14 de fev. de 2019

Os Istari (JRR Tolkien, Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média)





O relato mais completo sobre os Istari foi escrito, ao que parece, em 1954. Apresento-o aqui na íntegra e subsequentemente referir-me-ei a ele como “o ensaio sobre os Istari”. Mago é uma tradução do quenya istar (sindarin ithron): um dos membros de uma “ordem” (como eles a chamavam), que alegava possuir e demonstrava eminente conhecimento da

história e natureza do Mundo. A tradução (apesar de adequada, por relacionar-se com “wise” 25 e outras antigas palavras de conhecimento, de modo semelhante a istar em quenya) talvez não seja feliz, visto que a Heren Istarion ou “Ordem dos Magos” era bem diversa dos “magos” e “mágicos” de lendas posteriores. Eles pertenciam unicamente à Terceira Era e depois partiram, e ninguém, excepto talvez Elrond, Círdan e Galadriel, descobriu de que espécie eram ou de onde vieram. Entre os homens (inicialmente), aqueles que tratavam com eles supunham que eram homens que haviam adquirido tradições e artes através de estudos longos e secretos. Apareceram pela primeira vez na Terra-média por volta do ano 1000 da Terceira Era, mas por muito tempo andaram com aparência simples, como de homens já velhos, mas sãos de corpo, viajantes e Caminhantes, adquirindo conhecimento da Terra-média e de todos os que ali habitavam, porém sem revelar a ninguém seus poderes e propósitos. Naquela época, os homens raramente os viam e pouca atenção lhes davam. No entanto, à medida que a sombra de Sauron começou a crescer e tomar forma outra vez, tornaram-se mais activos e buscavam sempre opor-se ao avanço da Sombra, bem como a levar os elfos e os homens a se prevenirem contra seu perigo. Então espalhou-se por toda parte, entre os homens, o rumor de suas idas e vindas, bem como de sua interferência em muitos assuntos; e os homens perceberam que eles não morriam, mas permaneciam iguais (a não ser pelo fato de que envelheciam um pouco no aspecto), enquanto os pais e os filhos dos homens se acabavam. Os homens, portanto, começaram a temê-los, mesmo quando os amavam, e consideravam que eles fossem da raça dos elfos (com os quais de fato muitas vezes se associavam). Porém não o eram. Pois vinham do outro lado do Mar, desde o Extremo Oeste. Por muito tempo, no entanto, isso só foi do conhecimento de Círdan, Guardião do Terceiro Anel, mestre dos Portos Cinzentos, que viu seus desembarques nas praias ocidentais. Eram emissários dos Senhores do Oeste, os Valar, que ainda deliberavam sobre o governo da Terra-média e que, quando a sombra de Sauron começou a se agitar novamente, empreenderam esse meio de lhe resistir. Pois. com o consentimento de Eru, enviaram membros de sua própria elevada ordem, porém vestidos de corpos como os dos homens, reais e não ilusórios, mas sujeitos aos medos, às dores e à exaustão da terra,

