. Alexandre, ajudado pelo exército e pela policia sérvia, ataca violentamente este espírito local, e que está decidido a destruir.
A táctica que lhe parece melhor é condenar-lhes o folclore e impor a língua sérvia, com exclusão de qualquer outra. Tal como os alemães após a vitória de 1870, proibiram na Alcásia-Lorena as canções francesas, assim os sérvios perseguem e punem os macedónios que alimentam a sua fidelidade nacional com o emprego do seu dialecto, com os seus cantos, com a leitura de livros e jornais estrangeiros.
Do outro lado, na Macedónia, a Orim, que se tinha erguido contra o turco, desperta contra o novo senhor, que se mostra tão tirânico como o primeiro. Age através do terrorismo que vai semear em casa do seu suserano, atravessando-lhe as fronteiras, indo incendiar as suas colheitas, os seus edifícios públicos, as suas casas.
Entre os 2 milhões de macedónios espalhados entre os nacionais dos vários países balcânicos, a maior parte encontra-se radicada na Bulgária, e a Orim mantém abertamente células em Sófia, capital do pais.
Terceiro oponente do tríptico, por fim, a Ustacha na Croácia. Os objectivos desta sociedade secreta e dos seus membros, os ustachis, são claros: independência da Croácia, em nome do direito que assiste aos povos de disporem de si mesmos.
Ao retirarem à Áustria uma parte do seu território para o acrescentarem à Sérvia e à Eslovénia, formando a Jugoslávia, os aliados julgaram constituir no centro da Europa um reino sólido, podendo servir de tampão entre eles e as ambições germânicas. Esta união só poderia formar uma unidade se a administração do pais se encontrasse igualmente dividida entre os habitantes das três regiões. Era não contar com as pretensões em parte justificadas da Sérvia. Fora a que mais sofrera, suportara um calvário de etapas extremamente dolorosas durante a guerra, e parecia-lhe justo, assim como aos seus aliados, ser favorecida na partilha das funções e das responsabilidades governamentais.
Impôs à confederação a sua capital e o seu rei. Uma fortuna nova e inesperada tornou-a orgulhosa. Em suma, esses países que tinham sido incorporados na Sérvia eram pedaços de uma Áustria vencida e a justa recompensa do vencedor. Mas os interessados não o entendiam assim. Além disso, estavam irritados por terem de suportar uma dependência que consideravam humilhante. Estimavam-se mais civilizados do que essa Sérvia, durante muito temo considerada - erradamente ou com razão - possuidora de uma cultura rudimentar.  Belgrado, antes de 1914, não passava de um burgo, enquanto Zagreb, capital da Croácia, oferecia a graça de uma cidade policiada e habitada por uma população tranquila.
Após o assassinato de Raditch, enquanto a ditadura amordaçava a Constituição, a revolta ganha corpo. Ante Pavelitch, antigo deputado do partido federalista, torna-se a alma dessa mesma revolta. Em seu redor agrupam-se adeptos fervorosos, ardentes e resolutos.
A partir de então, organiza-se um encadeamento perfeitamente lógico. A 20 de abril de 1929, primeira atitude de Pavelitch: procurar os chefes da Orim. O agrupamento terrorista anti-jugoslavo, que se afirma ser a organização revolucionária da Macedónia, é constituído por uma mistura complexa de idealistas, de proscritos, de guerrilheiros búlgaros, de atiradores profissionais. Desde há anos que, perseguida pelos sérvios, a Orim comete atentado atrás de atentado, perpetra assassínio atrás de assassínio por toda a Sérvia, mas mais particularmente no Sul. O seu objectivo sempre foi considerar caduco o tratado assinado no fim da primeira guerra mundial, porque a seus olhos os antigos territórios turcos libertados pelos Sérvios em 1913 e 1918 deveriam regressar à Bulgária.
Na Croácia, Pavelitch agrupa todos os que pretendem sabotar o Estado jugoslavo. Entre eles, oficiais que durante a guerra serviram nas fileiras austríacas e que são agora afastados do exército jugoslavo.
A maior parte destes oficiais é obrigada a procurar refúgio na Áustria a partir do momento em que, a 6 de janeiro de 1929, Alexandre I ordena a constituição de um tribunal especial para a protecção do estado contra as actividades subversivas dos separatistas e dos terroristas.
Os actores estão nos seus lugares: Alexandre e a sua polícia contra Pavelitch e os seus ustachis croatas, e a Orim dos macedónios.
Pavelitch era, em Zagreb, um advogado comercial no sentido mais estreito do termo. Durante os anos que precederam a ditadura, o seu cartório começara a vacilar. Eram conhecidas as suas relações com os húngaros e passava por ser um partidário disfarçado dos Habsburgos, suspeito aos olhos dos próprios croatas. Não havia Stefan Raditch chamado a atenção dos país, para aquele que considerava ser um vil intriguista?
Costumava dizer dos croatas:
"Sempre estiveram na oposição e é de temer que o estejam eternamente. Independentes, arranjarão ainda maneira de fazer oposição contra si mesmos. É um temperamento que se torna necessário organizar."
Recrutar e organizar! Pavelitch é mestre em ambos os campos. Morto Raditch, assassinado, os mais fanáticos encontram-se reunidos em torno do advogado de Zagreb. A Ustacha faz recrutamento no interior da Croácia, entre os intelectuais, os estudantes e uma parte do jovem clero. Muitos dos seus membros militam no partido camponês de Raditch. A morte deste empurrou-os para a Ustacha, que faz circular os princípios base do seu primeiro estatuto fundamental: criar um grupo de choque, um grupo de escol, que considere normal ser um dia chamado a dirigir a nação croata. Para tanto, um só meio: assassinar o rei Alexandre I, da Jugoslávia.
Enquanto esperam que a organização ganhe corpo e se consigam fundos - o que, não tardaremos a vê-lo, fará eclodir os estatutos fundamentais da Ustacha, do nacionalismo croata para o fascismo e depois para o nazismo - os chefes ustachis deixam na Croácia os seus agentes mais fanáticos. Têm como missão prepara a acção terrorista.
A 22 de março de 1929, três meses após ser fundada, a Ustacha revela a sua existência ao cometer o primeiro crime: Pospischil e Batich matam Tony Schiegel, director do jornal Novosti, de Zgreb, que era partidário da unificação com a Sérvia.
Durante esse ano, 1929, registam-se três outros atentados. Pavelitch necessita, para formar os seus terroristas, de verdadeiros assassinos profissionais. Condenados à morte à revelia, na Jugoslávia, Pavelitch e os principias chefes da Ustacha, Pertich e Yelitch, fogem de Zagreb, onde a polícia sérvia está prestes a prendê-los. Em Sófia, Pavelitch assina um acordo com  Mihailoff, chefe da Orim macedónia, que lhe fornecerá assassinos a soldo. Na Hungria, consegue os favores do regente, Horthy. Se é obrigado a fugir da Áustria e da Alemanha, onde é considerado indesejável, encontra o refúgio que lhe convém na Itália. Na opinião de Mussolini, utilizar os ustachis só pode abalar essa guerra, a à qual se deu demasiado, esquecendo as promessas secretamente feitas aos italianos.
Mussolini, diz-se, forneceu 25 milhões de liras aos ustachis. Muito embora seja difícil julgar a importância exacta da ajuda financeira concedida por Roma, é em todo o caso certo que, sem a cumplicidade de Mussolini, jamais a Ustacha teria podido desenvolver-se como desenvolveu.
A Itália fascista torna-se o principal centro da Ustacha, enquanto Yelitch, na América do Sul, e Tchulich, na Bélgica - os agentes de Pavelitch - recrutam novos adeptos que são enviados para campos de treino. Estes campos pululam na Itália: Borgotaro, Bovegna, perto do lago Isera, Udine, Zara, na costa dálmata, e vários outros. De golpe, a Ustacha torna-se uma organização terrorista de ramificações internacionais.
Pavelitch instala escritórios de propaganda e de recrutamento em Trieste, Fiume, Udine e Zara. É em Zara que os ustachis organizam, em outubro de 1932, uma incursão nas montanhas da Dalmácia para tentar sublevar os camponeses, acção que deveria permitir a Mussolini intervir para restabelecer a ordem.
Em Genebra, a Ustacha edita um boletim, Croacia Press. Em Viena é organizado um serviço de informações sobre a Jugoslávia, destinados particularmente aos jornais italianos, húngaros, búlgaros e austríacos. São igualmente enviados telegramas para a América e o boletim é distribuído a vários correspondentes de jornais estrangeiros em Viena. Explica-se hoje porque motivo tantas falsas notícias sobre a Jugoslávia e vindas de Viena foram na época postas em circulação.
Relações complexas, estas dos fascistas com a Ustacha. Para Mussolini, trata-se de utilizar Pavelitch, um vez que lhe paga. E isso, aos olhos de Roma, é separar a Croácia da Jugoslávia. Que lá rebente uma revolução, e ei-la independente (sob o protectorado fascista, é evidente) e de um mesmo golpe a Dalmácia regressa às mãos da Itália.
