7 de abr. de 2019

L'Onorata Societa: a Máfia



Jornal Le Monde, junho de 1972:
"...Um professor norte-americano da Universidade de Yale afirma, perante uma comissão do Senado encarregada de investigar o tráfico de estupefacientes no Vietname: "...Em 1965, membros da Máfia da Florida fizeram a sua aparição no sueste asiático. Santo Traficante, herdeiro da família fundada por Lucky Luciano, dirigiu-se a Saigão e a Hong Kong a fim de aumentar as exportações de droga para os Estados Unidos..."
Ninguém hoje se espanta ao encontrar no seu jornal uma notícia deste tipo. Para o mundo inteiro, a Máfia, organização norte-americana de crimes de todos os géneros, faz parte da vida quotidiana. Admite-se universalmente que os seus membros dispõem de um poder oculto imenso, que podem, as mais das vezes impunemente, entregar-se às suas criminosas actividades. No fundo, para a maior parte de nós, a Máfia tornou-se numa espécie de flagelo natural, como de tremores de terra ou de tufões se tratasse, contra os quais é preciso lutar, mas sem grande esperança de êxito. 
Parece quase sempre impossível que esta enorme empresa criminosa tenha nascido numa das ilhas mais pobres e mais deserdadas do Mediterrâneo: a Sicília. E nem sequer em toda a Sicília, mas apenas na sua parte ocidental, um triângulo de terras ingratas, de colinas peladas, vales ressequidos, orlada de enseadas e de praias torradas pelo sol. Desde há séculos, um povo rude e orgulhoso tenta sobreviver nesta região, numa fome quase permanente, numa luta incessante contra a natureza hostil e também contra uma sucessão ininterrupta de invasões vindas de todos os horizontes.
Um alto dignitário da Igreja explicava assim, há alguns anos, a origem da Máfia:
"Já leram a história desta ilha? Já ouviram falar dos estrangeiros que se sucederam durante mais de vinte séculos para conquistá-la e ocupá-la? Gregos, cartagineses, espanhóis, godos, bizantinos, sarracenos, fenícios, romanos, árabes, berberes, franceses, austríacos, alemães... Isto não cessou. Guerra atrás de guerra, durante dois mil anos. Toda a ocupação provocava inevitavelmente uma resistência. E sempre assim foi na Sicília. Trata-se de um povo orgulhoso, um povo que ama a liberdade. O carácter de um povo determina o de um tal movimento de resistência. É por isso que a Máfia, que sempre foi um movimento de resistência, sempre teve um carácter próprio. é tipicamente siciliano..."
E quando o jornalista que interrogava o prelado lhe falou nos assassinatos cometidos pela Máfia, o homem da Igreja defendeu-a:
"Todo o movimento de resistência pode ter motivos nobres, mas também tem os seus maus aspectos. Sempre assim foi. Até na Sicília. Sim, aprende-se a matar; é preciso punir os traidores. E inspirar um santo pavor aos hesitantes. É preciso dar exemplos. Não se pode tolerar a mais pequena fraqueza. Com uma mão de ferro, há que manter uma disciplina de ferro. E mais ainda: é preciso aprender a mentir, para servir a verdade. O limite entre a resistência e o banditismo é uma linha extremamente vaga, estreita, de contornos caprichosos."
Com o objectivo de darem crédito a esta nobre origem do patriotismo, os mafiosos fazem remontar os inícios da sua associação à Pascoa de 1282, durante a ocupação francesa. Nesse dia teve lugar aquilo que a História chamou de Sangrentas Vésperas Sicilianas. Desde há doze gerações, os Sicilianos transmitem, de pais para filhos, este heróico relato:
"Nessa segunda-feira de Pascoa, os sinos da igreja do Espírito-Santo, em Palermo, chamavam os crentes a Vésperas. Um jovem soldado da Provença, Pierre Druet, aproveitou o momento para tentar violar uma jovem siciliana no portal da igreja. A jovem gritou desesperadamente, por socorro. Alguns transeuntes acorreram ao local e lançaram-se sobre Druet. Então, bruscamente, tudo, na cidade e nos seus arredores explodiu: o ódio, o desespero, o azedume acumulado durante dezasseis anos de miséria. Ninguém sabe quantos morreram, nesse dia e no seguinte. Claro que os franceses se defenderam, mas os homens, as mulheres, e até as crianças de Palermo, lançaram-se em hordas selvagens sobre os invasores. Retalharam-nos com as suas temíveis facas. Estrangularam-nos. Destroçaram os cadáveres dos franceses. Os sinos continuaram a tocar, solenemente, pesadamente, como se quisessem santificar aquela orgia de sangue. Os primeiros assassínios foram espontâneos,  mas não tardou a verificar-se que havia uma organização que não queria que o furor se aplacasse. Durante duas vezes vinte e quatro horas, matou-se sistematicamente. segundo uma estratégia impiedosa. Havia até um chefe cuja memória todos celebram ainda: João de Procida. Quando os reforços franceses chegaram a Palermo, tiveram de reconquistar a cidade, rua após rua, praça após praça, casa após casa. Nunca ninguém contou os milhares que pereceram durante as Vésperas sicilianas."
A lenda diz também que as Vésperas sicilianas estariam na origem da palavra Máfia. Com efeito, durante toda a revolta, os insurrectos haviam adoptado como grito a seguinte expressão: Morte Ala Francia, Itália Anela, (Morte à França, é o Voto da Itália) cujas iniciais formaram o nome da sociedade secreta. 
No entanto, esta etimologia romanceada não convence os historiadores. Ninguém, todavia, pode afirmar que conhece a origem da palavra Máfia. Alguns pensam que mafie, plural de Máfia, designava outrora, muito simplesmente, as rochas de Trapani, na ponte oeste da Sicília. Sabe-se que diversas sociedades secretas gostavam de reunir-se nas grutas dessa região. Os outros pensam encontrar a raiz da palavra Máfia em termos árabes, mahias, por exemplo, que significa gabarola ou fanfarrão, ou magtaa, que significa caverna, ou reduto. Outros ainda pretendem que Máfia deriva da velha palavra francesa Maufe (mau), do florentino maffia (miséria), do grego morphé (beleza, perfeição). 
Quanto à verdadeira origem da Máfia, também quanto a ela quase cada historiador tem a sua própria explicação. Alguns fazem remontar as primeiras manifestações a mais ou menos 1670. Sob um outro nome, teria sido um organismo de ligação de resistência, de bandos e de fratellanze (confrarias).
O que é certo é que se criou, em Palermo, em 1870, uma sociedade secreta, a Beati Paoli, que teria em breve uma sucursal em Messina. É um movimento de aristocratas, de "nobres esclarecidos" que lutam pela libertação e pela independência da Sicília. Como mais tarde aconteceria com a Máfia, inventa para si mesma um cerimonial misterioso. Os seus membros reúnem-se em segredo, numa gruta perto da igreja de San Rocco. O primeiro objectivo é a defesa da aristocracia siciliana pois, para ela, o que é bom para os nobres é proveitoso para todo o povo siciliano. Encontra-se aqui uma filosofia que será a da Máfia: o que é bom para a Máfia, beneficia todos os sicilianos. 
A própria palavra Máfia só aparece na linguagem corrente em 1863, exactamente. Encontramos-la impressa pela primeira vez no título de uma peça de teatro, I Maffiusi de la Vicaria, que relata alguns episódios da vida dos detidos da prisão de Palermo. Os mafiosos são os membros de uma espécie de sociedade secreta de bandidos que tentam reger a vida no interior das masmorras. Para o autor, trata-se, nem mais nem menos, de uma associação de patifes, sem qualquer ideal de libertação ou de resistência. 
É com efeito por volta de 1860 que se instaura, no oeste da Sicília, especialmente em Palermo, e nos campos circundantes, o poder da Máfia. Atravessa uma época muito conturbada da história da Itália. Os seis estados em que ainda se divide a península cambaleiam sob os golpes do Risorgimiento - isto é, do vasto movimento que tende para a unidade nacional, cujos heróis são Mazzini, Cavour, e sobretudo o célebre Garibaldi. Este último, à frente dos seus famosos "Mil camisas vermelhas" vai, entre 1860 e 1861, libertar a Sicília do jugo dos Bourbons, que reinam em Nápoles. Depois, a expedição atravessará o estreito de Messina, percorrerá a Calábria e chegará a Nápoles, onde Garibaldi fará, após inúmeras peripécias, acto de submissão ao rei Victor Emanuel, do Piemonte.
A Máfia, naturalmente, tomará parte nas lutas garibaldinas na Sicília. Mas, sob a capa de ajudar os libertadores, estes bandos entregar-se-ão mais a actos de banditismo do que a verdadeiras acções militares. Isto permitir-lhe-á, todavia, afirmar a sua autoridade sobre os oeste da Sicília, pois, curiosamente, nunca esta sociedade secreta conseguirá implantar-se de facto na metade leste da grande ilha.
É preciso dizer que a região da Concha de Ouro (os campos em torno de Palermo), presta-se, pela sua topografia e pelos seus costumes, ao estabelecimento de um regime de terror que é, de facto, o da Máfia.  Esta região, a mais fértil da Sicília, sempre foi, de resto, cenário de crimes misteriosos, de vinganças sangrentas e de manifestações espectaculares de orgulho dos insulares.
A maior parte desta região está dividida em propriedades pertencentes a fazendeiros ou a aristocratas residentes na cidade, e até muita vezes no continente. a grande maioria destes arrendam as suas terras, contentando-se em receber rendas anuais. 
Os seus rendeiros têm necessidade, para poderem vigiar as suas terras que cultivam, de guardas, pois o banditismo e o latrocínio pululam na região. Estes guardas são muito numerosos na Concha de Ouro e constituem uma espécie de confraria muito fechada cujos membros, entre si, se chamam compadres, se solidarizarem uns com os outros. Na Sicília, o título "compadre" é uma coisa sagrada. A solidariedade, entre eles, é maior do que entre os membros de uma mesma família. 
Um destes guardas da quinta impõe-se, por vezes, aos seus compadres. É admirado se esteve na prisão, sobretudo se isto se ficou a dever a uma rixa da qual tenha saído vencedor, de um modo sangrento. Quando este indivíduo se vê chamado de compadre por um homem político, um médico ou um advogado, torna-se, aos olhos dos amigos, um verdadeiro super-homem, é rapidamente reconhecido chefe indiscutido da Máfia de toda a região. Torna-se de um certo modo rei, está ao corrente de tudo, e aqueles que voluntariamente lhe deram aquele poder vêem-se obrigados a obedecer-lhe cegamente, sob pena de morte.
O ódio tradicional do siciliano pela justiça oficial e pela Polícia, leva-o a recorrer, em caso de litígio, ao chefe da Máfia local, que assim se torna o árbitro supremo.
De qualquer modo, a regra principal de toda a organização da Máfia e das suas subordinadas é a grande lei do silêncio siciliano, a omerta. Aqui reside o próprio fundamento de todo o poder da organização. A traição, o testemunho, o simples falatório, sempre foram considerados na Sicília crimes imperdoáveis. E só têm um castigo: a morte.
No centro-oeste da Sicília, onde as grandes propriedades, os latifúndios, são ainda mais vastos, o sistema de guardas permite aos mafiosos enriqueceram ainda mais rapidamente. Criaram, para proteger  as propriedades senhoriais, uma verdadeira polícia privada, que cobre toda a região. São os campieri, cujos bandos mantém a ordem em toda a zona. Os proprietários dos latifúndios concedem-lhes benefícios de todos os géneros: cavalos, alojamento gratuito, forragem para os animais, trigo à discrição, salário elevado, tudo para se assegurarem da sua fidelidade.
No entanto, os campieri tiram a maior parte dos seus lucros da prática de um delito muito especial que tem, na Sicília, o nome de abigeato. Consiste em fazer roubar, durante a noite, por mafiosos amigos, numa quinta vizinha, um número mais ou menos importante de animais, que são vendidos por ladrões a compadres ou nas feiras. Os lucros desta operação são escrupulosamente divididos por todos os cúmplices.