capazes de sentirem fome e sede, e de serem mortos; embora, por causa de sua nobreza de espírito, não morressem, e só envelhecessem em consequência das preocupações e labutas de muitos e muitos anos. E isso foi feito pelos Valar porque desejavam emendar os erros de outrora, especialmente a tentativa de proteger e isolar os eldar pela plena revelação de seu próprio poderio e glória. Agora, no entanto, seus emissários estavam proibidos de se revelar em formas de majestade, ou de procurar dominar as vontades dos homens ou dos elfos através da demonstração aberta de poder; mas, vindos em formas débeis e humildes, tinham a incumbência de aconselhar e persuadir os homens e os elfos para o bem, e procurar unir no amor e na compreensão todos aqueles que Sauron, caso retornasse, tentaria dominar e corromper. Dessa Ordem o número de membros é desconhecido; mas daqueles que chegaram ao Norte da Terra-média, onde havia mais esperança (por causa do remanescente dos dúnedain e dos eldar que lá habitavam), os principais eram cinco. O primeiro a chegar tinha nobre semblante e porte, com cabelos negros e uma bela voz, e trajava branco. Tinha grande habilidade nos trabalhos das mãos, e era considerado por quase todos, mesmo pelos eldar, o chefe da Ordem. Também havia outros: dois trajados de azul do mar, e um do castanho da terra; e por último chegou um que parecia o menos importante, menos alto que os demais, e de aspecto mais idoso, de cabelos grisalhos, trajado de cinza e apoiado em um cajado. Mas Círdan, desde seu primeiro encontro nos Portos Cinzentos, adivinhou nele
o maior e mais sábio espírito. Deu-lhe as boas-vindas com reverência e entregou a seus cuidados o Terceiro Anel, Narya, o Vermelho, — pois — disse ele — grandes labutas e perigos estão diante de você; e, para que sua tarefa não demonstre ser demasiado grande e exaustiva, tome este Anel para seu auxílio e conforto. Foi-me confiado apenas para ser mantido em segredo, e aqui nas costas do oeste está ocioso; mas julgo que em dias que não tardarão ele deverá estar em mãos mais nobres que as minhas, que poderão usá-lo para acender a coragem em todos os corações; — e o Mensageiro Cinzento tomou o Anel, e sempre o manteve em segredo. No entanto o Mensageiro Branco (que tinha habilidade para descobrir todos os segredos) após certo tempo se deu conta desse presente, e teve inveja. Foi esse o começo da malevolência oculta que tinha em relação ao Cinzento, e que mais tarde se tornou manifesta. Ora, em dias posteriores, o Mensageiro Branco tornou-se conhecido entre os elfos como Curunír, o Homem Habilidoso, e Saruman nas línguas dos homens do norte; mas isso foi depois que ele retornou de suas numerosas viagens, entrou no reino de Gondor e lá morou. Dos Azuis pouco se conhecia no oeste, e não tinham nomes, excepto Ithryn Luin, “os Magos Azuis”; pois foram ao leste com Curunír, mas jamais voltaram, e se permaneceram no leste, lá seguindo os propósitos para os quais haviam sido enviados; ou pereceram; ou ainda, como afirmam alguns, foram apanhados por Sauron e se tornaram seus servos, não se sabe agora. Mas nenhuma dessas alternativas era impossível de acontecer; pois, por muito que isso possa parecer estranho, os Istari, visto que trajavam corpos da Terra-média, podiam afastar-se dos seus propósitos exactamente como os homens e os elfos, e fazer o mal, esquecendo-se do bem na busca pelo poder de realizá-lo. Um trecho separado, escrito na margem, sem dúvida encaixa-se aqui: Pois de facto diz-se que, por possuírem corpos, os Istari necessitavam aprender de novo muitas coisas, pela lenta experiência e, apesar de saberem de onde vinham, a lembrança do Reino Abençoado era para eles uma visão de muito longe, pela qual (enquanto permanecessem fiéis à sua missão) ansiavam intensamente. Assim, por suportarem de livre vontade as angústias do exílio e as fraudes de Sauron, poderiam corrigir os males daquele tempo. De fato, de todos os Istari apenas um permaneceu fiel, e esse foi o último a chegar. Pois Radagast, o quarto, apaixonou-se pelos muitos animais e aves que viviam na Terra-média, e abandonou os elfos e os homens para passar seus dias entre as criaturas selvagens. Assim obteve seu nome (que é do idioma de Númenor de outrora, e significa, dizem, “o que cuida dos animais”). E Curunír 'Lân, Saruman, o Branco,
decaiu da sua elevada missão, e, tornando-se orgulhoso, impaciente e apaixonado pelo poder, buscou fazer sua própria vontade pela força, e desalojar Sauron; mas foi apanhado por aquele espírito sinistro, mais poderoso que ele. Mas o último a chegar era chamado entre os elfos de Mithrandir, o Peregrino Cinzento, pois não morava em nenhum lugar e não reunia em torno de si nem riquezas nem seguidores, mas andava sempre para lá e para cá nas Terras Ocidentais, de Gondor a Angmar, e de Lindon a Lórien, fazendo-se amigo de toda a gente em tempos de necessidade. Era cordial e sério seu espírito (e era reforçado pelo anel Narya), pois ele era o Inimigo de Sauron, que opunha ao fogo que devora e destrói o fogo que anima, e socorre na desesperança e no infortúnio. No entanto, sua alegria e sua ira repentina estavam veladas em trajes da cor da cinza, de modo que apenas os que o conheciam bem entreviam a chama que ardia no seu íntimo. Podia ser jovial além de bondoso com os jovens e os simples; e ainda assim, às vezes, dispunha-se rapidamente a falar com rispidez e a repreender a insensatez. Não era orgulhoso porém, não buscava nem o poder nem o elogio, e assim, por toda parte, era caro a todos aqueles que não eram eles próprios orgulhosos. Na maioria das vezes viajava a pé, incansável, apoiado num cajado; e assim era chamado entre os homens do norte de Gandalf, “o Elfo do Cajado”. Pois consideravam (embora erradamente, como se disse) que pertencia à espécie dos elfos, visto que às vezes fazia maravilhas entre eles, por apreciar em especial a beleza do fogo. Realizava porém tais maravilhas principalmente para o contentamento e o deleite, sem desejar que ninguém sentisse reverência por ele ou seguisse seus conselhos por temor. Noutro lugar conta-se como, quando Sauron voltou a se erguer, também ele se ergueu e parcialmente revelou seu poder. E, tornando-se o principal autor da resistência contra Sauron, foi por fim vitorioso; e, pela vigilância e labuta, conduziu tudo àquele fim que fora pretendido pelos Valar sob o comando do Um que está acima deles. No entanto, diz-se que sofreu imensamente ao acabar a tarefa para a qual viera, e foi morto. E, tendo sido devolvido da morte, esteve então por um curto espaço de tempo trajado de branco, antes de se transformar numa chama radiante (ainda velada, excepto na necessidade extrema). E, quando tudo estava terminado e a Sombra de Sauron tinha sido eliminada, partiu para sempre por sobre o Mar; ao passo que Curunír foi derrubado e totalmente humilhado, e pereceu afinal pela mão de um escravo oprimido; tendo seu espírito ido aonde quer que estivesse condenado a ir, e à Terra-média, quer despido quer corporificado, jamais voltou. No Senhor dos Anéis a única afirmativa geral sobre os Istari encontra-se na nota introdutória do Conto dos Anos da Terceira Era no Apêndice B: Quando cerca de mil anos haviam passado, e a primeira sombra cobriu a Grande Floresta Verde, os Istari ou magos apareceram na Terra-média. Posteriormente comentou-se que eles tinham vindo do
Extremo Oeste e eram mensageiros enviados para fazer frente ao poder de Sauron, e para unir todos aqueles que tinham vontade de resistir a ele; mas os magos estavam proibidos de enfrentar o poder dele com o seu poder, ou de procurar dominar os elfos ou os homens usando de força ou medo. Portanto vieram na forma de homens, embora nunca fossem jovens e envelhecessem vagarosamente, e detinham muitos poderes na mente e nas mãos. Revelavam seus verdadeiros nomes a poucos, mas usavam os nomes que lhes eram dados. Os dois maiores dessa ordem (da qual se diz que era composta de cinco) eram chamados pelos eldar de Curunír, “o Homem Habilidoso”, e Mithrandir, “o Peregrino Cinzento”, mas os homens do norte chamavam-nos respectivamente de Saruman e Gandalf. Curunír viajava frequentemente para o leste, mas por fim passou a morar em Isengard. Mithrandir tinha uma amizade mais estreita com os eldar, e vagava principalmente no oeste, nunca fixando uma residência permanente. Segue-se um relato da custódia dos Três Anéis dos Elfos, no qual consta que Círdan deu o Anel Vermelho a Gandalf quando este primeiro chegou aos Portos Cinzentos vindo do outro lado do Mar (pois “Círdan enxergava mais longe e mais fundo que qualquer outro na Terra-média”). Assim, o ensaio recém-mencionado a respeito dos Istari conta muitas coisas sobre eles e sua origem que não aparecem no Senhor dos Anéis (e também contém algumas observações incidentais de grande interesse sobre os Valar, sua preocupação contínua com a Terra-média e seu reconhecimento do antigo erro, que não podem ser discutidas aqui). O mais notável é a descrição dos Istari como “membros de sua própria elevada ordem” (a ordem dos Valar), bem como as afirmativas sobre sua corporificação física. Mas também são dignas de nota a chegada dos Istari à Terra-média em épocas diferentes; a percepção de Círdan de que Gandalf era o maior deles; o conhecimento de Saruman de que Gandalf possuía o Anel Vermelho, e sua inveja; a visão que temos de Radagast, como alguém que não permaneceu fiel à sua missão; os outros dois “Magos Azuis”, sem nome, que foram com Saruman para o leste, mas, ao contrário dele, jamais voltaram às Terras Ocidentais; o número de membros da ordem dos Istari (que aqui se diz ser desconhecido, apesar de serem cinco “os principais” dos que chegaram ao norte da Terra-média); a explicação dos nomes Gandalf e Radagast; e a palavra sindarin ithron, plural ithryn. O trecho acerca dos Istari em Dos Anéis de Poder (no Silmarillion, p. 382) é de fato muito próximo da afirmativa no Apêndice B do Senhor dos Anéis, mencionada acima, até mesmo nas palavras; mas inclui a seguinte frase, que concorda com o ensaio sobre os Istari:
Curunír era o mais velho e o que chegara primeiro; e depois dele vieram Mithrandir e Radagast, bem como outros dos Istari que passaram para o leste da Terra-média e não entram nestas histórias. A maior parte dos demais escritos sobre os Istari (como grupo) infelizmente nada mais é que anotações muito rápidas, frequentemente ilegíveis. No entanto, é de extremo interesse um esboço breve e muito apressado de uma narrativa que fala de um conselho dos Valar, ao que parece convocado por Manwe (“e talvez tenha invocado Eru para aconselhá-los?”), no qual foi resolvido que enviariam três emissários à Terra-média. “Quem haveria de ir? Pois teriam de ser poderosos, pares de Sauron, mas teriam de renunciar ao poder e se trajar em carne para tratar com igualdade e conquistar a confiança dos elfos e dos homens. Mas isso os poria em risco, obscurecendo sua sabedoria e seu conhecimento, e confundindo-os com temores, preocupações e exaustões derivadas da carne”. Mas só dois se apresentaram: Curumo, que foi escolhido por Aule, e Alatar, que foi enviado por Orome. Então Manwe perguntou onde estava Olórin. E Olórin, que trajava cinzento e, por acabar de voltar de uma viagem, se sentara à beira do conselho, perguntou o que Manwe queria dele. Manwe respondeu que desejava que Olórin fosse como terceiro mensageiro à Terra-média (e está observado entre parênteses que 'Olórin amava os eldar que restavam, aparentemente para explicar a escolha de Manwe). Mas Olórin declarou que era demasiado fraco para tal tarefa e que temia Sauron. Então Manwe disse que essa era ainda mais razão para que ele fosse, e que ordenava a Olórin (seguem-se palavras ilegíveis que parecem conter a palavra “terceiro”). Mas a essas palavras Varda ergueu o olhar e disse: — Não como terceiro —; e Curumo lembrou-se disso. A nota termina com a afirmativa de que Curumo [Saruman] levou Aiwendil [Radagast] porque Yavanna lhe implorou que o fizesse, e que Alatar levou Paliando como amigo. Em outra página de anotações, claramente pertencente ao mesmo período, diz-se que “Curumo foi obrigado a levar Aiwendil para agradar a Yavanna, esposa de Aule”. Ali há também alguns esboços de tabelas que relacionam os nomes dos Istari com os nomes idos Valar: Olórin com Manwe e Varda, Curumo com Aule, Aiwendil com Yavanna, Alatar com Orome, e Paliando também com Orome (mas isso substitui a relação de Paliando com Mandos e Nienna). À luz da breve narrativa recém-mencionada, essas relações entre os Istari e os Valar significam claramente que cada Istar foi escolhido por um Vala por suas características inatas — talvez mesmo por serem membros do “povo” daquele Vala, no mesmo sentido do que se diz de Sauron no Valaquenta (O Silmarillion, p. 23), que “no início, ele pertencia aos Maiar de Aule e continuou poderoso na tradição daquele povo”. Assim, é muito notável que Curumo (Saruman) fosse escolhido por Aule. Não há vestígio de explicação do motivo pelo qual o evidente desejo de Yavanna, de que os Istari deveriam incluir alguém com um amor especial pelas coisas que ela fizera, só podia ser realizado pela imposição da companhia de Radagast a Saruman; enquanto a sugestão no ensaio
sobre os Istari de que apaixonando-se pelas criaturas selvagens da Terra-média, Radagast abandonou o propósito para o qual fora enviado, talvez não esteja em perfeita harmonia com a ideia de que foi especialmente escolhido por Yavanna. Ademais, tanto no ensaio sobre os Istari quanto em Dos Anéis de Poder, Saruman chegou primeiro e sozinho. Por outro lado, é possível ver uma sugestão da história da companhia indesejável de Radagast no extremo desprezo que Saruman tinha por ele, conforme foi relatado por Gandalf ao Conselho de Elrond. — “Radagast, o Castanho!”, riu Saruman, não mais escondendo o desprezo que sentia. “Radagast, o Domador de Pássaros! Radagast, o Simplório! Radagast, o Tolo! Mas pelo menos teve a capacidade de desempenhar a função que lhe designei”. Ao passo que no ensaio sobre os Istari consta que os dois que foram ao leste não tinham nomes, excepto Ithryn Luin, “os Magos Azuis” (com o evidente significado de que não tinham nomes no oeste da Terra-média), aqui eles são designados, como Alatar e Paliando, e estão associados com Orome, embora não se dê nenhuma sugestão do motivo dessa relação. Pode ser (apesar de se tratar da mais pura conjectura) que Orome, dentre todos os Valar, tivesse o maior conhecimento das regiões remotas da Terra-média, e que os Magos Azuis estivessem destinados a viajar nessas regiões e lá ficar. Além do fato de que estas notas sobre a escolha dos Istari certamente são posteriores à conclusão do Senhor dos Anéis, não consigo encontrar nenhuma prova de sua relação, em termos de época de composição, com o ensaio sobre os Istari. Não conheço nenhum outro escrito sobre os Istari. a não ser algumas notas muito rudimentares e parcialmente impossíveis de interpretar, que certamente são muito posteriores às dadas acima, e provavelmente datam de 1972: Temos de presumir que eles [os Istari] eram todos Maiar, isto é, pessoas da ordem “angelical”, mas não necessariamente da mesma classe. Os Maiar eram “espíritos”, porém capazes de auto-encarnação, e podiam assumir formas “humanóides” (especialmente élficas). Diz-se (por exemplo, o próprio Gandalf afirma) que Saruman era o chefe dos Istari — isto é, mais elevado na estatura valinoreana que os demais. Gandalf era evidentemente o próximo na ordem. Radagast é apresentado como uma pessoa de muito menor poder e sabedoria. Dos outros dois nada se diz em obras publicadas, excepto a referência aos Cinco Magos na altercação entre Gandalf e Saruman [As Duas Torres, III X], Ora, esses
Maiar foram enviados pelos Valar em um momento crucial da história da Terra-média para reforçar a resistência dos elfos do oeste, cujo poder minguava, e dos homens incorruptos do oeste, em número muito menor que os do leste e do sul. Pode-se ver que cada um deles era livre para fazer o que podia nessa missão; que não eram comandados nem se esperava que agissem juntos como um pequeno corpo central de poder e sabedoria; que cada um tinha poderes e inclinações diferentes, e que foram escolhidos pelos Valar com essa intenção. Outros escritos tratam exclusivamente de Gandalf (Olórin, Mithrandir). No verso da página isolada que contém a narrativa da escolha dos Istari pelos Valar, aparece a seguinte nota curiosíssima: Elendil e Gil-galad eram parceiros; mas essa foi “a Última Aliança” entre elfos e homens. Na derrocada final de Sauron, os elfos não estavam efectivamente envolvidos no ponto da ação. Legolas provavelmente foi o que menos realizou dentre os Nove Andantes. Galadriel, a maior dos eldar que sobreviviam na Terra-média, tinha sua principal potência na sabedoria e na bondade, como diretora ou conselheira no combate, inconquistável na resistência (em especial na mente e no espírito), mas incapaz de acção punitiva. Na sua escala, tornara-se como Manwe com respeito à grande acção total. Manwe, no entanto, mesmo após a Queda de Númenor e a destruição do mundo antigo, mesmo na Terceira Era, quando o Reino Abençoado fora removido dos “Círculos do Mundo”, ainda não era um mero observador. Foi claramente de Valinor que vieram os emissários que eram chamados de Istari (ou Magos), e entre eles Gandalf, que demonstrou ser o director e coordenador tanto do ataque quanto da defesa. Quem era Gandalf? Diz-se que em dias posteriores (quando outra vez se ergueu uma sombra do mal no Reino) muitos dos “Fiéis” daquele tempo acreditavam que “'Gandalf” era a última aparição do próprio Manwe, antes de seu retraimento final à torre de vigia de Taniquetil. (O fato de Gandalf ter dito que seu nome “no Ocidente” fora Olórin era, de acordo com essa
crença, a adopção de um cognome, uma mera alcunha.) Eu (é claro) não conheço a verdade neste caso; e, se a conhecesse, seria um erro ser mais explícito do que Gandalf foi. Mas creio que não era assim. Manwe não descerá da Montanha antes da Dagor Dagorath, e a chegada do Fim, quando Melkor retornará. Para vencer Morgoth, ele enviou seu arauto Eonwe. Para derrotar Sauron, então, não mandaria algum espírito menor (mas poderoso) do povo angélico, alguém coeso e igual, sem dúvida, a Sauron nos seus primórdios, porém não mais? Olórin era seu nome. Mas de Olórin nunca saberemos mais do que aquilo Saberás a ciência há muito secreta Dos Cinco que saíram de solo distante? Um só voltou. Os outros não mais Trilharão a Terra-média sob tutela dos homens Até Dagor Dagorath e o Destino chegar. Como o conheces: o conselho oculto Dos Senhores do Oeste na terra de Aman? Longas vias se foram que até lá levavam, E aos homens mortais Manwe não se manifesta. Do Oeste-que-Era uma aragem o trouxe Ao ouvido do sono. em meio aos silêncios Na sombra da noite, quando trazem notícias De terras esquecidas e extintas eras Por mares de anos à mente minuciosa. Restam os que recorda o Rei Mais Velho. Enxergou a Sauron como sutil ameaça [...] Aqui há muitas coisas que dizem respeito à questão maior, da preocupação de Manwe e dos Valar com o destino da Terra-média após a Queda de Númenor, e que devem escapar totalmente ao âmbito deste livro. Depois das palavras “Mas de Olórin nunca saberemos mais do que aquilo que ele revelou em Gandalf”, meu pai acrescentou mais tarde: excepto que Olórin é um nome alto-élfico, e portanto deve ter sido dado a ele em Valinor pelos eldar, ou deve ser uma “tradução” com a intenção de ser significativa a eles. Em qualquer um dos casos, qual era o significado do nome, conferido ou adoptado? Olor é uma palavra frequentemente traduzida como “sonho”, mas que não se refere aos “sonhos” humanos (em sua maioria), certamente não aos sonhos do sono. Para os eldar, incluía o conteúdo vivido de sua memória, assim como de sua imaginação: referia-se de fato à visão clara, na mente, de coisas não fisicamente presentes na situação do corpo. Porém não somente a uma ideia, mas a um pleno revestimento dela com forma e detalhe particulares. Uma nota etimológica isolada explica o significado de modo semelhante: olo-s: visão, “fantasia”: Nome élfico comum para “construção da mente” não realmente (pré-)existente em Ea à parte da construção, mas capaz de ser tornada visível e sensível pelos eldar, através da Arte (Karme). Olos normalmente se aplica a construções belas que têm somente um objectivo artístico (isto é, não têm o objectivo do engano, ou de adquirir poder). São citadas palavras derivadas desta raiz: quenya olos “sonho, visão”, plural olozi/olori; õla- (impessoal) “sonhar”; olosta “sonhador”. É feita então uma referência a Olofantur, que era o primitivo nome “verdadeiro” de Lórien, o Vala que era “mestre das