No decurso de um almoço oferecido em sua honra em Fiume, a 13 de setembro de 1932, Pavelitch aceita este negócio. Não pode sem dúvida fazer outra coisa, ante os sacrifícios consentidos pelos seus "benfeitores italianos" ; mas a ideia de devolver à Itália importantes territórios da costa dálmata continua a ser um delicado ponto de controvérsia entre Roma e a Ustacha.
Entretanto, Pavelitch organiza os seus grupos terroristas em bases italianas. Não tarda que uma brigada dos serviços de informações italianos seja posta à disposição dos ustachis. O seu chefe, o Dr. Conti, recebeu de Mussolini a missão de velar por Pavelitch - mas também de vigiá-lo - fornecer aos ustachis armas e papeis de identificação falsos, e ainda os materiais necessários ao fabrico de dinheiro falso.
Quando centenas de milhares de dinares falsos começaram a circular, tanto em Belgrado como em Zagreb, a policia jugoslava nem por um instante suspeita que a sua procedência é do campo italiano de Borgotaro.
Pavelitch, chefe supremo da Ustacha, faz então um jogo múltiplo.
Com os italianos, que o ajudam fortemente, é fascista. Preconiza de resto um fascismo mussoliano como forma de governo e vê num Estado corporativo o remédio para a situação económica e social do pós-guerra.
É-lhe necessária a intervenção de Roma para conseguir da Hungria os favores do regente Horthy. E não são pequenos favores, pois trata-se de criar, com a ajuda de velhos oficiais húngaros sob o comando de Gustavo Percec, um centro de recrutamento ustachi a poucos quilómetros da fronteira jugoslava, na quinta de Yanka Puszta (onde será recrutado Gueorguiev, um dos assassinos do rei Alexandre).
Em 1929, para conseguir os seus fins, Pavelitch, como vimos, concluiu um acordo com a Orim.
No entanto, à medida que aumenta a influência hitlariana na Alemanha, a Ustacha muda de rumo e pende nitidamente para o nacional-socialismo. Quando Hitler sobe ao poder, Pavelitch dirige-se a Berlim e publica pouco depois um manifesto de concepção muito "nazi", que é distribuído aos membros da sua organização. Neste manifesto, a Ustacha indica que "pretende lutar por todos os meios contra a Jugoslávia, assim como todos os comunistas e o derrotismo marxista sob todas as suas formas".
A Ustacha adopta pura e simplesmente o programa de nacional-socialismo alemão, Os Ustachis, como os hitlarianos, pretendem derrubar o capitalismo - no qual não pensaram sequer até então, provavelmente em razão da pobreza do pais - e exterminar o marxismo. A tendência anti-semita do movimento acentua-se.
O jornal de Pavelitch, Nezavisna Hrvatska, ("Estado Croata Independente"), publica um artigo que contém o essencial da doutrina ustachi sobre o problema da guerra e da paz:
"O pacifismo, pouco perigoso na aparência, é na realidade uma corrente de que o estrangeiro se serve para conservar um povo em estado de escravidão, para enfraquecê-lo, envenená-lo e matá-lo gradualmente. O pacifismo amolece o espírito e a alma dos indivíduos e dos povos, e mata a vontade natural, o amor pela vida e pelo trabalho. O pacifismo é uma das mais vis taras do homem."
De início, a única intenção de Pavelitch é atrair a atenção da opinião pública mundial para o problema croata, através de actos de sabotagem e de terrorismo preparados do estrangeiro. Esta táctica conhece um certo êxito: grupos de sabotadores e de terroristas formados nos campos da Ustacha, na Hungria e na Itália, praticam toda uma série de atentados contra os caminhos de ferro e outros serviços públicos jugoslavos. Os atentados não podem ser passados em silencio e despertam a inquietação geral.
Não tarda que comece a pensar somente num atentado contra a pessoa do rei Alexandre. Os preparativos deste atentado exigem meses. Tem de ser adiado por várias vezes. Finalmente, decide-se aproveitar o momento em que Alexandre irá a França, em visita oficial. Mas, no último instante, chega-se à conclusão de que a Ustacha não dispõe de homens de mão capazes de um êxito certo num tal atentado. É por isso que Pavelitch se dirige à Orim, para que esta lhe empreste especialistas. A Ustacha organiza pois o assassínio graças a homens que lhe são emprestados: alguns partidários vêm do campo de instrução de Yanka Puszta, muito perto da fronteira jugoslava.
Quatro turistas chegam a França, no início de outubro de 1934, sob a a direcção de um adjunto de Pavelitch, um croata chamado Kvaternik. Além do macedónio Vlada Gueorguiev, três croatas fazem parte da equipa: Zvonimir Popsipil, Raitch e Krajl. Vão munidos de falsos passaportes checoslovacos e não têm falta de dinheiro. As armas serão fornecidas mais tarde. De momento, visitam a França.
Vindos de Zurique e de Lausana entram, na França de barco, pelo lago Léman. A partir daí, chegam tranquilamente a Paris. Todavia, prudentes, e receando os controles a que a Polícia procede na expectativa da visita real, fazem uma paragem em Fontainebleau antes de se dirigirem à capital, onde o primeiro encontro tem lugar num cinema dos Boulevards. É aí que Kvaternik vai procura-los, na escuridão, no decurso da projecção do filme. Organizador muito hábil, instala dois dos seus companheiros no Palais d'Orsay, dois outros no hotel Regina, e ele próprio passa a noite no hotel Bellevue.
Na manhã do dia seguinte, Kvaternik parte para a Provença com Krajl e Gueorguiev, enquanto os outros dois assassinos vão a Versalhes, onde devem também preparar o terreno.  Tudo foi previsto, para que, se por ventura a operação de Marselha falhar, um outro atentado seja imediatamente perpetrado. Os conjurados conhecem perfeitamente o itinerário do cortejo real. A imprensa francesa forneceu-lhes todos os detalhes do percurso. Durante dois dias estudam, prontos a, em caso de fracasso dos seus camaradas de Marselha, pegarem no testemunho. 
A caminho de Marselha, sempre prudentes, Kvaternik, Krajl e Gueorguiev detém-se em Avignon e trocam o comboio pela estrada. Chegam a Aix de carro, no mesmo dia. Instalam-se no hotel Moderno e. durante 48 horas, nos dias 7 e 8 de outubro, preparam terreno para a acção de Marselha. Estudam os pontos quentes do itinerário real e consideram demoradamente as informações que lhes são discretamente comunicadas, e segundo as quais só a polícia garantirá a segurança do cortejo. Os papeis são repartidos: Gueorguiev será o primeiro a atacar, para cobrir a retirada do companheiro após o atentado. Krajl lançará uma bomba e várias granadas. De facto, esta segunda fase da operação não se desenrolou como previsto: tendo em conta a confusão que se seguiu ao atentado, pode imaginar-se o pânico que se teria apoderado da imensa multidão se Krajl tivesse intervido por sua vez.
Na noite de 8 de outubro, um misterioso Pierre e uma mulher loura da qual não foi possível descobrir a identidade e que a Polícia não conseguiu encontrar, juntam-se em Aix aos três conjurados. Entregam a Gueorguiev e a  Krajl duas pistolas para cada um e abundância de munições. Os ustachis não tardam a encontrar um esconderijo, dissimulando as armas num dos colchões que não voltarão a utilizar, e onde o pequeno arsenal virá a ser encontrado alguns dias mais tarde.
Assim equipados, Gueorguiev e Krajl partem de carro de Aix para Marselha, na manhã do dia 9. Misturam-se à multidão e colocam-se nos postos que lhes foram previamente indicados. Kvaternik, prudentemente, já partiu para Montreux, de onde apreciará o novo impulso a dar eventualmente à acção dos ustachis, segundo o curso dos acontecimentos.
Um pormenor é fundamental na preparação dos atentados: será só a polícia, e não a policia e o exército, a garantir na França a protecção ao monarca. Os ustachis sabem-no.
Ora, tanto para os serviços de segurança franceses e jugoslavos, como para a policia marselhesa, os avisos não faltaram. A polícia sabe com o que contar no que respeita à virulência de certos croatas e à audácia dos ustachis. Os serviços de segurança tiveram nas mãos uma série de artigos publicados no estrangeiro pelo jornal do movimento ustachi, Nezavisna Hrvatska, onde se podia ler, dois meses antes: 
"O senhor Barthou, o rei Alexandre Karageorgevitch, o senhor Benès e Titulesco, fazem muito mal em pensar que podem brincar à vontade com os outros povos. O destino não tardará em convencê-los disso... Condenamos à morte o rei Alexandre Karageorgevitch e todo o governo jugoslavo. Esta sentença deve ser executada o mais rapidamente possível..."
Na Jugoslávia, em 1934, a situação interna é precária. O reino S.C.E. (sérvio, croata e esloveno), ao qual Alexandre I deu, em 1929, a denominação de Jugoslávia, está no centro de conflitos latentes. Hostilizado pelos húngaros, pelos búlgaros e pelos italianos, é ao mesmo tempo minado do interior pelos terroristas croatas.