Acontece por vezes que o proprietário cujo rebanho acaba por sofrer a razzia se dirige ao chefe mafioso local para obter a restituição dos seus bens, Este, que é cúmplice dos ladrões, propõe então ao proprietário que pague uma espécie de resgate pelos seus animais. Este último sabe que lhe resta concordar ou sofrer um castigo por ter sido roubado, castigo que regra geral é a morte.
Também nas cidades se implanta a Máfia. Recruta, sobretudo de início, entre os ricottari,os rapazes maus do meio. Entre eles contam-se muitos filhos de família desviados, vivendo em parte dos encantos das suas companheiras e tirando a maior fatia dos seus lucros da chantagem e da trapacice.
Protegidos, sabem-se ao abrigo de qualquer perseguição, graças ao princípio da omerta. Não precisam, portanto, de esconder-se, e passeiam-se pelas ruas armados de punhais e de revólveres, ou até de carabinas, sem que a Policia ouse intervir. Os ricottari apoiam-se uns aos outros ao ponto de se deixarem matar no lugar dos amigos. Mas este género de vida dura pouco. Passados os trinta anos, o ricottaro torna-se um verdadeiro mafioso, membro da grande organização. Possui então um grande prestigio moral, que lhe permite dominar todo os seu bairro.
A casa de um chefe mafioso assemelha-se estranhamente à de um aristocrata da antiga Roma. Uma longa fila de cientes e de demandistas forma-se diante da porta, logo a partir das primeiras horas do dia. Quando ele aparece, de todos os lados chovem elogios, cumprimentos e pedidos. O chefe escuta tudo isto, adoptando um ar de grande superioridade. Regra geral, de entre as causas que lhe suplicam que solucione escolhe aquelas susceptíveis de serem mais difíceis. Um dos seus trabalhos mais importantes consiste em influenciar a justiça de modo a ilibar os seus clientes. E para o conseguir nunca hesita em recorrer à intimidação, à chantagem, à ameaça de morte. Aqueles que ele ajuda sentem-se obrigados a ajudá-lo por sua vez, quando ele lhes pede um favor, dos quais o mais pequeno é geralmente liquidar com um tiro de espingarda um devedor recalcitrante ou um homem que se tenha recusado a aceitar a sua arbitragem.
Assim, pouco a pouco, nos fins do séc. XIX, a sombra da Máfia, da Honorável Sociedade, estende-se sobre uma grande parte da Sicília, primeiro constituída por bandos separados e muitas vezes rivais, organizando-se depois numa sociedade de hierarquia, leis e costumes bem definidos.
Naturalmente, à medida que a Máfia ganha importância, sente a necessidade de ocupar-se da política. Já em 1901, um historiador escrevia, a propósito da Sicília:
"Onde quer que a Máfia seja forte, nenhum candidato pode ser eleito, no escalão comunal ou nacional, sem o apoio da sociedade secreta. E só obtém esse apoio no caso de garantir a sua ajuda à Máfia, uma vez eleito. É por isso que a Máfia tem os seus protectores, na Câmara e no Senado, e é por isso que o governo tem contactos com os mafiosos mais importantes. Os bandos da Máfia podem operar livremente. Recebem licenças de porte de arma que são recusadas a honestos cidadãos. A Máfia sabe que nem o governo nem o Parlamento se oporão às suas operações de chantagem desde que estas se façam com um mínimo de tacto. Em troca, a Máfia barra a passagem, nas eleições seguintes, a uma eventual oposição. Esta mão invisível paralisa a política de Roma. Até a Polícia suporta o fardo tradicional dos funcionários, que já suportava sob os Bourbons: tolera o crime, desde que ele não provoque um escândalo público. Um polícia ou um juiz que tome um pouco mais a sério as suas funções, não tardará a aperceber-se que alienou a favor de seus superiores..."
O verdadeiro organizador da Máfia moderna, aquele que lhe deu o seu aspecto definitivo, foi Don Vito Cascio Ferro, nascido em Bisaquino, na província de Palermo. A partir do início do séc. XX, exercerá sobre toda a Máfia uma autoridade absoluta. 
Sob seu reinado, a Máfia chegou ao ponto de possuir uma frota capaz de expedir para toda a Tunísia o gado roubado e de transportar para o alto mar os criminosos perseguidos pela Polícia, que depois eram confiados a navios com destino à América.
Foram estes colonos singulares que fundaram nos Estados Unidos, em St Louis, Chicago, Kansas City e New Jersey, a organização criminosa Mão Negra.
Don Vito é igualmente notável na arte de receber u pizzu. U pizzu, no colorido dialecto siciliano, significa o bico de uma pequena ave, molhar o bico: fari vagnari u pizzu, significa receber um copo de vinho.
Não tarda que todas as receitas sejam taxadas pela Máfia. Não só os comerciantes lhe pagam uma dízima para evitarem que as suas mercadorias sejam deterioradas de mil maneiras diferentes, como Don Vito impõe o sistema de "praça garantida"; em qualquer praça ocupada por um "amigo", não é consentida qualquer espécie de concorrência, e o beneficiário do monopólio é convidado a pagar uma comissão à Máfia. Por outro lado, a criminalidade é transformada em negócio: sempre que é cometido um crime, Don Vito oferece a mediação. Deste modo, o ladrão nada tem a temer, a vítima paga para recuperar os seus bens, e a Máfia recebe a sua parte. Finalmente, todos e cada um têm de pagar à Máfia uma renda fixa e preventiva, a fim de poder viver tranquilamente. Até os apaixonados, se querem passear, como na época é costume, sob a janela da amada, têm de pagar "a cannila", isto é, uma contribuição simbólica para custear a vela que um membro da Máfia é suposto ter segurado para alumiá-los.
Muitas pessoas, sobretudo na província de Palermo, recordam-se de Don Vito: alto, distinto, de porte aristocrático, usando uma comprida e venerável barba. Ninguém teria suspeitado o que ele seria, na verdade. O prestígio que goza é inimaginável; os alcaides das aldeias beijavam-lhes as mãos; os personagens mais distintos veneravam-no.
A Máfia, sob o controle de Don Vito, organiza-se e estrutura-se. Adquire, na Sicília, a forma definitiva que conservará, mais tarde, nos Estados Unidos. A célula principal é a família. A família cobre geralmente uma aldeia, ou um pequeno grupo de aldeias vizinhas. Os membros são frequentemente parentes, irmãos, primos, filhos, pais, ou, pelo menos, pessoas que vivem perto umas das outras. As famílias reúnem-se em grupos denominados "cosche". A Cosca (que significa cocha, ou alcachofra), consagra a preponderância da família mais poderosa sobre as outras famílias que dela fazem parte. Diz-se então que as outras famílias a rodeiam, isto é, a protegem e lhe devem assistência, como as folhas da alcachofra rodeiam e protegem o seu coração.
Existem igualmente "cosches" especializados numa mesma indústria ou em várias indústrias complementares. Estes interesses comuns permitem e esses "cosches" reunirem-se em consortiere (associação). Todo este conjunto forma aquilo que se convencionou chamar a Onorata Secreta, isto é, a Máfia.
Don Vito mantém a preponderância da sua terra nata (a Sicília natal) sobre as "cosches" norte-americanas fundadas pelos emigrados sicilianos segundo o modesto insular. Não hesita em enviar aos Estados Unidos pisciotti sicilianos para chamar ao bom caminho os mafiosos emigrados que mostrem tendência para fugir à autoridade da terra nata. É curioso constatar que foram necessários mais de vinte anos após a segunda guerra mundial para que a Máfia americana se afirmasse em relação à Máfia siciliana, conservando todavia face a esta última as fórmulas do respeito tradicional.
A Máfia utiliza igualmente uma linguagem especial, a que os seus membros recorrem quando querem tornar as suas conversas incompreensíveis para os não iniciados. Muitas vezes, a palavra utilizada não tem a sua significação própria, mas uma outra, diferente, por vezes simbólica pela imagem que evoca. Esta linguagem é acompanhada por mímicas, por movimentos das mãos, da cabeça, dos olhos, dos ombros, do ventre, dos pés. Os mafiosos são capazes de fazer todo um discurso sem abrirem uma única vez a boca. São capazes de conversar à distância, num café, por exemplo, sem que ninguém suspeite sequer que se conhecem. É ainda possível, mesmo nos nossos dias, tratar de um assunto de drogas sob os olhos de um polícia do Serviço norte-americano de Narcóticos. A mímica mafiosa possui vários dialectos segundo as regiões de origem daqueles que a utilizem. Viu-se o caso, no tribunal de Palermo, de um chefe de cosca acusado de assassínio, ditar todas as suas disposições às testemunhas que eram chamadas, sem que nenhum magistrado, advogado ou polícia tenha dado por isso. 
Conhecem-se também um certo número de sinais discretos que têm para os mafiosos um sentido preciso. Por exemplo, um chapéu usado de um certo modo pode ter significado. Inclinado para a esquerda: vejo-te daqui a pouco; inclinado para trás: socorro. Tudo isto sem exageros, de um modo imperceptível, ou quase, para quem não pertence à Máfia. 
E como se passa a ser membro da sociedade?
Não é de qualquer maneira, dir-lhe-ão na Sicília.
"É-se escolhido; é-se observado cuidadosamente durante anos antes que seja chamado a prestar juramento."
O rito é tão antigo como a própria Máfia. Certo dia, o jovem que está prestes a entrar para um pequeno grupo de mafiosos é apresentado, pelo capo da sua aldeia ou do seu cantão, ao Conselho dos Anciãos, que é um conselho secreto. A sala onde se desenrola a cerimónia recorda verdadeiramente um templo. Sobre uma mesa comprida e baixa repousa um ícone, entre duas velas acesas. Como para um baptismo, o futuro Mafioso é acompanhado por dois padrinhos, velhos mafiosos que propuseram a sua candidatura. Espetam-lhes as mãos com compridas e pontiagudas agulhas, até lhas transformarem em duas bolas ensanguentadas. Então, o candidato pousa as mãos vermelhas de sangue no ícone e pronuncia a celebre fórmula:
"Juro ante Deus que ajudarei os meus irmãos que estiverem em dificuldades, mesmo com risco para a minha vida. Juro que vingarei o mal feito aos meus irmãos, como se me tivesse sido feito a mim mesmo. Juro que nunca pedirei auxílio à Polícia ou a qualquer autoridade civil. Juro que conservarei secretos, em quaisquer circunstâncias, os nomes dos meus irmãos. Juro que executarei todas as ordens do Conselho dos Antigos, sem perguntar os porquês. Aceito que todo o irmão que desobedeça a esta lei seja punido com a morte. Em nome do santo cuja imagem é banhada pelo meu sangue, juro tudo isto. Ámen."
É verosímil que todos os duros da Máfia actual, que não poupam nada nem ninguém, nem sempre se dêem ao trabalho de cobrir um ícone com o seu próprio sangue aquando do rito sagrado de admissão. No entanto, no decurso de uma caçada notavelmente discreta que fez, durante o verão de 1963, a alguns mafiosos sem importância, a Policia siciliana descobriu, na cave mais ou menos transformada em templo de uma casa de Villabete a que passava revista, vários ícones cobertos por uma crosta de sangue.  Era evidente que tinham servido, pouco tempo antes, a um rito de iniciação. Segundo os dados do Departamento do Tesouro norte-americano, a Máfia dos Estados Unidos simplificou um pouco a fórmula do juramento, e, acabada a cerimónia, queima o ícone num fogo simbólico. Fundamentalmente, no entanto, é sempre o mesmo juramento tradicional:
"Juro ser fiel à Máfia, como a Máfia me assegura a sua fidelidade. Tal como o ícone e as minhas gotas de sangue ardem neste momento, juro estar pronto a oferecer o meu sangue à Máfia quando chegar o momento em que as minhas cinzas e o meu sangue deverão voltar àquilo de onde saíram."