visões e dos sonhos”, antes de ser alterado para Irmo no Silmarillion (como Nurufantur foi alterado para Námo (Mandos): embora o plural Fêanturi para esses dois “irmãos” tenha sobrevivido no Valaquenta). Essas discussões de olos, olor claramente devem estar ligadas ao trecho do Valaquenta (O Silmarillion, p. 22) em que se diz que Olórin habitava em Lórien em Valinor, e que embora ele amasse os elfos, caminhava invisível em seu meio ou na forma de um deles, e eles não sabiam de onde vinham as belas visões ou as sugestões de sabedoria que ele instigava em seus corações.  Numa versão anterior desse trecho consta que Olórin era “conselheiro de Irmo”, e que no coração daqueles que o escutavam despertavam pensamentos “de coisas belas que ainda não haviam existido, mas podiam ainda ser feitas para o enriquecimento de Arda”. Há uma longa nota para elucidar o trecho em As Duas Torres, IV. V, em que Faramir, em Henneth Annûn. contou que Gandalf dissera: Tenho muitos nomes em diferentes lugares. Mithrandir entre os elfos, Tharkûn para os anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incánus, no norte, Gandalf; para o leste eu nunca vou. Esta nota é anterior à publicação da segunda edição do Senhor dos Anéis em 1966, e diz o seguinte: A data da chegada de Gandalf é incerta. Ele veio de além do Mar, aparentemente mais ou menos ao mesmo tempo em que se notaram os primeiros sinais do ressurgimento da “Sombra”: a reaparição e a difusão de criaturas malignas. Mas ele raramente é mencionado em quaisquer anais ou registos durante o segundo milénio da Terceira Era. Provavelmente vagueou por muito tempo (com vários aspectos), não empenhado em feitos e acontecimentos, mas em explorar o coração dos elfos e homens que haviam estado e ainda se podia esperar estivessem opostos a Sauron. Está preservada sua própria afirmativa (ou uma versão dela, e de qualquer maneira não plenamente compreendida) de que seu nome na juventude era Olórin no Ocidente, mas era chamado de Mithrandir pelos elfos (Caminheiro Cinzento), Tharkûn pelos anões (que alegadamente significava “Homem do Cajado”), Incánus no sul, e Gandalf no norte, mas “para o leste eu nunca vou”. “O Ocidente” aqui claramente significa o Extremo Oeste além do Mar, não parte da Terra-média; o nome Olórin é de forma alto-élfica. “O norte” deve referir-se às regiões do noroeste da Terra-média, onde a maioria dos habitantes ou povos falantes eram, e permaneciam, incorruptos por Morgoth ou Sauron. Nessas regiões seria mais forte a resistência aos males deixados para trás pelo Inimigo, ou a seu servo Sauron, caso este reaparecesse. Os limites dessa região eram naturalmente vagos; sua fronteira leste era aproximadamente o Rio Carnen até sua junção com o Celduin (o Rio Corrente), e além até Númen, e de lá rumo ao sul até os antigos confins de Gondor Meridional. (Originariamente não excluía Mordor, que estava ocupada por Sauron, mesmo que fora de seus reinos originais “no leste”, como ameaça deliberada ao oeste e aos númenorianos.) “O norte” inclui portanto toda esta grande área: uma fronteira imprecisa do oeste para o leste desde o Golfo de Lûn até Númen, e do norte para o sul desde Carn Dûm até os limites meridionais da antiga Gondor, entre esta e o Harad Próximo. Além de Númen, Gandalf jamais fora. Esse trecho é a única prova que resta acerca da extensão de suas viagens mais para o sul. Aragorn afirma ter chegado “às regiões distantes de Rhûn e Harad, onde as estrelas são estranhas” (A Sociedade do Anel, II, II). Não é necessário supor que Gandalf tenha feito o mesmo. Essas lendas são centradas no norte — porque está representado como fato histórico que o combate contra Morgoth e seus servos ocorreu principalmente no norte, e especialmente no noroeste, da Terra-média, e isso foi assim porque o movimento dos elfos, e depois dos homens escapando de Morgoth, fora inevitavelmente rumo ao oeste, na direcção do Reino Abençoado, e rumo ao noroeste porque naquele ponto as costas da Terra-média estavam mais próximas de Aman. Harad “sul” é portanto um termo vago; e, apesar de os homens de Númenor, antes de sua queda, terem explorado as costas da Terra-média muito ao sul, suas povoações além de Umbar haviam sido absorvidas, ou, tendo sido estabelecidas por homens que já em Númenor tinham sido corrompidos por Sauron, haviam se tornado hostis e parte dos domínios de Sauron. Mas as regiões meridionais em contacto com Gondor (e chamadas pelos homens de Gondor simplesmente de Harad “sul”, Próximo ou Extremo) eram provavelmente mais propensas a serem convertidos à “Resistência”, e também lugares onde Sauron estava mais ocupado na Terceira Era, visto que eram para ele uma fonte de mão-de-obra muito prontamente utilizada contra Gondor. Para essas regiões, Gandalf pode muito bem ter viajado nos primeiros dias de suas labutas. Mas sua principal província era o “norte”, e nele acima de tudo o noroeste, Lindon, Eriador e os Vales do Anduin. Sua aliança era primariamente com Elrond e os dúnedain do norte (Guardiões). Era-lhe peculiar seu amor e conhecimento dos “Pequenos”, pois sua sabedoria tinha um presságio da importância deles em última análise, e ao mesmo tempo percebia seu valor inerente. Gondor atraía menos sua atenção, pela mesma razão que a tornava mais interessante para Saruman: era um centro de conhecimento e poder. Seus governantes, pela ascendência e todas as suas tradições, opunham-se irrevogavelmente a Sauron, certamente do ponto de vista político: o reino de Gondor erguia-se como ameaça a ele, e continuava a existir somente até onde e até quando a ameaça de Sauron a eles pudesse ser enfrentada pelo poder armado.
Gandalf pouco podia fazer para guiar seus altivos governantes ou instruí-los, e foi somente na decadência do seu poder, quando foram enobrecidos pela coragem e pela perseverança no que parecia uma causa perdida, que ele começou a se preocupar profundamente com eles. O nome Incánus é aparentemente “alienígena”, isto é, nem westron nem élfico (sindarin ou quenya); nem é explicável pelos idiomas remanescentes dos homens do norte. Uma nota no Livro do Thain diz que é uma forma, adaptada ao quenya, de uma palavra do idioma dos Haradrim que significa simplesmente “espião do norte” (Ink.ã + nus). Gandalf é uma substituição, na narrativa em inglês, nas mesmas linhas do tratamento dado a nomes dos hobbits e dos anões. É um nome nórdico verdadeiro (encontrado, aplicado a um anão, em Voluspá), usado por mim por parecer conter gandr, um cajado, especialmente um usado em “mágica”, e por ser possível supor que signifique “indivíduo élfico com um cajado (mágico)”. Gandalf não era elfo, mas pelos homens poderia ser associado com eles. visto que sua aliança e sua amizade com eles eram bem conhecidas. Como o nome é associado com “o norte” em geral, deve-se supor que Gandalf' represente um nome em westron, porém composto de elementos não derivados dos idiomas élficos. Uma visão totalmente diferente do significado das palavras de Gandalf “no sul, Incánus”, e da etimologia do nome, aparece em uma nota escrita em 1967: É muito obscuro o que significava “no sul”. Gandalf negou jamais ter visitado “o leste”, mas na verdade parece ter limitado suas viagens e sua tutela às terras ocidentais, habitadas pelos elfos e por povos em geral hostis a Sauron. De qualquer forma, parece improvável que alguma vez tenha viajado ou permanecido bastante tempo no Harad (ou Extremo Harad!) para lá ter adquirido um nome especial numa das línguas alienígenas daquelas regiões pouco conhecidas. Assim, o sul deve significar Gondor (no sentido mais amplo, as terras sob a suserania de Gondor no píncaro do poder). À época do Conto, porém, encontramos Gandalf sempre chamado de Mithrandir em Gondor (por homens de classe alta ou origem númenoriana, como Denethor. Faramir etc). Isto é sindarin, e é dado como o nome usado pelos elfos; mas os homens de classe alta em Gondor conheciam e usavam essa língua. O nome “popular” em westron ou Língua Geral era evidentemente um com o significado de “Manto-Cinzento”, mas como havia sido inventado muito tempo atrás já possuía uma forma arcaica. Esta talvez esteja representada pelo Capa-Cinzenta usado por Éomer em Rohan. Meu pai concluiu aqui que “no sul” se referia a Gondor, e que Incánus era (como Olórin) um nome em quenya, porém inventado em Gondor nos tempos antigos, quando o quenya ainda era muito usado pelos eruditos e era a língua de muitos registos históricos, como havia sido em Númenor. Gandalf, diz-se no Conto dos Anos, surgiu no oeste no início do século XI da Terceira Era. Se presumirmos que ele primeiro visitou Gondor, bastantes vezes e por tempo suficiente para ali adquirir um nome ou nomes — digamos no reinado de Atanatar Alcarin, cerca de 1.800 anos antes da Guerra do Anel —. seria possível tomar Incánus como um nome em quenya inventado para ele, que mais tarde se tornou obsoleto e era lembrado apenas pelos eruditos. Com base nessa suposição, é proposta uma etimologia a partir dos elementos quenya in(id) “mente” e kan“soberano”, em especial em cáno. cánu, “soberano, governador, chefe”(este último constitui o segundo elemento nos nomes Turgon e Fingon). Nessa nota, meu pai referiu-se à palavra latina Incánus. “grisalho”, de maneira a sugerir que esta fosse a origem real deste nome de Gandalf quando O Senhor dos Anéis foi escrito, o que, caso verdadeiro, seria muito surpreendente. E, ao final da discussão, observou que a coincidência de formas entre o nome em quenya e a palavra latina deve ser vista como um “acidente”, do mesmo modo que o sindarin Orthanc “elevação bifurcada”. por acaso coincide com a palavra anglo-saxã Orthanc , “invenção astuciosa”, que é a tradução do nome real na língua dos rohirrim.