Enquanto Alexandre I se arvora em campeão de uma Federação Balcânica, o francês Louis Barthou esforça-se por restabelecer o equilíbrio politico e diplomático nos Balcãs. Hitler acaba de subir ao poder e Dollfuss, chanceler da Áustria há dois anos é assassinado em Viena; a guerra dos nervos segue o seu curso entre Roma e Belgrado; os ustachis multiplicam os atentados. Nesta conjuntura, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros provoca a viagem de Alexandre I à França, a quem acaba de visitar em Belgrado. É precisamente a época em que o rei consegue importantes vitórias diplomáticas, menos notáveis na Roménia, onde reina o seu primo, o rei Carol, do que na Grécia, na Turquia, junto de Kemal Ataturk, e sobretudo em Sófia, onde foi selada, em setembro de 1934, a reconciliação com o rei Boris e com a opinião pública búlgara. 
Parte pois confiante para França, a 7 de outubro. A viagem faz-se por mar. Alexandre, não atravessando qualquer território estrangeiro, deseja afirmar a posição de potência marítima da Jugoslávia e confirmar através desta indicação da sua implantação geográfica no Adriático a sua influência politica na perturbada região. 
Faz um tempo assustador na enseada de Zalenika, onde está ancorado o navio-almirante da frota jugoslava. O Adriático mostra-se muito agitado: as previsões são más. Alexandre convence a rainha Maria, que deveria acompanhá-lo, a desistir da viagem por mar. Dirigir-se-á a França utilizando o Expresso-Oriente. O rei juntar-se-á a ela em Dijon, de onde seguirão para Paris.
A rainha manifesta a sua preocupação. Recorda-se do primeiro drama que partilharam, em 1913, por altura do seu casamento, marcado já por um atentado falhado. Desde há 5 anos, sobretudo, as agressões multiplicaram-se por todo o pais. Ainda muito recentemente, em julho, aquando de uma visita oficiala Zagreb, os soberanos escaparam a um atentado à bomba. 
A bordo, durante dois dias e com o mar muito mau, o rei trabalha com os seus colaboradores nos problemas que estarão na ordem do dia. Com a proximidade das águas territoriais francesas, o tempo melhora. Do cabo Bonifácio a Marselha, o navio real é escoltado por vasos da marinha de guerra francesa: o Colbert, hasteando o pavilhão do ministro da Marinha, o Duquesne, 4 torpedeiros, 3 contratorpedeiros, 12 submarinos. O rei almoça a bordo e um pouco mais tarde recebe o senhor Pietri, ministro francês da Marinha.
Às 16 horas e 2 minutos, Alexandre I, que envergou o uniforme de gala de almirante, com o peito atravessado pelo colar da Legião de Honra, ostentando a Cruz de Guerra e a Medalha de Valor Militar que lhe foram entregues em 1917 na frente de Salónica, é recebido em solo francês por Louis Barthou. O calor do encontro entre o ministro francês dos Negócios Estrangeiros e o rei diz bem da amizade recíproca que une os dois homens. No entanto, os oficiais distinguem, na atitude do rei, uma reserva crispada e alguns sinais de nervosismo.
Uma testemunha, o jornalista René Barotte, enviado especial do Paris-Soir, que cobriu a viagem real, recorda o carácter inquietante do ambiente marselhês, neste 9 de outubro.   
"Sentia-se passar sobre o porto e sobre a multidão um sopro de mau agouro. Reinava uma grande desordem e tornou-se evidente que o serviço de segurança, montado com excessiva parcimónia de meios, não seria capaz de conter um publico mais entusiasmado, ou reter um agressor mais audacioso... Pairava electricidade no ar. O rei parecia pouco à vontade, a despeito do ambiente muito cordial que presidia àquele seu primeiro contacto com as individualidades francesas."
Com Barthou à esquerda, e, na banqueta à sua frente, o general Georges, membro do Conselho Superior da Guerra, que conhece de longa data e que o acompanha durante toda a estadia em França, o rei toma lugar no Délage descoberto que vai rolar a uma velocidade de 8 km por hora através da multidão, sem protecção próxima. A primeira etapa marcada ao cortejo real é o monumento aos mortos do Exército do Oriente: assim o decidiu Alexandre I, quando, por motivos de segurança, lhe propuseram a entrada em França por Toulon. O rei quer deste modo testemunhar, no início da sua visita, a sua gratidão às tropas que combateram na frente dos Balcãs ao lado dos soldados sérvios que comandou durante a grande guerra.
- Voltando ao porto - conta René Barotte - retomei o meu posto à janela...E quando o cortejo se aproximou da Canebière, foi o drama.. Cerca de 20 tiros de revólver foram disparados contra ele, atingindo-o. Vários soldados foram feridos. Um dos assassinos foi abatido...
O assassino agiu tão rapidamente que nenhuma intervenção teria sido possível. As infelizes condições em que fora formado o cortejo comportaram em si mesmas uma multiplicidade de riscos. Apesar de avisado dos perigos corridos pelo soberano, o controlador geral da Sûreté, Sisteron, responsável pela organização da viagem, não quis, alguns dias antes, admitir-lhes o fundamento. E assim rejeitou a possibilidade de fazer enquadrar a viatura real por ciclistas ou motociclistas da polícia, desejando que o carro fosse visível 100 metros à frente e 50 metros atrás. O elemento de protecção mais aproximado era na altura o coronel da Guarda Republicana, Piolet, que cavalgava 10 metros à frente do e só pode intervir demasiado tarde, abatendo o agressor a golpes de sabre.
O rei e o ministro francês foram mortalmente atingidos logo aos primeiros tiros. O general Georges foi gravemente atingido. O assassino, no entanto, continua a disparar contra a multidão, ferindo mortalmente 2 mulheres. Várias outras pessoas são mais ou menos gravemente atingidas. O pânico é geral. A multidão invade o asfalto, onde o motorista do Délage, Paul Fronsac, tenta em vão acelerar e conduzir o rei ensanguentado, pela Rua Saint Ferreol, à Prefeitura, onde seria possível tentar salvá-lo.
Era demasiado tarde. Das três balas que atingiram Alexandre, uma atravessou a vesícula, outra o pulmão direito, e a terceira o braço... 
Para Pavelitch e os seus ustachis, o primeiro objectivo tinha sido alcançado: com o duplo assassínio, produzia-se o choque esperado. A opinião pública mundial, assim como a imprensa de todos os países, debruçaram-se sobre o problema jugoslavo. Nos países ocidentais, o crédito politico e económico da Jugoslávia desceu so seu ponto mais baixo: começou-se a questionar se o Estado jugoslavo, tal com o estava, poderia manter-se.
Os esforços da polícia no sentido de descobrir os que tinham comandado o assassínio falharam: Mussolini recusou-se a extraditar Pavelitch.
Se os campos da Ustacha, na Itália e na Hungria, tiveram de ser dissolvidos, se, na Itália, os seus ocupantes que não conseguiram fugir a tempo foram internados nas ilhas Lipari, os chefes da organização dispersaram-se pelos diferentes países da Europa, a fim de prosseguirem a sua propaganda.



Fonte: História do Ocultismo, Seitas e Sociedades Secretas, Bernard Michal, Jean Renald

8 de abr. de 2019

A Mão Negra


1914. Três clandestinos regressam à Bosnia, o seu país, no dia da Ascenção. Partiram 48 horas antes de Belgrado, capital da Sérvia, onde um pequeno empregado dos caminhos de ferro lhes preparou a expedição. 
De barco, subiram o Save, entre Belgrado e Shabats. A partir daí, seguindo ponto por ponto o plano que lhes foi confiado, apresentam-se a um major do exército sérvio, Popovic. Este fornece-lhes os bilhetes de caminho de ferro para a estação fronteiriça de Lozhinca, que separa a Sérvia na Bósnia desde a anexação, 6 anos antes desta última pelo império austro-húngaro. Popovic entrega-lhes também um sobrescrito contendo algumas palavras de recomendação para o capitão Prvanovic, chefe do posto fronteiriço sérvio, assim como falsos passaportes.
Em Lozhinca, reúne-se um conciliábulo, nessa tarde de primavera. Nenhum passo em falso é permitido. Trata-se de atravessar a fronteira, guardada por espiões que trabalham por conta de Viena. Na fornalha que são os Balcãs em 1914, as autoridades da Áustria-Hungria - chamam-lhe a "Dupla Monarquia" - espiam os mais pequenos movimentos desses irredentistas italianos, divididos entre si, mas para quem o ódio pelo austríaco é um denominador comum, e a liberdade tem um perfume de terrorismo.  O rancor, o espírito de vingança contra o austríaco, isto é, contra o germânico que tem sob seu domínio os eslavos do Sul, animam esses bósnios ortodoxos e católicos que, de ano a ano, vão buscar à Sérvia o seu fermento de nacionalismo e o seu ideal de um Estado pan-sérvio ou Jugoslavo, onde sérvios, croatas e eslovenos seriam um só povo. Tais são os sentimentos que animam os três clandestinos, três jovens bósnios de origem sérvia. 