Fonte: História do Ocultismo, Seitas e Sociedades Secretas, Bernard Michal, Jean Renald 


28 de mar. de 2019

as 7 bicas, um bom exemplo do número 7 ligado à divindade


fonte das 7 bicas

a fonte das 7 bicas situa-se na Senhora da Hora, e reza a história que uma divindade feminina terá aparecido num local das redondezas e que ficou conhecido por Mãe D'Água; neste local antigamente existiam 7 nascentes, cuja água teria propriedades milagrosas - no entanto, devido ao aparecimento de várias indústrias na freguesia e zonas periféricas no início do século XX, nomeadamente a Empresa Fabril do Norte, a qualidade da água terá piorado, mantendo-se até hoje um aviso sobre o seu consumo... o que não me impede a mim, por exemplo, de a recolher para colocar no aquário ou regar plantas - inclusive, até há bem pouco tempo corria a lenda de que quem bebesse das 7 bicas, a nossa senhora ajudaria a encontrar namorado... coisa que eu como tantas outras raparigas há muitos anos atrás fizemos, e não ficamos doentes devido ao consumo de água contaminada...





"Seven ways to win
Seven holy paths to hell
And your trip begins
Seven downward slopes
Seven bloodied hopes
Seven are your burning fires
Seven your desires"




S. Michelspacher, Cabala, Augsburg, 1616

7 dias da semana
7 estados da matéria
7 chacras corporais 
7 glândulas endócrinas
7 pétalas da rosa
7 notas musicais
7 instrumentos
7 cores tem o espectro do arco-íris
7 pecados 
7 virtudes
7 planos de existência
7 raças mãe
7 arcontes
7 anjos
7 ramos tem a árvore da vida
7 maravilhas tem o mundo
7 dias separam as quatro fases da lua
7 colinas tinha Roma, assim como Lisboa

e ao sétimo dia deus descansou...





depois de tanta perfeição, devo dizer que pessoalmente gosto muito do nº 6, para mim o 6 é o nº do humano, imperfeito, incompleto, real... 


20 de mar. de 2019

sobre o negro e o branco

racismo começa já nos animais, quando a pomba
 branca é da paz e a galinha preta é da macumba
um destes dias uma amiga postou algo semelhante a isto - fiquei triste e achei piada ao mesmo tempo, como em tantas situações que só com ironia se conseguem tornear, é uma daquelas coisas... 

fiquei com as cores e os simbolismos novamente a dançar na minha cabeça, um tema que tanto adoro; hei-de fazer uma longa exposição sobre o simbolismo das cores, mas aproveito já esta dicotomia para lançar algumas farpas: 

racismo não se poderá considerar somente como uma gradação de tom de pele - e sim um estranhar do que é diferente de nós, e contra mim posso falar - porque apesar de amar ver programas de viagens, estudar culturas distintas, adorar viajar no metro e ficar a olhar fixamente para todos os tipos de pessoas diferentes que existem (de tal forma que tenho de "beliscar" a mim mesma, porque me esqueço como esse comportamento pode ser intimidativo), certo é que nunca me consegui sentir atraída por nenhum rapaz que não fosse como eu, moreno e com olhos castanhos; uma explicação poderá estar em eu mesma não aceitar a diferença, ou então fixei-me no meu ideal parental, o meu irmão mais velho, que foi e será sempre a minha principal inspiração familiar; há uns tempos atrás, vi um documentário onde se tentava explicar o motivo de tantos primos se sentirem atraídos, e terá um pouco a ver com similaridades físicas.


são no entanto notórios os exemplos que nos mostram o quanto o branco é belo e o negro é tenebroso - basta olhar para o simbolismo do sol / lua: a  carta do sol simboliza um caminho de luz, a evolução para uma consciência superior, traz-nos uma mensagem positiva, indica conquista e sucesso, enquanto que a lua é o nosso subconsciente, a nossa intuição e simboliza o sonho, a ilusão, a loucura até... o sol é masculino e a lua é feminina ;)

isto está de tal forma enraizado que vemos os gurus new age vestidos de branco, enquanto que Anton LaVey trajava o negro - quem quiser transmitir uma mensagem convincente terá que ter em consideração o simbolismo associado... será talvez por isso que tanto adoro o cinzento...

todos podemos constatar que os animais negros, gatos, panteras, cães negros são magníficos na sua pelagem brilhante - mas qualquer pessoa ligada a uma associação animal poderá confirmar que os animais pretos, cães e gatos, são sempre os últimos a ser adoptados... e isto não é apenas devido a uma associação generalizada dos gatos negros à bruxaria, já que o preconceito surge também nos cães.





peço desculpa pela linguagem presente no vídeo, mas partilho porque penso que é importante atentar nesta questão - e esqueçamos o mensageiro, vejamos a mensagem - porque não nos são mostradas raças extraterrestres escuras? se elas existem, e acredito que sim, por que motivo ninguém fala nisso? 
Admiral Sisco tem outro vídeo onde nos fala de uma entidade feminina que surgiu a Billy Meier chamada Menara, alta e com pele escura, oriunda da Constelação de Lira... estudei durante anos a pormenor toda a história de Billy Meier, em parte por adorar as suas fotos, e nunca ouvi falar de tal entidade... 
desviando-me um pouco do tema principal do post, quero apenas afirmar que concordo a 200% com Sisco quando ele se indigna com a afirmação de que temos de nos "erguer" e nos assumir como raça humana - sim, os extraterrestres não vão fazer a papinha toda por nós, mas os mesmos abduzem-nos contra a nossa vontade e foram responsáveis no passado pela manipulação genética... e quanto a um "mentorship", o que tenho a dizer é isto - estamos aqui, em 3d, debaixo da grid, não possuímos telepatia, estamos presos às nossas emoções, somos violentados durante a noite quando sonhamos, sofremos de todo o tipo de atentados contra a nossa sanidade mental, a nossa saúde física e a nossa integridade geral, e com tudo isto nós SOMOS grandes, e só aceito ensinamentos por parte de alguém que caminha na mesma estrada que eu, um humano!
apesar deste desabafo não posso esconder a minha curiosidade perante a ideia de conhecer raças extraterrestres diferentes da humana, não para idolatrar nem admirar, mas para aprender e observar através das diferenças, exactamente com o mesmo espírito crítico que me faz estudar antropologia.
em tempos ouvi uma afirmação de Jordan Maxwell que também me deixou com a pulga atrás da orelha - ele falava dos anjos caídos e da sua relação com as mulheres humanas, e porque motivo deus fez o homem à sua semelhança, então passou a imagem de que mulher alguma haveria de querer ter sexo com um reptiliano horroroso - ou seja, os anjos caídos teriam forçosamente de ser belos... aqui podemos apresentar toda uma série de hipóteses - serão os anjos a imagem de deus? se o nosso criador for mesmo uma entidade reptiliana, teriam os anjos camuflado a sua aparência para se tornarem desejáveis? onde entra aqui a definição de beleza?
e aqui quero introduzir uma ideia sobre as ditas as raças arianas e todo o comando Ashtar Sheran - não consigo deixar de pensar que estas entidades são um compósito do nosso ideal de beleza, de pureza, de forma a jogar com os nossos desejos ocultos - por algum motivo tive uma pessoa que estava ligada a este movimento a dizer-me que todas as seguidoras desejavam ter sexo astral com Ashtar Sheran... não sei se este seria apenas um desejo dela ou seria um desejo geral, mas em todo o caso é algo que espelha na perfeição a ideia que quero lançar aqui: cuidado com a identificação; um dos motivos que me levou a considerar a mensagem dos "windmakers" foi precisamente a ocultação da identidade do mensageiro; e com isto não quero dizer que estou contra os belos arianos (apesar de ter sentido na pele uma enorme discriminação, já há bastantes anos atrás, durante os meses que trabalhei na Alemanha), e sim contra os indivíduos ou grupos que pretendem habilmente manipular a verdade para apresentar uma ideia distorcida da realidade, ou para conduzir os humanos de forma a ir ao encontro dos seus próprios interesses ou agendas ocultas...