http://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2017/08/J.R.R.-Tolkien-Contos-Inacabados.pdf

6 de fev. de 2019

Stargate season 2 ep 4 The Gamekeeper / Inspiração Palácio de Cristal???



tenho imensa vergonha de dizer que na altura em que saiu esta série eu não vi, não me chamou a atenção até porque nunca fui grande fã de séries no passado, sempre adorei um bom filme mas séries ainda hoje não me prendem por aí além... a não ser um Game of Thrones... bom, o SYFY está a passar os episódios e um dos que mais me chamou a atenção foi este, até porque a história está muito bem elaborada, faz lembrar a alegoria da caverna de Platão, e também nos introduz a um conceito de uma sociedade adormecida e controlada por um eventual arconte, ou uma entidade que supervisiona e mantém a vibração baixa e oculta deliberadamente o conhecimento - o certo é que logo no início temos uma imagem de um belo jardim com um domo, igualzinha ao Pavilhão Rosa Mota, não sei se alguma vez Dean Devlin ou Roland Emmerich estiveram no Porto e se inspiraram cá, mas é uma coincidência espantosa... em todo o caso, de salientar uma série fantástica e um episódio que deixa muito em que pensar... 




24 de jan. de 2019

Catastrophe Cycle Series, de Ben Davidson

conjunto de variantes que resumem uma parte de todas as potenciais ameaças para o nosso planeta vindas do espaço, seja uma ejecção de massa coronal massiva, danos causados por partículas ou pedaços em movimento após a explosão de uma micro-nova solar, vento solar e cósmico, e também como podemos verificar registos de catástrofes passadas - resumo excelente, baseado em trabalhos de diversos investigadores como Immanuel Velikovsky, Paul la Violette, David Talbott, entre outros














23 de jan. de 2019

as podas na minha cidade

Tenho de manifestar aqui o meu descontentamento, aproveitar enquanto ainda consigo expressar livremente a minha opinião - pois tendo ido ontem ao centro do Porto, e fazendo a Rotunda da Boavista, verifico mais uma vez o abate de árvores centenárias não digo, mas atendendo à altura da construção da rotunda (iniciada em 1909), não andará muito longe disso; acredito pois que a árvore em causa tenha muitos anos, esteja a pôr em perigo a segurança dos carros que transitam, blá blá blá, mas a questão é que cortam-se árvores e não se voltam a plantar, e como se pode verificar nesta fotografia tirada em 1964 (onde ainda se vê o antigo edifício de recolha da Carris, entretanto demolido originando depois a construção do edifício da Casa da Música); não entendo as prioridades arquitectónicas do gabinete planeamento urbano relativamente aos espaços de lazer desta cidade, mas a criação de sombras e espaços verdes definitivamente não figura entre elas - senão vejamos o exemplo da Avenida dos Aliados, a sua evolução, toda a gente que se recorde de como era com os seus belos jardins lamenta o seu desaparecimento...

Um à parte sobre a história do monumento  - o leão que subjuga a águia não simboliza a vitoria do Sporting sobre o Benfica, como o meu pai me dizia na minha infância, o monumento é um tributo aos Heróis da Guerra Peninsular, que uniu os exércitos de portugueses e ingleses contra os exércitos franceses de Napoleão Bonaparte, e que teve lugar na Península Ibérica entre os anos de 1808 a 1814, sendo o leão um símbolo da vitória inglesa sobre as águias de Bonaparte. O monumento é da autoria do arquitecto Marques da Silva e do escultor Alves de Sousa, tendo sido iniciado em 1909, mas apenas sido terminado em 1952, devido à morte prematura do escultor, apenas com 38 anos, pelo que teve de ser concluído pelos membros do então Sindicato dos Escultores. 


link para a imagem:


16 de jan. de 2019

Arqueoastronomia


A arqueoastronomia é o ramo disciplinar que se dedica ao estudo das antigas astronomias e das suas diversas expressões, designadamente do ponto de vista da arqueologia, da organização espacial, da religião e das ideias. Os estudiosos das arqueoastronomia recrutam-se entre os puros e simples curiosos (especialmente nos primeiros tempos, e que muitos deles eram "antiquários" à moda iluminista do séc. XVIII, agindo essencialmente por intuição), entre astrónomos, historiadores e arqueólogos. Mas o caminho da arqueoastronomia foi difícil e só nos finais do séc. XX então reconhecida a sua importância para o conhecimento das sociedades pré-históricas e das paisagens arcaicas. Até lá era considerada apenas como um ramo das então desacreditadas "arqueologias alternativas" - muitas delas justificadamente, atendendo à superficialidade dos trabalhos e das "visões" que estavam na sua base. Por razões (muito propriamente) idiossincráticas (mas não só), é na Inglaterra que se situa a génese da arqueoastronomia científica. Pode considerar-se pioneiro neste campo de estudos o reverendo William Stukeley, que publicou em 1740 uma obra seminal: Stonehenge, a Temple Restored to the British Druids. Stukeley considerava o cromeleque de Stonehenge como um templo orientado pela posição dos astros - designadamente do Sol durante os solstícios - tendo como miras e referencias as "avenidas" de terra, os alinhamentos, mamoas e tumuli que se encontravam na paisagem em seu redor e a ele associados. Os seus factores teriam sido os druidas celtas, conforme às concepções pré-românicas, os quais teriam utilizado o "compasso magnético" para este fim. Ao mesmo tempo, entre 1740 e 1747, John Wood estudava os monumentos megalíticos de Stanton Drew chegando a conclusões semelhantes no que respeita aos alinhamentos megalíticos e aos cromeleques ali existentes. Embora o interesse pelos possíveis alinhamentos astronómicos dos monumentos antigos não se tenha desvanecido no seio da inteligentsia  das Ilhas Britânicas, é nos finais do século XIX que este campo de trabalho é objecto de um forte impulso através dos estudos do verdadeiro fundador da arqueoastronomia ou arqueoastrologia, Sir Norman Lockyer, editor da prestigiada revista Nature. Sir Norman havia estudado em particular detalhe os templos egípcios, tendo concluído, entre outras matérias relevantes, que o templo de Amon-Rá em Karnak se encontrava devidamente orientado pelo põr-do-sol do solstício de verão, o que se conjugava com outras observações relativas à importância do ciclo de cheias do Nilo e dos seus anunciadores celestes, tais como a estrela Sothis, em íntima relação com a deusa Ísis. Estendeu depois as suas pesquisas a Stonehenge e a outros monumentos megalíticos britânicos, publicando em 1906 o livro Stonehenge and other British Stone Monuments Considered, no qual demonstra ter achado a linha que atravessa o monumento e que o alinha com outros monumentos da paisagem tendo como intenção o desempenho de uma função astronómica - neste caso o da marcação do nascer-do-sol solsticial (e o seu poente), algo que já se sabia, acrescentando-lhe agora a possibilidade de datação por esta via. Datava Stonehenge 1680 a.C., o que se sabe hoje ser muito próximo da realidade, uma vez que Lockyer apontava para uma data da idade de Bronze atribuível à forma final do anel de pedras. De facto, corrigidas as tabelas pelas quais Lockyer fizera os seus cálculos,  a data encontrada seria de 1820 a 200 a.C., o que corresponde às datações modernas. Contemporâneos de Lockyer e seus seguidores prosseguiram trabalhos neste domínio, salientando-se H. Boyle Sommerville, que estudou vários monumentos escoceses e das Hébridas, entre os quais o cromeleque de Callanish.

Embora com imperfeições, estes estudos foram confortando todos os que pensavam na possibilidade de os monumentos pré-históricos poderem deter uma carga informativa ainda maior do que normalmente se atribuiria a um qualquer "povo primitivo", não sendo estranha a este facto a valorização do druidismo. Outro grande impulso veio pela mão de um curioso, Alfred Watkins, que dedicou parte da sua vida a identificar na paisagem britânica alinhamentos compósitos perfeitamente rectilíneos. Estes alinhamentos compósitos eram constituídos indiferencialmente por monumentos pré-históricos, mamoas, estradas, pontes, igrejas, lagos, cristas de montes, agrupamentos de árvores, cancelas ou vestígios de cadastros. O sistema explicativo que construiu foi exposto numa obra de 1925, The Old Straight Track. Neste livro, para além de revelar alguns destes alinhamentos, baptizava-os com uma designação que ainda hoje se usa nos meios da arqueologia alternativa: leys. A expressão - na realidade, um neologismo - é intraduzível, mas para efeitos práticos poder-se-ia chamar-lhes em português linhas. O sistema de leys de Alfred Watkins procedia também a uma leitura interpretativa destes alinhamentos, considerando-os como resultantes, quer de uma espécie de feng shui  pré-histórico europeu, que dispusesse no terreno, independemente das épocas, marcos ou monumentos, itens artificiais da paisagem, de modo a respeitar uma "energia da terra" (o lung mei chinês), em harmonia com o cosmo, ou de modo a assinalar a observação dos astros. Depois de um período de esquecimento, a questão das leys voltou à ordem do dia durante os anos e desde então popularizou-se, por toda a Inglaterra, a "caça às linhas", ou ley hunting, suportada inclusivamente por uma revista, The Ley Hunter. Apesar de serem verificáveis alguns dos alinhamentos identificados por Watkins e seus seguidores, tais como Paul Screetone e outros, o certo é que diversos estudos estatísticos  demonstram a fiabilidade do "sistema". Assim, embora seja possível que algumas das linhas sejam intencionais e correspondam a determinantes astronómicas (como por exemplo a que parte do cromeleque de Boscawen-un, em Land's End, na Cornualha, alinhada por outros tantos megalitos e apontando para o grupo de estrelas Plêiades em maio de 1380 a.C.), é quase certo que na sua maior parte resultem de um acaso, sem prejuízo de se saberem conectadas no espaço com algumas estruturas pré-históricas. Passaram aliás a ser somente consideradas válidas as leys com um alinhamento de mais de cinco pontos comprovados. Hoje em dia procedeu-se a um a revisão de do sistema de leys, motivada pelos trabalhos de Paul Devereux, verificando-se, isso sim, a existência em todas as civilizações de alinhamentos "rectos" ou rectilineares fundamentados em motivações astronómicas ou de carácter simbólico ("caminhos dos mortos", ou os ceques incas com a sua inter-relação de santuários, etc), muitas vezes traduzidos na paisagem de forma reconhecível (mas muitas vezes sem a precisão de uma "régua"). Paralelamente a Watkins, uma teoria idêntica foi concebida na Alemanha por Wilhem Teudt, comprometida porém na sua aceitação geral pelo facto de o nazismo se ter dela apropriado para ajudar à construção da sua autogratificante mitologia nazi-germânica - o que não desagradaria ao próprio Teudt... Extermenstein, considerado um "altar da pátria" e, efectivamente um dos lugares mágicos da Alemanha teutónica, com os seus impressionantes penhascos onde residia a Irminsull (a árvore sagrada dos Germânicos), seria um dos pontos na paisagem assinalando o nascer do sol no solstício do verão e uma das estações mais setentrionais da lua. E, invariavelmente, voltamos a Stonehenge, desta vez cerca de sessenta anos depois de Lockyer e pela mão do astrónomo americano Gerald Hawkins. Num artigo publicado na revista Nature, Hawkins identifica com precisão científica em Stonehenge os vários alinhamentos e pontos de mira gerados pela estrutura do monumento na sua relação exterior com outros marcadores (menires, "avenidas" de terra). De diversas "estações" de observação seria possível aos construtores de Stonehenge calcular em detalhe diversas efemérides astronómicas, entre elas os solstícios, os equinócios e as posições da Lua. Este estudo pioneiro, publicado em 1965 e intitulado apropriadamente de Stonehenge Decoded, dava o grande cromeleque como uma espécie de computador astronómico.