Nedjelko Cabrinovic, estudante do liceu e depois tipógrafo, tem dezanove anos. Anarquista socialista, já fez passar para a Bósnia vários exemplares proibidos de Kropotkine, o teórico da anarquia. Gavrilo Princip é estudante de teórica no liceu de Belgrado, também com dezanove anos, e é nacionalista radical. Trifko Grabez, por fim, tem apenas dezoito anos.
No posto fronteiriço de Lozhinca, o capitão Prvanovic recebe-os em segredo. Na bagagem levam seis bombas, quatro revólveres, munições: nos bolsos, cápsulas de cianeto de potássio que eles e outros conjurados recrutados na Bósnia deverão engolir, quer tenham ou não cumprido a sua missão, de preferência a serem presos e fazerem confissões às autoridades austro-húngaras. O capitão convoca três sargentos da guarda fronteiriça sérvia e pergunta-lhes qual é o posto mais seguro para passar para a Bósnia sem se fazer notar pelos austríacos. Para Princip e Grabez, será Gribic. Para Cabrinovic, será Zvornik, onde um agente de recepção lhes facilita a passagem.
Princip e Grabez transportam as bombas, os revólveres, as munições. Utilizam aquilo que os terroristas sérvios chamam "o túnel", isto é, pontos de passagem seguros onde homens de confiança os guiam e ajudam. 
Os dois estudantes atravessam o Drina e são confiados a a um camponês que os alberga por essa noite. No dia seguinte, entregam-se outra vez à condução dos passadores.  Um pastor,  através de pântanos e de trilhos de montanha, leva-os até Priboj. Local de encontro: o domicilio do professor primário Cubrilovic, que, de carroça, os transporta até Tuzia.  Passam a noite em casa de um director de cinema, onde abandonam as armas, que um outro conjurado, o professor primário Ilic, irá buscar uns dias mais tarde. As bombas, as armas, os conjurados, não tardam a estar prontos, no local de encontro, em Sarajevo.
Há mais de quinze anos, uma situação explosiva reina nos Balcãs. A Sérvia, no decurso dos últimos quarenta anos, passou sucessivamente do estatuto de principado dependente do Império Otomano ao de reino, de Estado semi-soberano ao de Estado soberano. Restam os seus vizinhos. Continua encaixada entre dois impérios que se desmoronam. De um lado, a Dupla Monarquia, ou seja, o Império austro-húngaro, dos Hasburg. Do outro, os Turcos, que detiveram, durante cinco séculos, uma península que vai de Belgrado ao Peloponeso, actualmente a Albânia, a Macedónia e Salónica, as duas Trácias e Andrinópoles, Istambul e os Estreitos. Entre eles, nacionalistas, desejosos de liberdade contra este duplo jugo austríaco e turco: sérvios, croatas e eslovenos, gregos, albaneses e búlgaros, ou que não querem voltar a cair sob o domínio de um nem de outro. Mexa-se um peão neste tabuleiro de xadrez e logo as grandes potências estão prontas a intervir. A Rússia, para defender os sérvios da Sérvia e da Bósnia, os eslavos do Sul, seus irmãos de raça, com os olhos postos nos Estreitos; a Dupla Monarquia, para desmantelar esta Sérvia que propaga ideais pan-eslavos entre os seus vassalos, o Imperador da Alemanha, aliado dos Turcos e dos Austro-Húngaros; a Itália, por fim, que tenta libertar-se da aliança austro-alemã.
Muito se falou do imbróglio balcânico. Na verdade, se é complicado, tratar-se-á mais exactamente da complexidade do engenho explosivo retardado, que desencadeará um dia, agora próximo, o sistema de relojoaria de uma explosão geral.
Nem as grandes potências, nem os Estados balcânicos podem, por temos de um conflito generalizado, tomar a iniciativa de uma acção de envergadura. Por outro lado, neste quebra-cabeças de interesses extraordinariamente intrincados basta uma tentativa regional ou um incidente para que cada um dos parceiros ensaie este cenário de grandes espectáculos que terá o nome de "primeira guerra mundial". A cada crise, em 1908, em 1912, como em 1913, roça-se a catástrofe, ao passo que conflitos locais e conjuras se sucedem. 
1903, Belgrado. Rebenta uma conjura militar. Os oficiais conspiradores nacionalistas revoltam-se contra o rei da Sérvia, um Obrenovitch - o último - que reina sob o nome de Alexandre e cedeu os direitos a troca de sal, de tabaco, de administração dos caminhos de ferro, aos bancos imperiais austríacos. O domínio de Viena é absolutamente insuportável. O cérebro da conjura é um coronel... Dragutin Dimitrijevic, conhecido pelo nome de Ápis. Na noite de 10 de junho de 1903, os conjuradores, conduzidos por Ápis, cercam o Palácio Real, degolam as sentinelas, rebentam as portas com dinamite e assassinam com golpes de sabre a família real, Alexandre e a rainha Drag, Antes de os atirar por uma janela, o tenente Ápis, Tankosic, degola os dois irmãos da rainha e a maior parte dos cortesãos surpreendidos no palácio. Atingido por várias balas, Ápis é dado como morto. Sobrevive e, enquanto os conspiradores chamam ao trono Pedro Karageorgevitch, que se torna Pedro I da Sérvia, o coronal Ápis recebe o título de "salvador da pátria". O seu sonhos, fundar a Jugoslávia sob a égide sérvia.
24 de julho de 1908. revolução em Constantinopla. O sultão Abd-ul Hamid é deposto: o poder cai nas mãos de um grupo de jovens oficiais que pretende ocidentalizar a Turquia. A Bulgária, até então tributária da Turquia, proclama-se independente e o príncipe Fernando toma o título de Czar dos búlgaros. Um vento de guerra sopra sob os Balcãs. 
5 de outubro de 1908. A Áustria-Hungria decide anexar pura e simplesmente a Bósnia-Herzegovina, sob a sua protecção desde 1878 (nomeadamente turca e confinada ao congresso de Berlim à "administração de Viena"). A decisão provoca a cólera nas duas províncias onde sérvios e croatas, muçulmanos e italianos, suportavam já muito mal a ocupação austro-húngara. De Belgrado, os sérvios fazem apelo aos russos. Os austríacos apoiam-se na Alemanha. Na Bósnia, sucedem-se os actos de terrorismo contra os fantoches da administração austro-húngara. Leis de excepção vêm acalmar os terroristas e tentar dividi-los. Em S. Petersburgo, o embaixador da Alemanha dá a entender ao Czar Nicolau II que é preciso reconhecer a anexação das duas províncias. Caso contrário, a Áustria agirá directamente na Sérvia e será a guerra. S. Petersburgo cede. Princip, Cabrinovic, Grabez, tem então doze anos. Como todos os liceais bósnios, sentem crescer o ódio contra o ocupante austríaco. A Sérvia teve de aceitar. O coronel Ápis, em Belgrado, agora chefe dos gabinetes de informações do exército, bem como vários outros militares, aguardam a sua hora.
17 de outubro de 1912. Rebenta a primeira guerra balcânica. Pedro, da Sérvia, aliou-se ao Czar Fernando, a Bulgária, e a Venizelos, que governa a Grécia - cujo rei soberano é o rei Constantino, cunhado de Guilherme II - para atacar os turvos, cujas atrocidades cometidas por Bachi Buzuks, horrorizaram a opinião pública europeia. Os sérvios tomam Monastir; os gregos apoderam-se de Salónica, os búlgaros marcham sobre Andrinópoles, mas são batidos. Fernando assina o armistício. A Áustria mobilizou imediatamente 150 000 homens, faz da Albânia um Estado independente, oferecendo a coroa do pais a um aristocrata alemão, o príncipe de Wied, e tenta colocar o rei de Montenegro, sogro do rei da Itália Victor-Emanuel III, contra Pedro I da Sérvia. Guilherme II promete o seu apoio à Áustria-Hungria. A França afirma que respeitará o seu tratado de aliança contra a Rússia. A Itália, que não deseja ver os sérvios no Adriático, anuncia em Paris que apoiará a Dupla Monarquia através de uma intervenção armada. Armistício, hostilidades, que recomeçam em fevereiro de 1913, suspensão de hostilidades a 16 de abril: a Turquia cede aos aliados balcânicos todos os territórios situados a oeste da linha Enos-Midia e Creta. Evitou-se a 30 de maio, nos preliminares de Londres, a primeira guerra mundial.
O fogo reacendeu-se um vez mais 26 dias depois. Sérvios e Búlgaros não estão de acordo quanto às partilhas dos restos do Império Otomano. A 26 de junho de 1913, abrem-se as hostilidades entre os aliados balcânicos de pouco antes. A Bulgária ataca a Sérvia. Os gregos intervêm junto dos sérvios. Os turcos, na esperança de uma desforra, preparam-se para declarar guerra à Bulgária. A despeito dos conselhos de Viena, a Roménia entra por sua vez em conflito, contra os Búlgaros. A Áustria-Hungria "ante o reforço desmedido do reino Sérvio, prepara-se para intervir activamente".