18 de mar. de 2019

Platão e as Formas

"Para Platão, uma forma é uma essência eterna, imutável e universal. As formas são arquétipos ou padrões ideais no sentido em que as coisas particulares que existem no mundo físico as imitam ou copiam. Uma essência é uma série de propriedades elementares sem a qual uma coisa particular como este esquilo ou esta árvore não existiriam como um esquilo ou uma árvore. As formas incorporam a essência que marca as similaridades entre os membros de uma classe e nos capacita a agrupá-los numa série ou classe. As formas nunca poderão mudar. A própria igualdade (isto é, o conceito ou padrão de igualdade) nunca poderá mudar. Se mudasse, tornar-se-ia desigualdade. O conceito de unidade nunca se poderá converter em duplicidade. As formas são eternas. Antes do mundo físico vir à existência, elas já existiam e continuariam a existir, mesmo que tudo no universo físico, o mundo inferior, terminasse. Verdade, bondade e justiça são entidades eternas e atemporais que não dependem de coisas particulares que existem neste mundo para existir. Para Platão, o mundo físico não é mais real do que o mundo ideal das formas. Assim como a sombra lançada por uma árvore é menos real do que a árvore, o mundo físico, que é somente um reflexo do mundo ideal, deve ser menos real que o mundo das formas. Platão não via estas formas como existindo apenas na mente das pessoas. Estas essências têm uma existência objectiva. Elas existiriam mesmo que nenhum ser humano pensasse nelas. A verdade, beleza, bondade, e as outras formas existiam já antes de existirem mentes humanas. Muitos dos seguidores de Platão, como Plotino e Agostinho, defendem que as formas eternas existem como pensamentos na mente eterna de Deus, apesar de Platão nunca ter considerado essa hipótese. Os humanos vivem em dois mundos diferentes: o mundo das coisas particulares que estão em constante mutação e que são apreendidas pelos nossos sentidos, e um mundo perfeito, imutável e eterno conhecido através da nossa mente."

Ronald H. Nash


para reflectir: o que é a verdade? quantas verdades existem? existem tantas verdades quanto pessoas? o que é a subjectividade? onde entra a consciência? até onde vai o que é culturalmente aprendido e o que é universalmente aceite? qual o limite imposto pela dualidade até que consiga abarcar a unidade? tenho ainda mais dúvidas, e hoje tudo que me surge são questões, e não respostas... amanhã, talvez... como dizia a cantora... 


15 de mar. de 2019

Michael Jackson - Leave Me Alone (análise a alguns elementos presentes no vídeo)




'Cause there's a time when you're right
And you know you must fight
Who's laughing baby, don't you know
And there's the choice that we make
And this choice you will take
Who's laughin' baby?



depois de tanta polémica recente à volta do documentário sobre os supostos abusos sexuais, lembrei-me de ver este vídeo e reparei em algumas coisas que, não sei se estarão ali expostas como uma forma de mostrar a verdade de maneira camuflada (ou não); o mesmo havia já acontecido com o vídeo de "They Don't Care About Us", aquando da passagem "will me, thrill me, you can never kill me", Michael surge ao lado de um mural com um olho - coincidência? 

ainda há poucos dias Oprah veio colocar-se do lado das supostas vítimas de Michael... engraçado que Oprah era cliente do conhecido médium João de Deus, a mesma pessoa que possuía quintas onde explorava escravas sexuais, meninas que aliciava com promessas de dinheiro e as fazia engravidar, para posteriormente vender os bebés (a pais ou para outras finalidades?) - depois de 10 anos a ter crianças, as meninas seriam assassinadas; é este o médium de famosos como Naomi Campbell ou Lula da Silva; mas alguém terá dúvidas que esta senhora com o seu famoso programa se encontra ao serviço dos controladores?

quando analisamos a letra, a imagem que passa é a de um amor obsessivo, ou a de uma eventual fã stalker - no entanto ao ver o vídeo com atenção, a terminologia "dogging", associada aos cães de fato, poderá estar relacionada com indivíduos tipo "homens de negro", e não a voyeurismo; e porquê os cães? talvez porque uma parte das raças reptilianas que nos manipularam no passado vieram de Sirius, e são conhecidas como os cães de Sirius - não sabemos se parte destes ainda se encontram aqui... mas certamente serão ainda adorados por uma fracção maçónica - e à passagem do min 2:09, temos uma representação do clássico templo maçónico, com uma pirâmide no topo; o cão que usa o martelo de ferro, também podemos relacionar com as ferramentas da maçonaria... rebuscado? é possível... também é possível que Michael estivesse a par de assuntos ocultos, uma vez que tantas vezes nos alertou para uma conspiração em torno do mundo do espectáculo - penso que ele, em vez de abusador terá sido vítima, diz-se que o seu pai foi um controlador MKUltra; o certo é que os irmãos Jackson não tiveram infância sequer... 

de volta ao vídeo - interessante, a escolha dos animais que constituem o freak show - uma cabra com duas cabeças, um animal com cabeça de tigre e corpo de águia, um réptil - será uma alusão à quimera? engraçado que ao min 2:01 temos uma representação de colunas com grifos gregos, poderão ser escolhas interessantes do ponto de vista gráfico ou visual, ou estará Michael a apontar subtilmente para a mitologia grega? poderão os deuses gregos ser na realidade uma representação dos nossos "criadores", ou manipuladores - uma vez que já existia uma raça primordial aquando da sua chegada ao planeta?

mesmo que tudo isto seja somente uma divagação, gostaria de terminar com a ideia de que infelizmente este vídeo nunca esteve tão actual, é triste que mesmo uma década após a sua passagem Michael seja ainda difamado desta forma tão desumana...

14 de mar. de 2019

algumas considerações sobre ascensão


retirada do Facebook de Photo Page



hoje ao ver esta imagem e um comentário associado fiz uma analogia com o processo de ascensão para 5d, entre a crença numa ideia de ascensão e sacrifício cristão, uma vida de sacrifício esperando que após a morte este seja recompensado com uma ideia de paraíso, ao mesmo tempo que tanto líderes religiosos como líderes políticos levam uma vida de luxo... enquanto isso alguns iluminados levam uma vida de leveza, espiritualidade, pensamentos puros e negação dos instintos, uma vida de dieta física e mental, abstraindo-se de pensamentos, situações e pessoas tóxicas, na esperança de que raças extraterrestres "do bem" os mandem embarcar numa nave e os larguem numa nova terra (e depois de embarcar sabe-se lá qual será o seu destino, podendo até ser um contentor para aprisionar a alma) 

isto faz-me lembrar todos aqueles, enfermeiros e outros, que vendo as condições de emprego miseráveis que temos no nosso país, emigram e fazem carreira em países europeus mais desenvolvidos - como ratos a fugir dum barco condenado! assim é com a terra - por que motivo as pessoas desejam ir para uma nova terra? haverá lugar mais esplendoroso, belo nos seus mais diversos habitats, repleto de biodiversidade que o nosso planeta? não será melhor fincar o pé e defender o que é nosso contra um punhado de gananciosos? 

acredito que a nossa mãe gaia está doente, em parte a ideia de uma transição para 5d poderá partir da terra em si, penso que atingimos um limite, não podemos negar o efeito do homem no processo de extinção da fauna e flora, toda a poluição proveniente das nossas fábricas e cidades a acumular-se em rios e oceanos, já não podemos comer peixe sem vestígios de plástico, mercúrio e outros metais presentes nos animais, as aves ficam desorientadas e com o seu sistema interno de navegação baralhado derivado de experiências militares como haarp ou 5g, os pesticidas estão a acabar com os insectos, nomeadamente as abelhas, já é difícil comer o que quer que seja 100% orgânico, pois os lençóis freáticos estão contaminados, a chuva é ácida (a não ser que seja tudo cultivado em estufa sob rigorosas medidas de controle) - aceito a ideia de um reset por parte da terra em si, um virar da página a cada 12000 anos... caso contrário quem são os eleitos que se julgam superiores? somente 1% detém uma grande parte da riqueza mundial, porque motivo nos viramos uns contra os outros - quem poderá condenar o semelhante, se não conhece o seu percurso?




13 de mar. de 2019

Wayback Machine - um imenso arquivo de livros, filmes, artigos, páginas web




Night of the Living Dead, de 1968, é apenas um dos cerca de 5000 filmes e documentários que podem ser visualizados e que já se encontram em domínio publico - de entre estes temos 469 filmes de ficção científica e de terror, que são essencialmente filmes tipo b; temos outros exemplos, como Attack of the Giant Leeches, de 1959, ou Voyage to the Planet of Prehistoric Women, de 1967


em termos de livros e documentos, gostaria de salientar que existem 35464 entradas de BD na categoria de manga, podendo ser visualizadas ou baixadas... boas navegações... 




27 de fev. de 2019

Jay-Jay Johanson - Far Away (Froggy's Session)




não entendo como Jay-Jay Johanson não tem mais projecção e reconhecimento, é certo que o seu album Whiskey de 96 foi considerado uma referência na onda trip pop, mas a sua carreira tem sido tão consistente, adoro os álbuns que se seguiram - Tattoo e Poison, e pessoalmente o meu favorito é Self-Portrait; Antenna foi uma incursão pela música electrónica, mas com Self-Portrait e Spelbound temos o retorno ao tom melancólico que o caracterizou... uma alma velha sem dúvida... 