Teve repercussões quase imediatas, mas não foi globalmente aceite pela comunidade científica. O certo é que o engenheiro escocês Alexander Thom publicava em 1967 o seu levantamento de centenas de megalitos britânicos, com o título de Megalithic Sites in Britain, dando conta da precisão geométrica do traçado dos cromeleques e confirmando a sua relação com acidentes na paisagem ou outros monumentos megalíticos (menires de marcação e de mira, por ele designados de outliers). Não só constatou que os monumentos eram gerados de traçado, com múltiplos centros de modo a desenharem ovais e elipses (às vezes só muito ligeiramente identificáveis, o que acentuaria a sua intencionalidade), como descobre a existência de uma medida padrão, a jarda megalítica (megalithic yard e megalithic rod), com 2.72 pés, ou seja, 82,9 cm. Os cálculos de Thom advogam ainda a existência de um padrão geométrico "pitagórico"como matriz dos traçados (no caso concreto, o triângulo rectângulo). A maior parte dos monumentos teria ainda, segundo Thom, um conjunto de atributos de observação do movimento dos corpos celestes, permitindo assinalar o nascer e pôr-do-sol ou da lua em datas específicas, consideradas de significado mágico ou místico, bem como de estrelas.  Nenhuma das teses de Thom foi convincentemente desmontada, embora os trabalhos críticos de Douglas Heggie possam contribuir para uma maior reserva face a alguns dos resultados apresentados. Mas encontramo-nos  já, e desde o caso de Hawkins, em presença de uma arqueoastronomia académica, debatível e cada vez mais interessante para o conhecimento do homem pré-histórico, algo que os arqueólogos não deixaram de registar. O restauro do grande dólmen de Newgrange por Michael O'Kelly teve em consideração o facto de existir por cima da entrada do corredor uma clarabóia ou bandeira que permitia que os raios do sol no solstício de inverno penetrassem na câmara do monumento iluminando priviligiadamente a cabeceira, confirmando desta forma o valor simbólico dos astros na cosmovisão megalítica. Depois do decano arqueólogo Aubrey Burl ter confirmado a existência de alinhamentos astronómicos - na sua opinião, porém, muito menos precisos do que Thom pretendia - o certo é que não existe uma única abordagem contemporânea dos monumentos megalíticos qua não estude as suas eventuais referencias astronómicas e simbólicas. Martin Brennan, já nos anos 80, advogou com êxito uma estratégia de estudo que mostra até que ponto é que os megalitos e a arte gravada que eles encerram se encontram relacionados com a observação dos astros. O posicionamento de algumas das gravuras, iluminadas em momentos do ano pelo sol ou pela lua, constituirão a prova de uma pensamento astronómico-simbólico entre os construtores de megalitos, para mais avançando a proposta que alguns dos motivos da arte megalítica (rosáceas, semicírculos, sequências de sulcos, repetições dos mesmo motivos com variantes) são registos precisos de ciclos astronómicos e, portanto, representações abstractas de preocupações com o estabelecimento de calendários. Todas as hipóteses são hoje possíveis e existem diversos investigadores a trabalhar nestes dados, entre os quais se contam Clive Ruggles e Michael Hoskin.


Todavia, alertam para factores extremamente importantes para a análise do fenómeno arqueoastronómico. Em primeiro lugar a necessidade de nos assegurarmos de que as observações concordam de facto com a mudança do mapa celeste de época para época, por ser evidente que esse mapa se altera em função da chamada "precessão dos equinócios", ou seja, por força da inclinação do eixo da terra que se modifica completamente em ciclos de 26000 anos - o que quer dizer que uma distância temporal de 2000 anos ou de 4000 anos é extremamente significativa quando se calcula o movimento de astros mais "simples" - o caso do sol - mas especialmente quando se trata de eventuais alinhamentos estelares ou de asterismos (as constelações). O que os povos da pré-história viam no céu não é o mesmo que nós hoje vemos quando olhamos para essa mesma região. Uma tabela de cálculos ou programas de computador dão-nos hoje em dia, com  uma precisão total, superior à dos investigadores do século XIX e mesmo dos anos 60 do século XX, o retrato dos céus em diferentes períodos de tempo. Por sua vez, Hoskin chama a atenção para a necessidade de se estabelecer para cada monumento medições precisas complementares, para além da orientação (azimute do eixo do monumento). Assim, os elementos necessários em termos de levantamento são o azimute (o eixo), a altitude angular do horizonte (uma vez que os monumentos são rodeados de acidentes paisagísticos, e, portanto, o sol ou a lua só nascem ou se põem por detrás desses acidentes), e a latitude, dada a ligeira alteração da posição do nascer-do-sol à medida que nos deslocamos para norte. Por outro lado há ainda a possibilidade de existirem motivações astronómicas mais "complexas" ( as mais difíceis de provar, como sejam as relacionadas com o movimento da lua ou com referências estelares) ou devidamente mais "simples" (muito prováveis e nalguns casos quase certas, como seja a da orientação dos megalitos pelo sol). Outra questão que é necessário ter em conta é a existência de um outro tipo de "orientação", esta já não baseada em corpos celestes mas sim nos pontos relevantes da paisagem, considerados como referências importantes no quadro religioso, socioeconomico e ritual das culturas que construíram os monumentos megalíticos ou outros. De facto, sabemos já que alguns megalitos se "orientam" e alinham entre si, ou de dentro para fora, em direcção a um item  paisagístico, especialmente montanhas, geomonumentos de morfologia insólita ou "centros sagrados". Ao estudo deste tipo de orientação chamou Hoskin arqueotopografia. A arqueotopografia está na nossa opinião intimamente relacionada com aquilo a que podemos chamar uma cartografia arcaica, ou seja, uma interpretação da paisagem e dos seus marcadores de uma forma global, e que decorre de uma cosmovisão ou de uma cosmogonia. Caminhos "rectos" ou não, que ligam centros rituais documentados em inúmeras culturas, pressupõem a existência de uma mapeação do território em termos que hoje dificilmente poderemos reconstruir. É provável, aliás, que alguns motivos da arte rupestre pós-glaciar se reportem a esta mapeação de um território em função desses centros sagrados ou de cadastrações abstractas ou práticas relacionadas com a sua exploração. Acreditamos ainda que os monumentos e santuários da Idade do Bronze, bem como os da Idade do Ferro (para considerarmos apenas a pré-história e a proto-história) se poderão interpretar desta maneira.




Fonte: Lugares Mágicos de Portugal, Paulo Pereira    

Alexander Thom - Man, Megaliths and Statistics 1

Alfred Watkins - Early British Trackways

William Stukeley - Stonehenge, a Temple Restored to the British Druids
http://newensign.christsassembly.com/Stonehenge_Stuckley.pdf


8 de jan. de 2019

20 albuns de música pop nacional que mudaram a minha vida




Heróis do Mar - Heróis do Mar (1981)




Táxi - Táxi (1981)




Táxi - Cairo (1982) 




GNR - Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985)




GNR - Psicopátria (1988)




Radar Kadafi - Prima Donna (1987)




Sétima Legião - A Um Deus Desconhecido (1984)




 Sétima Legião - Mar d'Outubro (1987)




Ban - Surrealizar (1988)




Jorge Palma - Só (1991)




Ithaka (Darin Pappas / Pedro Passos)
 Flowers and the Colour of Paint (1995)




Black Out  - Black Out (1995)




Cool Hipnoise - Missão Groove (1997)




 Da Weasel - 3º Capítulo (1997)




Mind Da Gap feat. Darin Pappas - Sem Cerimónias (1997)




Mind Da Gap -  Suspeitos do Costume (2001)

                   


Coldfinger - Lefthand (2000)

  


Dealema - Dealema (2003)




Boss AC - Rimar Contra a Maré (2002)




Sam the Kid - Beats Vol.1 - Amor (2003)




5 de jan. de 2019

sincronicidade / controle mental

Decidi voltar a este assunto, após ter visto o documentário sobre Targeted Individuals da VICE, onde se menciona que Max Spiers deveria participar duma conferência sobre TI, tendo falecido apenas algumas semanas antes, de supostas causas naturais. O documentário é apresentado sob ponto de vista um pouco céptico, a princípio, e a meu ver falha em termos de ir ao fundo do assunto, como acontece, porquê acontece, desde quando... A opinião da profissional de saúde também é um pouco vaga, ao analisar o fenómeno como uma possibilidade, não descartando a hipótese de transtorno psicológico. Alguém pode me explicar como um transtorno de personalidade coloca um implante no cérebro / pescoço / outro local do corpo?