Face aos russos e aos seus aliados, os franceses, os co-signatários da tripla aliança - Alemanha, Áustria-Hungria, Itália, erguem-se em pé de guerra. A 10 de agosto, é assinada a paz de Bucareste, que consagra a derrota dos Búlgaros. Com os restos do Império Otomano, os Búlgaros vêem apesar disso a sua população aumentada de 400 000 habitantes. A Sérvia ganha 1 200 000; a Grécia, 1 600 000, com Salónica.  Mas os turcos conservam Andrinópoles.
A crise balcânica, nos primeiros meses de 1914, parece de momento bloqueada, e travada a engrenagem de um conflito generalizado. Mas, fora das chancelarias, dos governos, acumulou-se pouco a pouco um clima excessivamente apaixonado, clima que encontra o seu catalizador em hierarquias paralelas, ignoradas pelas autoridades e de acção incontrolável. 
Tal é o caso de Belgrado. As sociedades secretas pululam. No restaurante Kalaraz, em torno do coronel Ápis e do tenente Tankosic, agora major, encontram-se os oficiais que urdiram e levaram a cabo o assassinato do rei Alexandre, colocando-o no trono de Pedro I. Para eles, a subida ao trono de um Karageorgevitch é apenas um primeiro passo. A fundação da Jugoslávia, sob a égide sérvia, continua a ser o objectivo final. Mas esta fundação terá fatalmente de ser precedida por uma revolução interior... ou por uma guerra...
Tankosic, pelo seu lado, conspira. Sanguíneo, violento, homem de mão e de sangue, conspirar, para ele, é formar bandos de comitadjis - partidários nacionalistas - na Alta-Macedónia, para combates corpo a corpo com os soldados turcos, excitar a armar os croatas e os bósnios para inflamar liceais e universitários, dispersar sobre os governantes e altos funcionários colocados pelo ocupante austríaco.
Nos pequenos cafés de Belgrado que se abrem sobre a Skarfalija, sobre a Makidonska Vlida, sobre o Ring, nas antejolas que Tankosic frequenta, reúnem-se croatas, bósnios, homens de Banat de Priled, de Monastir, de Uskub, que vão lá procurar, além de boas palavras, ordens, por vezes até armas, e em todo o caso um ar de liberdade. Bebe-se, fala-se em voz baixa, conspira-se.
Princip e Cabrinovic encntram-se em Belgrado pouco antes da Páscoa de 1914. Tinham encontros com outros estudantes bósnios, com exilados, com comitadjis, e com um certo grupo de oficiais sérvios, no café Zirovni Vijenac, no Pazorisma e no café Amerika. Operários, estudantes, "comandos", militares, toda uma fauna de horizontes políticos muito diversos, que se encontra nestes cafés e nestes antejolas de Belgrado: desde os anarquistas aos partidários do rei Pedro I da Sérvia, dos nacionalistas aos ideais cosmopolitas. Em todo o caso, clientes sonhados por Tankosic. Os bósnios, anexados pela Áustria desde 1908, voltam-se para os seus irmãos de raça, eslavos como eles, os sérvios. E os espíritos aquecem-se, após duas crises balcânicas seguidas, com a leitura de jornais nacionalistas, Politika, Pradva, Balkan, e de uma revista, Piemonte, órgão de uma sociedade ultra-secreta, a Mão Negra, cujos responsáveis muito poucos conhecem, e entre esses poucos não se contam, em todo o caso, os membros do governo de rei Pedro I da Sérvia.
Muitos desses assíduos frequentadores de café militam, desde outubro de 1908, nas fileiras de uma outra sociedade, também ela secreta e extremamente poderosa: a Narodna Odbrana (A Defesa da Nação).
Os objectivos da sociedade secreta Narodna Odbrana são precisos: recrutar um certo número de homens seguros e dedicados à causa nacional com vista à preparação da guerra contra a Áustria. A sociedade não tarda a contar com mais de 220 secções, ou comités locais. Mas quando, em 1909, pressionada pelas grandes potências, a Sérvia se vê obrigada (face à anexação da Bósnia Herzegovina pela Áustria-Hungria) a renunciar a qualquer intervenção e a reconhecer o carácter internacional da questão, a Narodna Odbrana, sociedade até então terrorista, abdica dos seus ideais e consagra-se, de momento, "à promoção económica e intelectual da população sérvia", continuando todavia a preparar a "unidade nacional". É verdadeiramente muito pouco para os terroristas e os activistas, que sonham com a luta contra os austríacos.
Tankosic e Ápis procuram outros meios de acção. O cônsul Bogdan Radenkovic fornece-lhe a ideia: no decurso de uma jantar no salão particular do hotel Moscovo, lança a ideia de reconstituir na Sérvia a Carbonária, uma dessas sociedades secretas que enxamearam a Europa no século anterior. Sociedade secreta, cenário, ritos, Radenkovic é sensível a todos esses detalhes: um romântico... ainda que um bom psicólogo. De acordo com Tankosic, Ápis e outros quatro - sete homens ao todo - funda a sociedade secreta com que sonhava desde maio de 1911. "A União ou a Morte". Mais tarde, será conhecida por "Mão Negra". Ápis toma rapidamente a direcção da organização.
Professor de táctica, oficial de informações, o coronel Dragutin Dimitrijevic é na altura chefe do Gabinete de Informações do exército sérvio. Grande, largo de ombros, silencioso, de olhar duro e fixo, sabe tomar atitudes. A sua fama como chefe da conjura de 1903 (chamam-lhe o matador de Reis), impõem-no aos jovens oficiais. É um homem de sombras e de mistério, de marcas e de pseudónimos, que gosta de puxar os cordelinhos escondidos nos bastidores.
A " Mão Negra" fixa a si mesma um objectivo: a libertação dos sérvios que continuam sob o domínio estrangeiro, e o estabelecimento de uma Federação de Eslavos do Sul, tendo como motor o reino da Sérvia. É dirigida por uma comissão de seis membros: três militares e três civis. É composta por células de três elementos cada uma. Nela encontram-se, indiferentemente, sérvios, croatas, muçulmanos. Quando um membro consegue recrutar novos adeptos, forma com eles uma nova célula. Mas nenhum membro, salvo os que constituem o Comité Central, conhece quaisquer outros filiados, a não ser os dois que acaba de agregar e os dois que abandona. Deste modo, fugas e traições são rapidamente estancadas, e o carácter ultra-secreto da seita mantido. Cada membro é, em principio, designado por um número. Só o Comité Central possui uma lista nominativa dos adeptos, ainda que os membros não súbditos do reino da Sérvia só se encontrem inscritos nessa lista pelo seu número.  Todos devem obedecer cegamente às ordens superiores, todo o traidor é punido com a morte. 
Os fundadores das células colocam-se naturalmente à cabeça delas, recebem instruções, transmitem informações, asseguram os contacto entre os filiados e o Comité Central. O seio da sociedade secreta mostra um punho fechado empunhando uma bandeira que ostenta uma caveira, duas tíbias cruzadas, uma bomba, um punhal, e uma frasco de veneno. O recrutamento compete a Tankosic e a Radenkovic, sob a direcção de Ápis., que, devido às suas funções oficiais, dispõe de um enorme ficheiro. A Yovanovic, editor do jornal Piemonte (aos olhos da Mão Negra, a Sérvia terá o Piemonte da futura Jugoslávia), compete o cuidado de redigir os estatutos. Os membros do Comité Central encontram-se na redacção do jornal Piemonte, mas deliberam quotidianamente num apartamento da rua de Knaz Mihajlo, no coração de Belgrado.
Dispondo de cumplicidade no exército, a inteligentsia, entre certos notáveis, a Mano Negra estende pouco a pouco as suas malhas. A coroa e o governo sérvio do radical Pachitch ignoram até a sua existência. Em 1914, Ápis dispõe de uma organização com vários milhares de membros, cuidadosamente recrutados. Poder-se-ia objectar: e o dinheiro? No seu posto, Ápis, chefe do Gabinete de Informações do Exército Sérvio, dispõe - oficialmente - de dinheiro, de espiões, que utiliza para seus fins - a Mão Negra -  sem ter por seu lado que desembolsar um centavo. Bombas e revólveres são fáceis de encontrar, pois basta ir buscá-los aos arsenais onde se abastecem os comitadjis. Os voluntários, estudantes ou trabalhadores, patriotas ou anarquistas, vindos de terras ocupadas pela Áustria, não faltam e pedem muito pouco dinheiro para agir. Com cumplicidade no exército, aprendem o manejo de armas e de bombas no polígono de manobras militar... a poucos quilómetros de Belgrado... Como aprenderiam - oficialmente desta vez - os voluntários para a guerra dos aliados balcânicos contra os turcos, dois anos antes.
No interior, isto é, na Sérvia, o coronel Ápis dispõe de agentes que controlam todo o reino. Desejoso de estender ainda mais a sua influencia, procura introduzir-se na Narodna Odbrana que deixou, como vimos, de ser uma sociedade propriamente terrorista desde 1903. A sua ambição seria controlá-la, como já controla o círculo de oficiais conspiradores de 1903 e a Mão Negra. Se a Narodna Odbrana reprova hoje o terrorismo, porque não imiscuir-se nela e tomar-lhe o controle? Ápis introduz nas fileiras da organização um dos seus amigos: o major Milan Vasic, chefe dos comitadjis. Infelizmente, no decurso da guerra de 1912, Vasic é morto e Ápis perde um instrumento de primeira água. 