25 de fev. de 2019

Felt - Primitive Painters




"I just wish my life could be as strange as a conspiracy
I hold out but there's no way of being what I want to be
Dragons blow fire angels fly spirits wither in the air
I'm just me I can't deny I'm neither here, there nor anywhere
Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race
Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race
I don't care about this life, they say there'll be another one
defeatist attitude I know will you be sorry when I've gone
Primitive painters are ships floating on an empty sea
gathering in galleries were stallions of imagery
Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race
Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race"



chego a esta fase em que acredito que já não adianta estar a marretar com uma placa "the end is near" nas cabeças dos zombies, os zombies estão contentes e satisfeitos com as suas séries, os seus restaurantes trendy e os seus memes; a resistência ao sistema é uma luta pessoal! é estar alerta diariamente, é ter sentido crítico, é estar preparado para o que der e vier! ser diferente já é em si um grito de revolta, ser um estranho numa sociedade de gente igual - não quero com isto ostentar que sou melhor que ninguém, sou contra a ideia de uma hipotética ascensão de uns poucos iluminados, precisamente porque é um conceito a meu ver 100% elitista, e até porque a minha alma é cinzenta, tenho tanto de branco como de negro...


e no entanto sinto que ainda há esperança... vou deixar aqui um relato de uma situação caricata que espelha bem a podridão do sistema de subsídios públicos, correndo o risco de represálias, paciência...
fui convocada para uma suposta oferta de emprego, tive de me descolar para bem longe, onde me juntaram a umas 100 pessoas numa sala de conferências, às 10, e às 11 outra reunião semelhante estava agendada, ou seja, uma proposta para 200 candidatos; resumindo, um grupo de pessoas candidataram-se a fundos e conseguiram financiamento para criar uma IPSS  cuja função seria dar assistência pessoal a pessoas com deficiência, no seu domicílio, para auxiliar tarefas como alimentação, higiene, saídas para compras ou a prática de algum desporto, no fundo, um assistente pessoal. 200 pessoas indiscriminadamente foram convocadas para um tipo de trabalho tão específico, onde é requerida uma preparação mental e resistência física consideráveis... era oferecida uma formação inicial longe daqui, não era paga nem sequer as viagens estavam contempladas, e no final da formação seriam os deficientes que iriam escolher a pessoa com quem mais se identificavam para ser seu assistente pessoal, ou seja, para alguém como eu, que sou reservada por natureza, fora de questão ser escolhida... as responsáveis pelo organismo colocaram um valor de 900€ como remuneração provável, mas na prática como teríamos de ter 4 utentes para fazer esse valor, seria muito difícil de atingir... todos os transportes seriam por nossa conta, a deslocação para a casa do utente, e de utente para utente... uma das meninas presentes, uma moreninha lindíssima, ao ver a vida dela a andar para trás, questionou sobre os limites do que se pode fazer e o que é suposto que façamos, ao perguntar se o utente quiser que lhe façamos companhia durante a noite, poderíamos recusar, ao que lhe foi respondido que não o deveríamos fazer... a remuneração consistia num valor horário e as horas nocturnas não estariam contempladas... este tipo de oferta vinda da parte do centro de emprego é quase uma proposta de trabalho forçado, isto porque na teoria não podemos recusar, sob o pretexto de nos ser retirado o subsídio - das 100 pessoas na sala presentes, a maior parte estava céptica, mas lá iam fazendo perguntas, mais no sentido de apalpar uma forma de se poderem esquivar a tal destino, e lá iam alegando o pretexto da robustez física, até que uma senhora e um rapaz novo subiram um pouco de tom, o rapaz inclusive denunciou o sentido de oportunidade da convocatória, porque na sua ficha pessoal a área de interesse não seria nada disto, a senhora denunciou o aliciamento com base numa remuneração falsa, houve muita gente que os atacou, um grande rebuliço, o certo é que o técnico que nos convocou perdeu as estribeiras e deu por finalizada a reunião pedindo para permanecer na sala somente quem realmente tinha interesse, e umas cerca de 20 pessoas decidiram inscrever-se. 
o sistema está montado de forma a beneficiar uns poucos, quem está por dentro e sabe como mexer os cordelinhos vai se safando, estas ONG são uma farsa, a segurança social não está aqui para ajudar ninguém, os políticos enriquecem e colocam os amigos em posições de poder, e no entanto há pessoas que não se ajoelham, como estes dois, foram apenas dois em cerca de 100 pessoas que apesar das represálias denunciaram as coisas como elas eram da realidade, e agitaram um pouco as águas...
são pessoas simples como estes dois que me fazem acreditar, certamente não são pessoas iluminadas, não conhecem David Icke nem Eckhart Tolle, não sabem o que é a meditação, até devem gostar de ver novelas, vivem para o trabalho e a família, mas são pessoas autênticas que não vão em contos do vigário...



18 de fev. de 2019

Dune, David Lynch, versão com final alternativo




agora que temos mais um remake do livro de Frank Herbert em vista, com uma série de actores conhecidos já escalonados, devo dizer que dificilmente um projecto chegará aos pés deste filme belíssimo com cenários que nos transportam para uma espécie de cenário futuro gótico-industrial, um pouco à semelhança de Metropolis... é interessante a comparação de Arrakis a Marte, e as larvas gigantescas lembram-me uma suposta filmagem de uma missão secreta a Marte com uma equipa americana e russa, onde do nada surge uma forma de vida que parece realmente uma anaconda gigantesca; tratando-se de um embuste, então será uma brincadeira de quem leu o romance e decidiu ir mais além...




14 de fev. de 2019

Os Istari (JRR Tolkien, Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média)





O relato mais completo sobre os Istari foi escrito, ao que parece, em 1954. Apresento-o aqui na íntegra e subsequentemente referir-me-ei a ele como “o ensaio sobre os Istari”. Mago é uma tradução do quenya istar (sindarin ithron): um dos membros de uma “ordem” (como eles a chamavam), que alegava possuir e demonstrava eminente conhecimento da

história e natureza do Mundo. A tradução (apesar de adequada, por relacionar-se com “wise” 25 e outras antigas palavras de conhecimento, de modo semelhante a istar em quenya) talvez não seja feliz, visto que a Heren Istarion ou “Ordem dos Magos” era bem diversa dos “magos” e “mágicos” de lendas posteriores. Eles pertenciam unicamente à Terceira Era e depois partiram, e ninguém, excepto talvez Elrond, Círdan e Galadriel, descobriu de que espécie eram ou de onde vieram. Entre os homens (inicialmente), aqueles que tratavam com eles supunham que eram homens que haviam adquirido tradições e artes através de estudos longos e secretos. Apareceram pela primeira vez na Terra-média por volta do ano 1000 da Terceira Era, mas por muito tempo andaram com aparência simples, como de homens já velhos, mas sãos de corpo, viajantes e Caminhantes, adquirindo conhecimento da Terra-média e de todos os que ali habitavam, porém sem revelar a ninguém seus poderes e propósitos. Naquela época, os homens raramente os viam e pouca atenção lhes davam. No entanto, à medida que a sombra de Sauron começou a crescer e tomar forma outra vez, tornaram-se mais activos e buscavam sempre opor-se ao avanço da Sombra, bem como a levar os elfos e os homens a se prevenirem contra seu perigo. Então espalhou-se por toda parte, entre os homens, o rumor de suas idas e vindas, bem como de sua interferência em muitos assuntos; e os homens perceberam que eles não morriam, mas permaneciam iguais (a não ser pelo fato de que envelheciam um pouco no aspecto), enquanto os pais e os filhos dos homens se acabavam. Os homens, portanto, começaram a temê-los, mesmo quando os amavam, e consideravam que eles fossem da raça dos elfos (com os quais de fato muitas vezes se associavam). Porém não o eram. Pois vinham do outro lado do Mar, desde o Extremo Oeste. Por muito tempo, no entanto, isso só foi do conhecimento de Círdan, Guardião do Terceiro Anel, mestre dos Portos Cinzentos, que viu seus desembarques nas praias ocidentais. Eram emissários dos Senhores do Oeste, os Valar, que ainda deliberavam sobre o governo da Terra-média e que, quando a sombra de Sauron começou a se agitar novamente, empreenderam esse meio de lhe resistir. Pois. com o consentimento de Eru, enviaram membros de sua própria elevada ordem, porém vestidos de corpos como os dos homens, reais e não ilusórios, mas sujeitos aos medos, às dores e à exaustão da terra,