No exterior, os homens da Mão Negra estão presentes em todos os territórios onde habitem eslavos do Sul. Na Bósnia, a alma da Mão Negra chama-se Vladimir Gatchinovic. Em Lausana, onde estuda, este último estabeleceu uma relação com dois emirados russos: Trotski e Lunartcharski, que são na altura agitadores russos no exílio, desconhecidos ou pouco conhecidos. Trotski troça frequentemente do seu amigo sérvio "demasiado infectado, para seu gosto, de romanticismo revolucionário".
Assim, no território austro-húngaro, a Mão Negra tem pontos de apoio seguros: Sarajevo, Agram (hoje Zagreb) e por fim Spalato (hoje Split), formigam de conspiradores, de fanáticos. Os mais violentos são os estudantes, os colegiais. Formam grupos revolucionários, por vezes muito reduzidos, onde todos se exaltam até ao delírio. Jovens que comem mal e se reúnem entre cafés turcos e copos de raki. Nacionalistas ou anarquistas, todos eles estão desejosos de acção directa. Acreditam que só poderão impor-se pelo terror. O revólver e a bomba são os argumentos aos seus olhos decisivos. Exactamente o que interessa ao coronel Ápis. De vez em quando, entre duas estadias em Lausana,    Vladimir Gatchinovic surge em Sarajevo para inflamar os seus camaradas. Há também Danilo Ilic, professor primário, fanático e anarquista como Gatchinovic. Princip, que, sendo mais jovem não tem ainda um só combate no activo; Oscar Rataglia, de Spalato, traz, a este meio singularmente agitado, influência do elemento latino e católico. Se a maioria destes jovens não figuram das suas listas, constituem, em todo o caso, os homens da acção, sempre disponíveis na Mão Negra.
Não se passa um mês sem que a juventude universitária de Agram desça à rua, não se passa um trimestre sem que as escolas secundárias da Croácia, da Dalmácia e da Bósnia façam greve.
Ápis, escondido atrás de toda essa agitação, recebe os estudantes, a aceita os mais ardentes na Mão Negra, fornece-lhes armas, tudo isto muito antes de 1914. O atentado perpertrado em 1912 por Jukic contra Cujav, um pro-austríaco que se comissário do governo em Agram, foi "aprovado" por Ápis, tendo o futuro assassino sido amestrado no manejo do revólver e da bomba por Tankosic. Depois é a vez de Skerlec estar prestes a ser assassinado, na Bósnia, por outros grupos terroristas. 
Os assassinos brotam da terra. O general Potiorek, governador da Bósnia desde a anexação austríaca, tem a morte colada aos calcanhares e sabe-o perfeitamente. No entanto, os governos de Viena e de Budapeste acreditam tratar-se de acções isoladas, ou, quando muito, de movimentos universitários. Ignoram, claro, a acção da Mão Negra. E os políticos sérvios não sabem muito mais. O segredo é admiravelmente mantido.



Fonte: História do Ocultismo, Seitas e Sociedades Secretas, Bernard Michal, Jean Renald

               

7 de abr. de 2019

L'Onorata Societa: a Máfia



Jornal Le Monde, junho de 1972:
"...Um professor norte-americano da Universidade de Yale afirma, perante uma comissão do Senado encarregada de investigar o tráfico de estupefacientes no Vietname: "...Em 1965, membros da Máfia da Florida fizeram a sua aparição no sueste asiático. Santo Traficante, herdeiro da família fundada por Lucky Luciano, dirigiu-se a Saigão e a Hong Kong a fim de aumentar as exportações de droga para os Estados Unidos..."
Ninguém hoje se espanta ao encontrar no seu jornal uma notícia deste tipo. Para o mundo inteiro, a Máfia, organização norte-americana de crimes de todos os géneros, faz parte da vida quotidiana. Admite-se universalmente que os seus membros dispõem de um poder oculto imenso, que podem, as mais das vezes impunemente, entregar-se às suas criminosas actividades. No fundo, para a maior parte de nós, a Máfia tornou-se numa espécie de flagelo natural, como de tremores de terra ou de tufões se tratasse, contra os quais é preciso lutar, mas sem grande esperança de êxito. 
Parece quase sempre impossível que esta enorme empresa criminosa tenha nascido numa das ilhas mais pobres e mais deserdadas do Mediterrâneo: a Sicília. E nem sequer em toda a Sicília, mas apenas na sua parte ocidental, um triângulo de terras ingratas, de colinas peladas, vales ressequidos, orlada de enseadas e de praias torradas pelo sol. Desde há séculos, um povo rude e orgulhoso tenta sobreviver nesta região, numa fome quase permanente, numa luta incessante contra a natureza hostil e também contra uma sucessão ininterrupta de invasões vindas de todos os horizontes.
Um alto dignitário da Igreja explicava assim, há alguns anos, a origem da Máfia:
"Já leram a história desta ilha? Já ouviram falar dos estrangeiros que se sucederam durante mais de vinte séculos para conquistá-la e ocupá-la? Gregos, cartagineses, espanhóis, godos, bizantinos, sarracenos, fenícios, romanos, árabes, berberes, franceses, austríacos, alemães... Isto não cessou. Guerra atrás de guerra, durante dois mil anos. Toda a ocupação provocava inevitavelmente uma resistência. E sempre assim foi na Sicília. Trata-se de um povo orgulhoso, um povo que ama a liberdade. O carácter de um povo determina o de um tal movimento de resistência. É por isso que a Máfia, que sempre foi um movimento de resistência, sempre teve um carácter próprio. é tipicamente siciliano..."
E quando o jornalista que interrogava o prelado lhe falou nos assassinatos cometidos pela Máfia, o homem da Igreja defendeu-a:
"Todo o movimento de resistência pode ter motivos nobres, mas também tem os seus maus aspectos. Sempre assim foi. Até na Sicília. Sim, aprende-se a matar; é preciso punir os traidores. E inspirar um santo pavor aos hesitantes. É preciso dar exemplos. Não se pode tolerar a mais pequena fraqueza. Com uma mão de ferro, há que manter uma disciplina de ferro. E mais ainda: é preciso aprender a mentir, para servir a verdade. O limite entre a resistência e o banditismo é uma linha extremamente vaga, estreita, de contornos caprichosos."
Com o objectivo de darem crédito a esta nobre origem do patriotismo, os mafiosos fazem remontar os inícios da sua associação à Pascoa de 1282, durante a ocupação francesa. Nesse dia teve lugar aquilo que a História chamou de Sangrentas Vésperas Sicilianas. Desde há doze gerações, os Sicilianos transmitem, de pais para filhos, este heróico relato:
"Nessa segunda-feira de Pascoa, os sinos da igreja do Espírito-Santo, em Palermo, chamavam os crentes a Vésperas. Um jovem soldado da Provença, Pierre Druet, aproveitou o momento para tentar violar uma jovem siciliana no portal da igreja. A jovem gritou desesperadamente, por socorro. Alguns transeuntes acorreram ao local e lançaram-se sobre Druet. Então, bruscamente, tudo, na cidade e nos seus arredores explodiu: o ódio, o desespero, o azedume acumulado durante dezasseis anos de miséria. Ninguém sabe quantos morreram, nesse dia e no seguinte. Claro que os franceses se defenderam, mas os homens, as mulheres, e até as crianças de Palermo, lançaram-se em hordas selvagens sobre os invasores. Retalharam-nos com as suas temíveis facas. Estrangularam-nos. Destroçaram os cadáveres dos franceses. Os sinos continuaram a tocar, solenemente, pesadamente, como se quisessem santificar aquela orgia de sangue. Os primeiros assassínios foram espontâneos,  mas não tardou a verificar-se que havia uma organização que não queria que o furor se aplacasse. Durante duas vezes vinte e quatro horas, matou-se sistematicamente. segundo uma estratégia impiedosa. Havia até um chefe cuja memória todos celebram ainda: João de Procida. Quando os reforços franceses chegaram a Palermo, tiveram de reconquistar a cidade, rua após rua, praça após praça, casa após casa. Nunca ninguém contou os milhares que pereceram durante as Vésperas sicilianas."
A lenda diz também que as Vésperas sicilianas estariam na origem da palavra Máfia. Com efeito, durante toda a revolta, os insurrectos haviam adoptado como grito a seguinte expressão: Morte Ala Francia, Itália Anela, (Morte à França, é o Voto da Itália) cujas iniciais formaram o nome da sociedade secreta. 
No entanto, esta etimologia romanceada não convence os historiadores. Ninguém, todavia, pode afirmar que conhece a origem da palavra Máfia. Alguns pensam que mafie, plural de Máfia, designava outrora, muito simplesmente, as rochas de Trapani, na ponte oeste da Sicília. Sabe-se que diversas sociedades secretas gostavam de reunir-se nas grutas dessa região. Os outros pensam encontrar a raiz da palavra Máfia em termos árabes, mahias, por exemplo, que significa gabarola ou fanfarrão, ou magtaa, que significa caverna, ou reduto. Outros ainda pretendem que Máfia deriva da velha palavra francesa Maufe (mau), do florentino maffia (miséria), do grego morphé (beleza, perfeição). 