capazes de sentirem fome e sede, e de serem mortos; embora, por causa de sua nobreza de espírito, não morressem, e só envelhecessem em consequência das preocupações e labutas de muitos e muitos anos. E isso foi feito pelos Valar porque desejavam emendar os erros de outrora, especialmente a tentativa de proteger e isolar os eldar pela plena revelação de seu próprio poderio e glória. Agora, no entanto, seus emissários estavam proibidos de se revelar em formas de majestade, ou de procurar dominar as vontades dos homens ou dos elfos através da demonstração aberta de poder; mas, vindos em formas débeis e humildes, tinham a incumbência de aconselhar e persuadir os homens e os elfos para o bem, e procurar unir no amor e na compreensão todos aqueles que Sauron, caso retornasse, tentaria dominar e corromper. Dessa Ordem o número de membros é desconhecido; mas daqueles que chegaram ao Norte da Terra-média, onde havia mais esperança (por causa do remanescente dos dúnedain e dos eldar que lá habitavam), os principais eram cinco. O primeiro a chegar tinha nobre semblante e porte, com cabelos negros e uma bela voz, e trajava branco. Tinha grande habilidade nos trabalhos das mãos, e era considerado por quase todos, mesmo pelos eldar, o chefe da Ordem. Também havia outros: dois trajados de azul do mar, e um do castanho da terra; e por último chegou um que parecia o menos importante, menos alto que os demais, e de aspecto mais idoso, de cabelos grisalhos, trajado de cinza e apoiado em um cajado. Mas Círdan, desde seu primeiro encontro nos Portos Cinzentos, adivinhou nele
o maior e mais sábio espírito. Deu-lhe as boas-vindas com reverência e entregou a seus cuidados o Terceiro Anel, Narya, o Vermelho, — pois — disse ele — grandes labutas e perigos estão diante de você; e, para que sua tarefa não demonstre ser demasiado grande e exaustiva, tome este Anel para seu auxílio e conforto. Foi-me confiado apenas para ser mantido em segredo, e aqui nas costas do oeste está ocioso; mas julgo que em dias que não tardarão ele deverá estar em mãos mais nobres que as minhas, que poderão usá-lo para acender a coragem em todos os corações; — e o Mensageiro Cinzento tomou o Anel, e sempre o manteve em segredo. No entanto o Mensageiro Branco (que tinha habilidade para descobrir todos os segredos) após certo tempo se deu conta desse presente, e teve inveja. Foi esse o começo da malevolência oculta que tinha em relação ao Cinzento, e que mais tarde se tornou manifesta. Ora, em dias posteriores, o Mensageiro Branco tornou-se conhecido entre os elfos como Curunír, o Homem Habilidoso, e Saruman nas línguas dos homens do norte; mas isso foi depois que ele retornou de suas numerosas viagens, entrou no reino de Gondor e lá morou. Dos Azuis pouco se conhecia no oeste, e não tinham nomes, excepto Ithryn Luin, “os Magos Azuis”; pois foram ao leste com Curunír, mas jamais voltaram, e se permaneceram no leste, lá seguindo os propósitos para os quais haviam sido enviados; ou pereceram; ou ainda, como afirmam alguns, foram apanhados por Sauron e se tornaram seus servos, não se sabe agora. Mas nenhuma dessas alternativas era impossível de acontecer; pois, por muito que isso possa parecer estranho, os Istari, visto que trajavam corpos da Terra-média, podiam afastar-se dos seus propósitos exactamente como os homens e os elfos, e fazer o mal, esquecendo-se do bem na busca pelo poder de realizá-lo. Um trecho separado, escrito na margem, sem dúvida encaixa-se aqui: Pois de facto diz-se que, por possuírem corpos, os Istari necessitavam aprender de novo muitas coisas, pela lenta experiência e, apesar de saberem de onde vinham, a lembrança do Reino Abençoado era para eles uma visão de muito longe, pela qual (enquanto permanecessem fiéis à sua missão) ansiavam intensamente. Assim, por suportarem de livre vontade as angústias do exílio e as fraudes de Sauron, poderiam corrigir os males daquele tempo. De fato, de todos os Istari apenas um permaneceu fiel, e esse foi o último a chegar. Pois Radagast, o quarto, apaixonou-se pelos muitos animais e aves que viviam na Terra-média, e abandonou os elfos e os homens para passar seus dias entre as criaturas selvagens. Assim obteve seu nome (que é do idioma de Númenor de outrora, e significa, dizem, “o que cuida dos animais”). E Curunír 'Lân, Saruman, o Branco,
decaiu da sua elevada missão, e, tornando-se orgulhoso, impaciente e apaixonado pelo poder, buscou fazer sua própria vontade pela força, e desalojar Sauron; mas foi apanhado por aquele espírito sinistro, mais poderoso que ele. Mas o último a chegar era chamado entre os elfos de Mithrandir, o Peregrino Cinzento, pois não morava em nenhum lugar e não reunia em torno de si nem riquezas nem seguidores, mas andava sempre para lá e para cá nas Terras Ocidentais, de Gondor a Angmar, e de Lindon a Lórien, fazendo-se amigo de toda a gente em tempos de necessidade. Era cordial e sério seu espírito (e era reforçado pelo anel Narya), pois ele era o Inimigo de Sauron, que opunha ao fogo que devora e destrói o fogo que anima, e socorre na desesperança e no infortúnio. No entanto, sua alegria e sua ira repentina estavam veladas em trajes da cor da cinza, de modo que apenas os que o conheciam bem entreviam a chama que ardia no seu íntimo. Podia ser jovial além de bondoso com os jovens e os simples; e ainda assim, às vezes, dispunha-se rapidamente a falar com rispidez e a repreender a insensatez. Não era orgulhoso porém, não buscava nem o poder nem o elogio, e assim, por toda parte, era caro a todos aqueles que não eram eles próprios orgulhosos. Na maioria das vezes viajava a pé, incansável, apoiado num cajado; e assim era chamado entre os homens do norte de Gandalf, “o Elfo do Cajado”. Pois consideravam (embora erradamente, como se disse) que pertencia à espécie dos elfos, visto que às vezes fazia maravilhas entre eles, por apreciar em especial a beleza do fogo. Realizava porém tais maravilhas principalmente para o contentamento e o deleite, sem desejar que ninguém sentisse reverência por ele ou seguisse seus conselhos por temor. Noutro lugar conta-se como, quando Sauron voltou a se erguer, também ele se ergueu e parcialmente revelou seu poder. E, tornando-se o principal autor da resistência contra Sauron, foi por fim vitorioso; e, pela vigilância e labuta, conduziu tudo àquele fim que fora pretendido pelos Valar sob o comando do Um que está acima deles. No entanto, diz-se que sofreu imensamente ao acabar a tarefa para a qual viera, e foi morto. E, tendo sido devolvido da morte, esteve então por um curto espaço de tempo trajado de branco, antes de se transformar numa chama radiante (ainda velada, excepto na necessidade extrema). E, quando tudo estava terminado e a Sombra de Sauron tinha sido eliminada, partiu para sempre por sobre o Mar; ao passo que Curunír foi derrubado e totalmente humilhado, e pereceu afinal pela mão de um escravo oprimido; tendo seu espírito ido aonde quer que estivesse condenado a ir, e à Terra-média, quer despido quer corporificado, jamais voltou. No Senhor dos Anéis a única afirmativa geral sobre os Istari encontra-se na nota introdutória do Conto dos Anos da Terceira Era no Apêndice B: Quando cerca de mil anos haviam passado, e a primeira sombra cobriu a Grande Floresta Verde, os Istari ou magos apareceram na Terra-média. Posteriormente comentou-se que eles tinham vindo do
Extremo Oeste e eram mensageiros enviados para fazer frente ao poder de Sauron, e para unir todos aqueles que tinham vontade de resistir a ele; mas os magos estavam proibidos de enfrentar o poder dele com o seu poder, ou de procurar dominar os elfos ou os homens usando de força ou medo. Portanto vieram na forma de homens, embora nunca fossem jovens e envelhecessem vagarosamente, e detinham muitos poderes na mente e nas mãos. Revelavam seus verdadeiros nomes a poucos, mas usavam os nomes que lhes eram dados. Os dois maiores dessa ordem (da qual se diz que era composta de cinco) eram chamados pelos eldar de Curunír, “o Homem Habilidoso”, e Mithrandir, “o Peregrino Cinzento”, mas os homens do norte chamavam-nos respectivamente de Saruman e Gandalf. Curunír viajava frequentemente para o leste, mas por fim passou a morar em Isengard. Mithrandir tinha uma amizade mais estreita com os eldar, e vagava principalmente no oeste, nunca fixando uma residência permanente. Segue-se um relato da custódia dos Três Anéis dos Elfos, no qual consta que Círdan deu o Anel Vermelho a Gandalf quando este primeiro chegou aos Portos Cinzentos vindo do outro lado do Mar (pois “Círdan enxergava mais longe e mais fundo que qualquer outro na Terra-média”). Assim, o ensaio recém-mencionado a respeito dos Istari conta muitas coisas sobre eles e sua origem que não aparecem no Senhor dos Anéis (e também contém algumas observações incidentais de grande interesse sobre os Valar, sua preocupação contínua com a Terra-média e seu reconhecimento do antigo erro, que não podem ser discutidas aqui). O mais notável é a descrição dos Istari como “membros de sua própria elevada ordem” (a ordem dos Valar), bem como as afirmativas sobre sua corporificação física. Mas também são dignas de nota a chegada dos Istari à Terra-média em épocas diferentes; a percepção de Círdan de que Gandalf era o maior deles; o conhecimento de Saruman de que Gandalf possuía o Anel Vermelho, e sua inveja; a visão que temos de Radagast, como alguém que não permaneceu fiel à sua missão; os outros dois “Magos Azuis”, sem nome, que foram com Saruman para o leste, mas, ao contrário dele, jamais voltaram às Terras Ocidentais; o número de membros da ordem dos Istari (que aqui se diz ser desconhecido, apesar de serem cinco “os principais” dos que chegaram ao norte da Terra-média); a explicação dos nomes Gandalf e Radagast; e a palavra sindarin ithron, plural ithryn. O trecho acerca dos Istari em Dos Anéis de Poder (no Silmarillion, p. 382) é de fato muito próximo da afirmativa no Apêndice B do Senhor dos Anéis, mencionada acima, até mesmo nas palavras; mas inclui a seguinte frase, que concorda com o ensaio sobre os Istari:
Curunír era o mais velho e o que chegara primeiro; e depois dele vieram Mithrandir e Radagast, bem como outros dos Istari que passaram para o leste da Terra-média e não entram nestas histórias. A maior parte dos demais escritos sobre os Istari (como grupo) infelizmente nada mais é que anotações muito rápidas, frequentemente ilegíveis. No entanto, é de extremo interesse um esboço breve e muito apressado de uma narrativa que fala de um conselho dos Valar, ao que parece convocado por Manwe (“e talvez tenha invocado Eru para aconselhá-los?”), no qual foi resolvido que enviariam três emissários à Terra-média. “Quem haveria de ir? Pois teriam de ser poderosos, pares de Sauron, mas teriam de renunciar ao poder e se trajar em carne para tratar com igualdade e conquistar a confiança dos elfos e dos homens. Mas isso os poria em risco, obscurecendo sua sabedoria e seu conhecimento, e confundindo-os com temores, preocupações e exaustões derivadas da carne”. Mas só dois se apresentaram: Curumo, que foi escolhido por Aule, e Alatar, que foi enviado por Orome. Então Manwe perguntou onde estava Olórin. E Olórin, que trajava cinzento e, por acabar de voltar de uma viagem, se sentara à beira do conselho, perguntou o que Manwe queria dele. Manwe respondeu que desejava que Olórin fosse como terceiro mensageiro à Terra-média (e está observado entre parênteses que 'Olórin amava os eldar que restavam, aparentemente para explicar a escolha de Manwe). Mas Olórin declarou que era demasiado fraco para tal tarefa e que temia Sauron. Então Manwe disse que essa era ainda mais razão para que ele fosse, e que ordenava a Olórin (seguem-se palavras ilegíveis que parecem conter a palavra “terceiro”). Mas a essas palavras Varda ergueu o olhar e disse: — Não como terceiro —; e Curumo lembrou-se disso. A nota termina com a afirmativa de que Curumo [Saruman] levou Aiwendil [Radagast] porque Yavanna lhe implorou que o fizesse, e que Alatar levou Paliando como amigo. Em outra página de anotações, claramente pertencente ao mesmo período, diz-se que “Curumo foi obrigado a levar Aiwendil para agradar a Yavanna, esposa de Aule”. Ali há também alguns esboços de tabelas que relacionam os nomes dos Istari com os nomes idos Valar: Olórin com Manwe e Varda, Curumo com Aule, Aiwendil com Yavanna, Alatar com Orome, e Paliando também com Orome (mas isso substitui a relação de Paliando com Mandos e Nienna). À luz da breve narrativa recém-mencionada, essas relações entre os Istari e os Valar significam claramente que cada Istar foi escolhido por um Vala por suas características inatas — talvez mesmo por serem membros do “povo” daquele Vala, no mesmo sentido do que se diz de Sauron no Valaquenta (O Silmarillion, p. 23), que “no início, ele pertencia aos Maiar de Aule e continuou poderoso na tradição daquele povo”. Assim, é muito notável que Curumo (Saruman) fosse escolhido por Aule. Não há vestígio de explicação do motivo pelo qual o evidente desejo de Yavanna, de que os Istari deveriam incluir alguém com um amor especial pelas coisas que ela fizera, só podia ser realizado pela imposição da companhia de Radagast a Saruman; enquanto a sugestão no ensaio
sobre os Istari de que apaixonando-se pelas criaturas selvagens da Terra-média, Radagast abandonou o propósito para o qual fora enviado, talvez não esteja em perfeita harmonia com a ideia de que foi especialmente escolhido por Yavanna. Ademais, tanto no ensaio sobre os Istari quanto em Dos Anéis de Poder, Saruman chegou primeiro e sozinho. Por outro lado, é possível ver uma sugestão da história da companhia indesejável de Radagast no extremo desprezo que Saruman tinha por ele, conforme foi relatado por Gandalf ao Conselho de Elrond. — “Radagast, o Castanho!”, riu Saruman, não mais escondendo o desprezo que sentia. “Radagast, o Domador de Pássaros! Radagast, o Simplório! Radagast, o Tolo! Mas pelo menos teve a capacidade de desempenhar a função que lhe designei”. Ao passo que no ensaio sobre os Istari consta que os dois que foram ao leste não tinham nomes, excepto Ithryn Luin, “os Magos Azuis” (com o evidente significado de que não tinham nomes no oeste da Terra-média), aqui eles são designados, como Alatar e Paliando, e estão associados com Orome, embora não se dê nenhuma sugestão do motivo dessa relação. Pode ser (apesar de se tratar da mais pura conjectura) que Orome, dentre todos os Valar, tivesse o maior conhecimento das regiões remotas da Terra-média, e que os Magos Azuis estivessem destinados a viajar nessas regiões e lá ficar. Além do fato de que estas notas sobre a escolha dos Istari certamente são posteriores à conclusão do Senhor dos Anéis, não consigo encontrar nenhuma prova de sua relação, em termos de época de composição, com o ensaio sobre os Istari. Não conheço nenhum outro escrito sobre os Istari. a não ser algumas notas muito rudimentares e parcialmente impossíveis de interpretar, que certamente são muito posteriores às dadas acima, e provavelmente datam de 1972: Temos de presumir que eles [os Istari] eram todos Maiar, isto é, pessoas da ordem “angelical”, mas não necessariamente da mesma classe. Os Maiar eram “espíritos”, porém capazes de auto-encarnação, e podiam assumir formas “humanóides” (especialmente élficas). Diz-se (por exemplo, o próprio Gandalf afirma) que Saruman era o chefe dos Istari — isto é, mais elevado na estatura valinoreana que os demais. Gandalf era evidentemente o próximo na ordem. Radagast é apresentado como uma pessoa de muito menor poder e sabedoria. Dos outros dois nada se diz em obras publicadas, excepto a referência aos Cinco Magos na altercação entre Gandalf e Saruman [As Duas Torres, III X], Ora, esses
Maiar foram enviados pelos Valar em um momento crucial da história da Terra-média para reforçar a resistência dos elfos do oeste, cujo poder minguava, e dos homens incorruptos do oeste, em número muito menor que os do leste e do sul. Pode-se ver que cada um deles era livre para fazer o que podia nessa missão; que não eram comandados nem se esperava que agissem juntos como um pequeno corpo central de poder e sabedoria; que cada um tinha poderes e inclinações diferentes, e que foram escolhidos pelos Valar com essa intenção. Outros escritos tratam exclusivamente de Gandalf (Olórin, Mithrandir). No verso da página isolada que contém a narrativa da escolha dos Istari pelos Valar, aparece a seguinte nota curiosíssima: Elendil e Gil-galad eram parceiros; mas essa foi “a Última Aliança” entre elfos e homens. Na derrocada final de Sauron, os elfos não estavam efectivamente envolvidos no ponto da ação. Legolas provavelmente foi o que menos realizou dentre os Nove Andantes. Galadriel, a maior dos eldar que sobreviviam na Terra-média, tinha sua principal potência na sabedoria e na bondade, como diretora ou conselheira no combate, inconquistável na resistência (em especial na mente e no espírito), mas incapaz de acção punitiva. Na sua escala, tornara-se como Manwe com respeito à grande acção total. Manwe, no entanto, mesmo após a Queda de Númenor e a destruição do mundo antigo, mesmo na Terceira Era, quando o Reino Abençoado fora removido dos “Círculos do Mundo”, ainda não era um mero observador. Foi claramente de Valinor que vieram os emissários que eram chamados de Istari (ou Magos), e entre eles Gandalf, que demonstrou ser o director e coordenador tanto do ataque quanto da defesa. Quem era Gandalf? Diz-se que em dias posteriores (quando outra vez se ergueu uma sombra do mal no Reino) muitos dos “Fiéis” daquele tempo acreditavam que “'Gandalf” era a última aparição do próprio Manwe, antes de seu retraimento final à torre de vigia de Taniquetil. (O fato de Gandalf ter dito que seu nome “no Ocidente” fora Olórin era, de acordo com essa
crença, a adopção de um cognome, uma mera alcunha.) Eu (é claro) não conheço a verdade neste caso; e, se a conhecesse, seria um erro ser mais explícito do que Gandalf foi. Mas creio que não era assim. Manwe não descerá da Montanha antes da Dagor Dagorath, e a chegada do Fim, quando Melkor retornará. Para vencer Morgoth, ele enviou seu arauto Eonwe. Para derrotar Sauron, então, não mandaria algum espírito menor (mas poderoso) do povo angélico, alguém coeso e igual, sem dúvida, a Sauron nos seus primórdios, porém não mais? Olórin era seu nome. Mas de Olórin nunca saberemos mais do que aquilo Saberás a ciência há muito secreta Dos Cinco que saíram de solo distante? Um só voltou. Os outros não mais Trilharão a Terra-média sob tutela dos homens Até Dagor Dagorath e o Destino chegar. Como o conheces: o conselho oculto Dos Senhores do Oeste na terra de Aman? Longas vias se foram que até lá levavam, E aos homens mortais Manwe não se manifesta. Do Oeste-que-Era uma aragem o trouxe Ao ouvido do sono. em meio aos silêncios Na sombra da noite, quando trazem notícias De terras esquecidas e extintas eras Por mares de anos à mente minuciosa. Restam os que recorda o Rei Mais Velho. Enxergou a Sauron como sutil ameaça [...] Aqui há muitas coisas que dizem respeito à questão maior, da preocupação de Manwe e dos Valar com o destino da Terra-média após a Queda de Númenor, e que devem escapar totalmente ao âmbito deste livro. Depois das palavras “Mas de Olórin nunca saberemos mais do que aquilo que ele revelou em Gandalf”, meu pai acrescentou mais tarde: excepto que Olórin é um nome alto-élfico, e portanto deve ter sido dado a ele em Valinor pelos eldar, ou deve ser uma “tradução” com a intenção de ser significativa a eles. Em qualquer um dos casos, qual era o significado do nome, conferido ou adoptado? Olor é uma palavra frequentemente traduzida como “sonho”, mas que não se refere aos “sonhos” humanos (em sua maioria), certamente não aos sonhos do sono. Para os eldar, incluía o conteúdo vivido de sua memória, assim como de sua imaginação: referia-se de fato à visão clara, na mente, de coisas não fisicamente presentes na situação do corpo. Porém não somente a uma ideia, mas a um pleno revestimento dela com forma e detalhe particulares. Uma nota etimológica isolada explica o significado de modo semelhante: olo-s: visão, “fantasia”: Nome élfico comum para “construção da mente” não realmente (pré-)existente em Ea à parte da construção, mas capaz de ser tornada visível e sensível pelos eldar, através da Arte (Karme). Olos normalmente se aplica a construções belas que têm somente um objectivo artístico (isto é, não têm o objectivo do engano, ou de adquirir poder). São citadas palavras derivadas desta raiz: quenya olos “sonho, visão”, plural olozi/olori; õla- (impessoal) “sonhar”; olosta “sonhador”. É feita então uma referência a Olofantur, que era o primitivo nome “verdadeiro” de Lórien, o Vala que era “mestre das
visões e dos sonhos”, antes de ser alterado para Irmo no Silmarillion (como Nurufantur foi alterado para Námo (Mandos): embora o plural Fêanturi para esses dois “irmãos” tenha sobrevivido no Valaquenta). Essas discussões de olos, olor claramente devem estar ligadas ao trecho do Valaquenta (O Silmarillion, p. 22) em que se diz que Olórin habitava em Lórien em Valinor, e que embora ele amasse os elfos, caminhava invisível em seu meio ou na forma de um deles, e eles não sabiam de onde vinham as belas visões ou as sugestões de sabedoria que ele instigava em seus corações.  Numa versão anterior desse trecho consta que Olórin era “conselheiro de Irmo”, e que no coração daqueles que o escutavam despertavam pensamentos “de coisas belas que ainda não haviam existido, mas podiam ainda ser feitas para o enriquecimento de Arda”. Há uma longa nota para elucidar o trecho em As Duas Torres, IV. V, em que Faramir, em Henneth Annûn. contou que Gandalf dissera: Tenho muitos nomes em diferentes lugares. Mithrandir entre os elfos, Tharkûn para os anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incánus, no norte, Gandalf; para o leste eu nunca vou. Esta nota é anterior à publicação da segunda edição do Senhor dos Anéis em 1966, e diz o seguinte: A data da chegada de Gandalf é incerta. Ele veio de além do Mar, aparentemente mais ou menos ao mesmo tempo em que se notaram os primeiros sinais do ressurgimento da “Sombra”: a reaparição e a difusão de criaturas malignas. Mas ele raramente é mencionado em quaisquer anais ou registos durante o segundo milénio da Terceira Era. Provavelmente vagueou por muito tempo (com vários aspectos), não empenhado em feitos e acontecimentos, mas em explorar o coração dos elfos e homens que haviam estado e ainda se podia esperar estivessem opostos a Sauron. Está preservada sua própria afirmativa (ou uma versão dela, e de qualquer maneira não plenamente compreendida) de que seu nome na juventude era Olórin no Ocidente, mas era chamado de Mithrandir pelos elfos (Caminheiro Cinzento), Tharkûn pelos anões (que alegadamente significava “Homem do Cajado”), Incánus no sul, e Gandalf no norte, mas “para o leste eu nunca vou”. “O Ocidente” aqui claramente significa o Extremo Oeste além do Mar, não parte da Terra-média; o nome Olórin é de forma alto-élfica. “O norte” deve referir-se às regiões do noroeste da Terra-média, onde a maioria dos habitantes ou povos falantes eram, e permaneciam, incorruptos por Morgoth ou Sauron. Nessas regiões seria mais forte a resistência aos males deixados para trás pelo Inimigo, ou a seu servo Sauron, caso este reaparecesse. Os limites dessa região eram naturalmente vagos; sua fronteira leste era aproximadamente o Rio Carnen até sua junção com o Celduin (o Rio Corrente), e além até Númen, e de lá rumo ao sul até os antigos confins de Gondor Meridional. (Originariamente não excluía Mordor, que estava ocupada por Sauron, mesmo que fora de seus reinos originais “no leste”, como ameaça deliberada ao oeste e aos númenorianos.) “O norte” inclui portanto toda esta grande área: uma fronteira imprecisa do oeste para o leste desde o Golfo de Lûn até Númen, e do norte para o sul desde Carn Dûm até os limites meridionais da antiga Gondor, entre esta e o Harad Próximo. Além de Númen, Gandalf jamais fora. Esse trecho é a única prova que resta acerca da extensão de suas viagens mais para o sul. Aragorn afirma ter chegado “às regiões distantes de Rhûn e Harad, onde as estrelas são estranhas” (A Sociedade do Anel, II, II). Não é necessário supor que Gandalf tenha feito o mesmo. Essas lendas são centradas no norte — porque está representado como fato histórico que o combate contra Morgoth e seus servos ocorreu principalmente no norte, e especialmente no noroeste, da Terra-média, e isso foi assim porque o movimento dos elfos, e depois dos homens escapando de Morgoth, fora inevitavelmente rumo ao oeste, na direcção do Reino Abençoado, e rumo ao noroeste porque naquele ponto as costas da Terra-média estavam mais próximas de Aman. Harad “sul” é portanto um termo vago; e, apesar de os homens de Númenor, antes de sua queda, terem explorado as costas da Terra-média muito ao sul, suas povoações além de Umbar haviam sido absorvidas, ou, tendo sido estabelecidas por homens que já em Númenor tinham sido corrompidos por Sauron, haviam se tornado hostis e parte dos domínios de Sauron. Mas as regiões meridionais em contacto com Gondor (e chamadas pelos homens de Gondor simplesmente de Harad “sul”, Próximo ou Extremo) eram provavelmente mais propensas a serem convertidos à “Resistência”, e também lugares onde Sauron estava mais ocupado na Terceira Era, visto que eram para ele uma fonte de mão-de-obra muito prontamente utilizada contra Gondor. Para essas regiões, Gandalf pode muito bem ter viajado nos primeiros dias de suas labutas. Mas sua principal província era o “norte”, e nele acima de tudo o noroeste, Lindon, Eriador e os Vales do Anduin. Sua aliança era primariamente com Elrond e os dúnedain do norte (Guardiões). Era-lhe peculiar seu amor e conhecimento dos “Pequenos”, pois sua sabedoria tinha um presságio da importância deles em última análise, e ao mesmo tempo percebia seu valor inerente. Gondor atraía menos sua atenção, pela mesma razão que a tornava mais interessante para Saruman: era um centro de conhecimento e poder. Seus governantes, pela ascendência e todas as suas tradições, opunham-se irrevogavelmente a Sauron, certamente do ponto de vista político: o reino de Gondor erguia-se como ameaça a ele, e continuava a existir somente até onde e até quando a ameaça de Sauron a eles pudesse ser enfrentada pelo poder armado.
Gandalf pouco podia fazer para guiar seus altivos governantes ou instruí-los, e foi somente na decadência do seu poder, quando foram enobrecidos pela coragem e pela perseverança no que parecia uma causa perdida, que ele começou a se preocupar profundamente com eles. O nome Incánus é aparentemente “alienígena”, isto é, nem westron nem élfico (sindarin ou quenya); nem é explicável pelos idiomas remanescentes dos homens do norte. Uma nota no Livro do Thain diz que é uma forma, adaptada ao quenya, de uma palavra do idioma dos Haradrim que significa simplesmente “espião do norte” (Ink.ã + nus). Gandalf é uma substituição, na narrativa em inglês, nas mesmas linhas do tratamento dado a nomes dos hobbits e dos anões. É um nome nórdico verdadeiro (encontrado, aplicado a um anão, em Voluspá), usado por mim por parecer conter gandr, um cajado, especialmente um usado em “mágica”, e por ser possível supor que signifique “indivíduo élfico com um cajado (mágico)”. Gandalf não era elfo, mas pelos homens poderia ser associado com eles. visto que sua aliança e sua amizade com eles eram bem conhecidas. Como o nome é associado com “o norte” em geral, deve-se supor que Gandalf' represente um nome em westron, porém composto de elementos não derivados dos idiomas élficos. Uma visão totalmente diferente do significado das palavras de Gandalf “no sul, Incánus”, e da etimologia do nome, aparece em uma nota escrita em 1967: É muito obscuro o que significava “no sul”. Gandalf negou jamais ter visitado “o leste”, mas na verdade parece ter limitado suas viagens e sua tutela às terras ocidentais, habitadas pelos elfos e por povos em geral hostis a Sauron. De qualquer forma, parece improvável que alguma vez tenha viajado ou permanecido bastante tempo no Harad (ou Extremo Harad!) para lá ter adquirido um nome especial numa das línguas alienígenas daquelas regiões pouco conhecidas. Assim, o sul deve significar Gondor (no sentido mais amplo, as terras sob a suserania de Gondor no píncaro do poder). À época do Conto, porém, encontramos Gandalf sempre chamado de Mithrandir em Gondor (por homens de classe alta ou origem númenoriana, como Denethor. Faramir etc). Isto é sindarin, e é dado como o nome usado pelos elfos; mas os homens de classe alta em Gondor conheciam e usavam essa língua. O nome “popular” em westron ou Língua Geral era evidentemente um com o significado de “Manto-Cinzento”, mas como havia sido inventado muito tempo atrás já possuía uma forma arcaica. Esta talvez esteja representada pelo Capa-Cinzenta usado por Éomer em Rohan. Meu pai concluiu aqui que “no sul” se referia a Gondor, e que Incánus era (como Olórin) um nome em quenya, porém inventado em Gondor nos tempos antigos, quando o quenya ainda era muito usado pelos eruditos e era a língua de muitos registos históricos, como havia sido em Númenor. Gandalf, diz-se no Conto dos Anos, surgiu no oeste no início do século XI da Terceira Era. Se presumirmos que ele primeiro visitou Gondor, bastantes vezes e por tempo suficiente para ali adquirir um nome ou nomes — digamos no reinado de Atanatar Alcarin, cerca de 1.800 anos antes da Guerra do Anel —. seria possível tomar Incánus como um nome em quenya inventado para ele, que mais tarde se tornou obsoleto e era lembrado apenas pelos eruditos. Com base nessa suposição, é proposta uma etimologia a partir dos elementos quenya in(id) “mente” e kan“soberano”, em especial em cáno. cánu, “soberano, governador, chefe”(este último constitui o segundo elemento nos nomes Turgon e Fingon). Nessa nota, meu pai referiu-se à palavra latina Incánus. “grisalho”, de maneira a sugerir que esta fosse a origem real deste nome de Gandalf quando O Senhor dos Anéis foi escrito, o que, caso verdadeiro, seria muito surpreendente. E, ao final da discussão, observou que a coincidência de formas entre o nome em quenya e a palavra latina deve ser vista como um “acidente”, do mesmo modo que o sindarin Orthanc “elevação bifurcada”. por acaso coincide com a palavra anglo-saxã Orthanc , “invenção astuciosa”, que é a tradução do nome real na língua dos rohirrim.


http://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2017/08/J.R.R.-Tolkien-Contos-Inacabados.pdf

6 de fev. de 2019

Stargate season 2 ep 4 The Gamekeeper / Inspiração Palácio de Cristal???



tenho imensa vergonha de dizer que na altura em que saiu esta série eu não vi, não me chamou a atenção até porque nunca fui grande fã de séries no passado, sempre adorei um bom filme mas séries ainda hoje não me prendem por aí além... a não ser um Game of Thrones... bom, o SYFY está a passar os episódios e um dos que mais me chamou a atenção foi este, até porque a história está muito bem elaborada, faz lembrar a alegoria da caverna de Platão, e também nos introduz a um conceito de uma sociedade adormecida e controlada por um eventual arconte, ou uma entidade que supervisiona e mantém a vibração baixa e oculta deliberadamente o conhecimento - o certo é que logo no início temos uma imagem de um belo jardim com um domo, igualzinha ao Pavilhão Rosa Mota, não sei se alguma vez Dean Devlin ou Roland Emmerich estiveram no Porto e se inspiraram cá, mas é uma coincidência espantosa... em todo o caso, de salientar uma série fantástica e um episódio que deixa muito em que pensar...