Quanto à verdadeira origem da Máfia, também quanto a ela quase cada historiador tem a sua própria explicação. Alguns fazem remontar as primeiras manifestações a mais ou menos 1670. Sob um outro nome, teria sido um organismo de ligação de resistência, de bandos e de fratellanze (confrarias).
O que é certo é que se criou, em Palermo, em 1870, uma sociedade secreta, a Beati Paoli, que teria em breve uma sucursal em Messina. É um movimento de aristocratas, de "nobres esclarecidos" que lutam pela libertação e pela independência da Sicília. Como mais tarde aconteceria com a Máfia, inventa para si mesma um cerimonial misterioso. Os seus membros reúnem-se em segredo, numa gruta perto da igreja de San Rocco. O primeiro objectivo é a defesa da aristocracia siciliana pois, para ela, o que é bom para os nobres é proveitoso para todo o povo siciliano. Encontra-se aqui uma filosofia que será a da Máfia: o que é bom para a Máfia, beneficia todos os sicilianos. 
A própria palavra Máfia só aparece na linguagem corrente em 1863, exactamente. Encontramos-la impressa pela primeira vez no título de uma peça de teatro, I Maffiusi de la Vicaria, que relata alguns episódios da vida dos detidos da prisão de Palermo. Os mafiosos são os membros de uma espécie de sociedade secreta de bandidos que tentam reger a vida no interior das masmorras. Para o autor, trata-se, nem mais nem menos, de uma associação de patifes, sem qualquer ideal de libertação ou de resistência. 
É com efeito por volta de 1860 que se instaura, no oeste da Sicília, especialmente em Palermo, e nos campos circundantes, o poder da Máfia. Atravessa uma época muito conturbada da história da Itália. Os seis estados em que ainda se divide a península cambaleiam sob os golpes do Risorgimiento - isto é, do vasto movimento que tende para a unidade nacional, cujos heróis são Mazzini, Cavour, e sobretudo o célebre Garibaldi. Este último, à frente dos seus famosos "Mil camisas vermelhas" vai, entre 1860 e 1861, libertar a Sicília do jugo dos Bourbons, que reinam em Nápoles. Depois, a expedição atravessará o estreito de Messina, percorrerá a Calábria e chegará a Nápoles, onde Garibaldi fará, após inúmeras peripécias, acto de submissão ao rei Victor Emanuel, do Piemonte.
A Máfia, naturalmente, tomará parte nas lutas garibaldinas na Sicília. Mas, sob a capa de ajudar os libertadores, estes bandos entregar-se-ão mais a actos de banditismo do que a verdadeiras acções militares. Isto permitir-lhe-á, todavia, afirmar a sua autoridade sobre os oeste da Sicília, pois, curiosamente, nunca esta sociedade secreta conseguirá implantar-se de facto na metade leste da grande ilha.
É preciso dizer que a região da Concha de Ouro (os campos em torno de Palermo), presta-se, pela sua topografia e pelos seus costumes, ao estabelecimento de um regime de terror que é, de facto, o da Máfia.  Esta região, a mais fértil da Sicília, sempre foi, de resto, cenário de crimes misteriosos, de vinganças sangrentas e de manifestações espectaculares de orgulho dos insulares.
A maior parte desta região está dividida em propriedades pertencentes a fazendeiros ou a aristocratas residentes na cidade, e até muita vezes no continente. a grande maioria destes arrendam as suas terras, contentando-se em receber rendas anuais. 
Os seus rendeiros têm necessidade, para poderem vigiar as suas terras que cultivam, de guardas, pois o banditismo e o latrocínio pululam na região. Estes guardas são muito numerosos na Concha de Ouro e constituem uma espécie de confraria muito fechada cujos membros, entre si, se chamam compadres, se solidarizarem uns com os outros. Na Sicília, o título "compadre" é uma coisa sagrada. A solidariedade, entre eles, é maior do que entre os membros de uma mesma família. 
Um destes guardas da quinta impõe-se, por vezes, aos seus compadres. É admirado se esteve na prisão, sobretudo se isto se ficou a dever a uma rixa da qual tenha saído vencedor, de um modo sangrento. Quando este indivíduo se vê chamado de compadre por um homem político, um médico ou um advogado, torna-se, aos olhos dos amigos, um verdadeiro super-homem, é rapidamente reconhecido chefe indiscutido da Máfia de toda a região. Torna-se de um certo modo rei, está ao corrente de tudo, e aqueles que voluntariamente lhe deram aquele poder vêem-se obrigados a obedecer-lhe cegamente, sob pena de morte.
O ódio tradicional do siciliano pela justiça oficial e pela Polícia, leva-o a recorrer, em caso de litígio, ao chefe da Máfia local, que assim se torna o árbitro supremo.
De qualquer modo, a regra principal de toda a organização da Máfia e das suas subordinadas é a grande lei do silêncio siciliano, a omerta. Aqui reside o próprio fundamento de todo o poder da organização. A traição, o testemunho, o simples falatório, sempre foram considerados na Sicília crimes imperdoáveis. E só têm um castigo: a morte.
No centro-oeste da Sicília, onde as grandes propriedades, os latifúndios, são ainda mais vastos, o sistema de guardas permite aos mafiosos enriqueceram ainda mais rapidamente. Criaram, para proteger  as propriedades senhoriais, uma verdadeira polícia privada, que cobre toda a região. São os campieri, cujos bandos mantém a ordem em toda a zona. Os proprietários dos latifúndios concedem-lhes benefícios de todos os géneros: cavalos, alojamento gratuito, forragem para os animais, trigo à discrição, salário elevado, tudo para se assegurarem da sua fidelidade.
No entanto, os campieri tiram a maior parte dos seus lucros da prática de um delito muito especial que tem, na Sicília, o nome de abigeato. Consiste em fazer roubar, durante a noite, por mafiosos amigos, numa quinta vizinha, um número mais ou menos importante de animais, que são vendidos por ladrões a compadres ou nas feiras. Os lucros desta operação são escrupulosamente divididos por todos os cúmplices.
Acontece por vezes que o proprietário cujo rebanho acaba por sofrer a razzia se dirige ao chefe mafioso local para obter a restituição dos seus bens, Este, que é cúmplice dos ladrões, propõe então ao proprietário que pague uma espécie de resgate pelos seus animais. Este último sabe que lhe resta concordar ou sofrer um castigo por ter sido roubado, castigo que regra geral é a morte.
Também nas cidades se implanta a Máfia. Recruta, sobretudo de início, entre os ricottari,os rapazes maus do meio. Entre eles contam-se muitos filhos de família desviados, vivendo em parte dos encantos das suas companheiras e tirando a maior fatia dos seus lucros da chantagem e da trapacice.
Protegidos, sabem-se ao abrigo de qualquer perseguição, graças ao princípio da omerta. Não precisam, portanto, de esconder-se, e passeiam-se pelas ruas armados de punhais e de revólveres, ou até de carabinas, sem que a Policia ouse intervir. Os ricottari apoiam-se uns aos outros ao ponto de se deixarem matar no lugar dos amigos. Mas este género de vida dura pouco. Passados os trinta anos, o ricottaro torna-se um verdadeiro mafioso, membro da grande organização. Possui então um grande prestigio moral, que lhe permite dominar todo os seu bairro.
A casa de um chefe mafioso assemelha-se estranhamente à de um aristocrata da antiga Roma. Uma longa fila de cientes e de demandistas forma-se diante da porta, logo a partir das primeiras horas do dia. Quando ele aparece, de todos os lados chovem elogios, cumprimentos e pedidos. O chefe escuta tudo isto, adoptando um ar de grande superioridade. Regra geral, de entre as causas que lhe suplicam que solucione escolhe aquelas susceptíveis de serem mais difíceis. Um dos seus trabalhos mais importantes consiste em influenciar a justiça de modo a ilibar os seus clientes. E para o conseguir nunca hesita em recorrer à intimidação, à chantagem, à ameaça de morte. Aqueles que ele ajuda sentem-se obrigados a ajudá-lo por sua vez, quando ele lhes pede um favor, dos quais o mais pequeno é geralmente liquidar com um tiro de espingarda um devedor recalcitrante ou um homem que se tenha recusado a aceitar a sua arbitragem.
Assim, pouco a pouco, nos fins do séc. XIX, a sombra da Máfia, da Honorável Sociedade, estende-se sobre uma grande parte da Sicília, primeiro constituída por bandos separados e muitas vezes rivais, organizando-se depois numa sociedade de hierarquia, leis e costumes bem definidos.
Naturalmente, à medida que a Máfia ganha importância, sente a necessidade de ocupar-se da política. Já em 1901, um historiador escrevia, a propósito da Sicília:
"Onde quer que a Máfia seja forte, nenhum candidato pode ser eleito, no escalão comunal ou nacional, sem o apoio da sociedade secreta. E só obtém esse apoio no caso de garantir a sua ajuda à Máfia, uma vez eleito. É por isso que a Máfia tem os seus protectores, na Câmara e no Senado, e é por isso que o governo tem contactos com os mafiosos mais importantes. Os bandos da Máfia podem operar livremente. Recebem licenças de porte de arma que são recusadas a honestos cidadãos. A Máfia sabe que nem o governo nem o Parlamento se oporão às suas operações de chantagem desde que estas se façam com um mínimo de tacto. Em troca, a Máfia barra a passagem, nas eleições seguintes, a uma eventual oposição. Esta mão invisível paralisa a política de Roma. Até a Polícia suporta o fardo tradicional dos funcionários, que já suportava sob os Bourbons: tolera o crime, desde que ele não provoque um escândalo público. Um polícia ou um juiz que tome um pouco mais a sério as suas funções, não tardará a aperceber-se que alienou a favor de seus superiores..."
O verdadeiro organizador da Máfia moderna, aquele que lhe deu o seu aspecto definitivo, foi Don Vito Cascio Ferro, nascido em Bisaquino, na província de Palermo. A partir do início do séc. XX, exercerá sobre toda a Máfia uma autoridade absoluta. 
Sob seu reinado, a Máfia chegou ao ponto de possuir uma frota capaz de expedir para toda a Tunísia o gado roubado e de transportar para o alto mar os criminosos perseguidos pela Polícia, que depois eram confiados a navios com destino à América.
Foram estes colonos singulares que fundaram nos Estados Unidos, em St Louis, Chicago, Kansas City e New Jersey, a organização criminosa Mão Negra.
Don Vito é igualmente notável na arte de receber u pizzu. U pizzu, no colorido dialecto siciliano, significa o bico de uma pequena ave, molhar o bico: fari vagnari u pizzu, significa receber um copo de vinho.
Não tarda que todas as receitas sejam taxadas pela Máfia. Não só os comerciantes lhe pagam uma dízima para evitarem que as suas mercadorias sejam deterioradas de mil maneiras diferentes, como Don Vito impõe o sistema de "praça garantida"; em qualquer praça ocupada por um "amigo", não é consentida qualquer espécie de concorrência, e o beneficiário do monopólio é convidado a pagar uma comissão à Máfia. Por outro lado, a criminalidade é transformada em negócio: sempre que é cometido um crime, Don Vito oferece a mediação. Deste modo, o ladrão nada tem a temer, a vítima paga para recuperar os seus bens, e a Máfia recebe a sua parte. Finalmente, todos e cada um têm de pagar à Máfia uma renda fixa e preventiva, a fim de poder viver tranquilamente. Até os apaixonados, se querem passear, como na época é costume, sob a janela da amada, têm de pagar "a cannila", isto é, uma contribuição simbólica para custear a vela que um membro da Máfia é suposto ter segurado para alumiá-los.
Muitas pessoas, sobretudo na província de Palermo, recordam-se de Don Vito: alto, distinto, de porte aristocrático, usando uma comprida e venerável barba. Ninguém teria suspeitado o que ele seria, na verdade. O prestígio que goza é inimaginável; os alcaides das aldeias beijavam-lhes as mãos; os personagens mais distintos veneravam-no.
A Máfia, sob o controle de Don Vito, organiza-se e estrutura-se. Adquire, na Sicília, a forma definitiva que conservará, mais tarde, nos Estados Unidos. A célula principal é a família. A família cobre geralmente uma aldeia, ou um pequeno grupo de aldeias vizinhas. Os membros são frequentemente parentes, irmãos, primos, filhos, pais, ou, pelo menos, pessoas que vivem perto umas das outras. As famílias reúnem-se em grupos denominados "cosche". A Cosca (que significa cocha, ou alcachofra), consagra a preponderância da família mais poderosa sobre as outras famílias que dela fazem parte. Diz-se então que as outras famílias a rodeiam, isto é, a protegem e lhe devem assistência, como as folhas da alcachofra rodeiam e protegem o seu coração.
Existem igualmente "cosches" especializados numa mesma indústria ou em várias indústrias complementares. Estes interesses comuns permitem e esses "cosches" reunirem-se em consortiere (associação). Todo este conjunto forma aquilo que se convencionou chamar a Onorata Secreta, isto é, a Máfia.
Don Vito mantém a preponderância da sua terra nata (a Sicília natal) sobre as "cosches" norte-americanas fundadas pelos emigrados sicilianos segundo o modesto insular. Não hesita em enviar aos Estados Unidos pisciotti sicilianos para chamar ao bom caminho os mafiosos emigrados que mostrem tendência para fugir à autoridade da terra nata. É curioso constatar que foram necessários mais de vinte anos após a segunda guerra mundial para que a Máfia americana se afirmasse em relação à Máfia siciliana, conservando todavia face a esta última as fórmulas do respeito tradicional.
A Máfia utiliza igualmente uma linguagem especial, a que os seus membros recorrem quando querem tornar as suas conversas incompreensíveis para os não iniciados. Muitas vezes, a palavra utilizada não tem a sua significação própria, mas uma outra, diferente, por vezes simbólica pela imagem que evoca. Esta linguagem é acompanhada por mímicas, por movimentos das mãos, da cabeça, dos olhos, dos ombros, do ventre, dos pés. Os mafiosos são capazes de fazer todo um discurso sem abrirem uma única vez a boca. São capazes de conversar à distância, num café, por exemplo, sem que ninguém suspeite sequer que se conhecem. É ainda possível, mesmo nos nossos dias, tratar de um assunto de drogas sob os olhos de um polícia do Serviço norte-americano de Narcóticos. A mímica mafiosa possui vários dialectos segundo as regiões de origem daqueles que a utilizem. Viu-se o caso, no tribunal de Palermo, de um chefe de cosca acusado de assassínio, ditar todas as suas disposições às testemunhas que eram chamadas, sem que nenhum magistrado, advogado ou polícia tenha dado por isso. 
Conhecem-se também um certo número de sinais discretos que têm para os mafiosos um sentido preciso. Por exemplo, um chapéu usado de um certo modo pode ter significado. Inclinado para a esquerda: vejo-te daqui a pouco; inclinado para trás: socorro. Tudo isto sem exageros, de um modo imperceptível, ou quase, para quem não pertence à Máfia. 
E como se passa a ser membro da sociedade?
Não é de qualquer maneira, dir-lhe-ão na Sicília.
"É-se escolhido; é-se observado cuidadosamente durante anos antes que seja chamado a prestar juramento."
O rito é tão antigo como a própria Máfia. Certo dia, o jovem que está prestes a entrar para um pequeno grupo de mafiosos é apresentado, pelo capo da sua aldeia ou do seu cantão, ao Conselho dos Anciãos, que é um conselho secreto. A sala onde se desenrola a cerimónia recorda verdadeiramente um templo. Sobre uma mesa comprida e baixa repousa um ícone, entre duas velas acesas. Como para um baptismo, o futuro Mafioso é acompanhado por dois padrinhos, velhos mafiosos que propuseram a sua candidatura. Espetam-lhes as mãos com compridas e pontiagudas agulhas, até lhas transformarem em duas bolas ensanguentadas. Então, o candidato pousa as mãos vermelhas de sangue no ícone e pronuncia a celebre fórmula:
"Juro ante Deus que ajudarei os meus irmãos que estiverem em dificuldades, mesmo com risco para a minha vida. Juro que vingarei o mal feito aos meus irmãos, como se me tivesse sido feito a mim mesmo. Juro que nunca pedirei auxílio à Polícia ou a qualquer autoridade civil. Juro que conservarei secretos, em quaisquer circunstâncias, os nomes dos meus irmãos. Juro que executarei todas as ordens do Conselho dos Antigos, sem perguntar os porquês. Aceito que todo o irmão que desobedeça a esta lei seja punido com a morte. Em nome do santo cuja imagem é banhada pelo meu sangue, juro tudo isto. Ámen."
É verosímil que todos os duros da Máfia actual, que não poupam nada nem ninguém, nem sempre se dêem ao trabalho de cobrir um ícone com o seu próprio sangue aquando do rito sagrado de admissão. No entanto, no decurso de uma caçada notavelmente discreta que fez, durante o verão de 1963, a alguns mafiosos sem importância, a Policia siciliana descobriu, na cave mais ou menos transformada em templo de uma casa de Villabete a que passava revista, vários ícones cobertos por uma crosta de sangue.  Era evidente que tinham servido, pouco tempo antes, a um rito de iniciação. Segundo os dados do Departamento do Tesouro norte-americano, a Máfia dos Estados Unidos simplificou um pouco a fórmula do juramento, e, acabada a cerimónia, queima o ícone num fogo simbólico. Fundamentalmente, no entanto, é sempre o mesmo juramento tradicional:
"Juro ser fiel à Máfia, como a Máfia me assegura a sua fidelidade. Tal como o ícone e as minhas gotas de sangue ardem neste momento, juro estar pronto a oferecer o meu sangue à Máfia quando chegar o momento em que as minhas cinzas e o meu sangue deverão voltar àquilo de onde saíram."


Fonte: História do Ocultismo, Seitas e Sociedades Secretas, Bernard Michal, Jean Renald