Ponderei se deveria falar ou não, mas que importa, se ninguém acredita mesmo? A minha experiência com este fenómeno começou na infância, eu não tive propriamente um amigo imaginário, mas desde cedo que ouço vozes, em determinadas ocasiões, não são ameaçadoras e até ponderei tratar-se do meu "higher self", mas começo a ter dúvidas. A minha infância foi muito diferente na altura, em termos de educação, do que é agora, felizmente para os miúdos de agora. Eu andava sempre sozinha, a divagar, a explorar as imediações de casa, onde havia muita área verde - foi numa destas ocasiões que, tendo eu cerca de seis anos, fui abordada por um indivíduo que me tentou raptar, com a promessa de que no meio do arvoredo haviam frutos saborosos, depois de me perguntar o meu nome, que idade tinha, onde vivia, lembro-me que ele tinha uma aparência muito amistosa e eu na minha inocência estava tentada a segui-lo quando ouvi uma ordem dentro da minha cabeça, um homem que gritou "foge!" e desatei a correr sem saber porque motivo o fazia, sei que ao fugir alguns vizinhos aperceberam-se da situação e perseguiram o homem.




Voltei a ouvir uma voz feminina há uns 15 anos atrás, por duas ocasiões - e foi numa altura em que eu tinha equilíbrio, em que atravessava uma fase de grande intuição e introspecção. Uma ocasião em que me descuidei e deixei uma gatinha preta que eu adorava fugir pelo portão, ouvi claramente uma mulher a repreender-me, dizendo que ainda era muito cedo e que a gata não sabia ir à rua - infelizmente passou um carro nessa altura e atropelou a minha gatinha, foi um trauma e devido à situação nunca mais me esqueci dessa voz. Noutra ocasião, uns anos mais tarde, estava eu a conduzir numa manhã de chuva, ainda meio ensonada, quando ouço de novo a voz a dizer-me "toma atenção!" e tenho um vislumbre de alguém a atravessar-se no meu caminho, despertei logo é claro e nem 10 segundos depois uma senhora atravessa-se à minha frente, sem olhar para a estrada, desesperada para apanhar o autocarro que estava parado do outro lado da via - tenho a certeza que, se não tivesse sido avisada, teria atropelado a senhora. É engraçado, agora que escrevo isto, lembro-me para onde ia nessa manhã, eu estava a fazer uma formação, e posso dizer que eu não percebia nada de geriatria, mas durante esse curso por diversas vezes me surpreendi a dar respostas à formadora, sem saber bem como essas ideias iam parar à minha cabeça - e aqui posso entrar no tema da sincronicidade. 

Muita gente fala no fenómeno da sincronicidade como sendo algo bom, uma chamada de atenção do universo ou dos anjos, e eu em parte concordo com isso. Pois em algumas ocasiões, como no caso da formação de geriatria, senti nitidamente que tinha de aprender alguns conceitos que iria pôr em prática mais tarde. Devido a um elo torto na minha coluna, não consigo emprego na área, tendo tentado por duas vezes e desistido devido a dores fortes, somente após um ou dois dias de trabalho. Pois agora que a minha mãe tem um tumor no cérebro, posso dizer que o que aprendi me deu o conhecimento suficiente para poder ser aquela pessoa que alertou a médica e que pressionou para que fossem feitos exames. Ainda há pouco tempo, tive mais uma situação gritante de sincronicidade e que considero positiva - tem a ver com uma música, que me surpreendeu e me apontou para determinada direcção, num dia - no dia seguinte a vocalista aparece-me à frente a perguntar por direcções, perdida (impossível ignorar). 

No entanto, há um aspecto diferente do fenómeno da sincronicidade que me leva a relacioná-lo ao fenómeno do controlo mental e que também acontece no meu dia-a-dia. E é aqui que começa a ser difícil explicar sob um ponto de vista frio e imparcial, mas cá vai. Desde que fui internada no hospital psiquiátrico devido a um episódio de esgotamento, tenho a certeza que entrei para algum tipo de lista de pacientes a seguir através de experiências ligadas ao condicionamento, e uma vez que eles têm a minha ficha e sabem quais são as minhas fobias e receios, basta no dia-a-dia apertar alguns "botões" específicos para que eu me mantenha calada, sossegada e num estado de medo permanente. Como fazer isso? Tenho visto algumas pessoas dar exemplos perfeitos de como ocorre no caso delas, seja através de programas televisivos ou músicas específicas. Mas no meu caso, o mais usual é ter pessoas a abordar-me no meu local de trabalho já com noções específicas de como me molestar. A última pessoa a fazer essa figura levou com uma reacção da minha parte que não contava obter, não fui mal-educada mas dei a entender que estava a par da situação. Também tenho indivíduos a mandar "bocas", assim do nada, enquanto passam junto à minha loja; outras vezes tenho várias pessoas que vão conversar para a minha beira, com o intuito de me "ameaçar"; à medida que os anos passam torna-se mais fácil lidar com isto, porque já sei o que esperar. Deixei de ver televisão, até porque tive uma chamada de atenção com a minha mãe a comentar há uns anos atrás "devias ver esta novela porque fulana de tal tem uma história de vida mesmo igual à tua!" Quem estiver a ler vai imediatamente pensar que por me encontrar debilitada mental e emocionalmente faço associações onde não devo - é precisamente isso que eles querem que eu e todos os restantes pensem, e é tão simples como a experiência de  Pavlov! 




Por outro lado, não é necessário propriamente ter acesso ao historial psiquiátrico de um indivíduo para ir buscar ideias e pensamentos que ele esteja a ter, e que fiquem armazenados numa espécie de memória colectiva. Pensamentos que pairam no "éter" poderão ser a fonte de inspiração para tantos artistas, e com a suposta evolução para 5D, pergunto-me se no passado e no presente haverão indivíduos com capacidade para navegar numa espécie de "wall of records", onde poderão ir buscar tanto as respostas às suas dúvidas como os pensamentos que ficam registados. As motivações e o carácter de cada um irão determinar o uso que iriam dar a esse conhecimento, e admira-me que haja alguém que use esse recurso simplesmente para ir buscar conhecimento de como aplicar e multiplicar o dinheiro, ou para prejudicar outros. Mas há quem o faça com intenções nobres. Um bom exemplo disso é o exemplo de Osho, que sempre que era questionado fazia uma pausa como que a consultar uma biblioteca universal de conhecimento - senão, observem:




Para terminar um assunto que já vai longo, vou falar sobre sonhos e projecções mentais. Na minha opinião, uma óptima forma de molestar alguém sem deixar rasto é através dos pesadelos. Ainda há pouco tempo, em conversa com um familiar, descobri que não sou a única pessoa da família num estado permanente de ansiedade devido a pesadelos, o que me causa insónia. Não há muito mais para falar sobre isso - vou passar aos sonhos lúcidos. Da mesma forma que os pesadelos poderão ser induzidos, também posso ser levada a pensar que sempre que tenho um sonho lúcido com alguém essa realidade não é factual, que essa pessoa não está de facto comigo e que poderá ser ou uma projecção do meu subconsciente / ou uma entidade a fazer-se passar por aquela pessoa. O mesmo poderá acontecer a alguém que sonhe comigo...  No entanto, quero deixar aqui uma experiência que tive e que me deixa a certeza de que pelo menos alguns sonhos lúcidos são mesmo reais - não quero citar nomes, digamos que num sonho lúcido deparei-me com um velho casal amigo, a senhora em questão tinha a sua projecção com uma imagem de si mesma um pouco mais nova mas reconheci-a de pronto, ela reconheceu-me e começou a falar comigo animadamente (penso que as pessoas que encontramos apresentam a imagem mental de como gostariam de ser, uma espécie de avatar); o senhor no entanto permanecia calado... Eu perguntei "ele não quer falar?" ao que ela respondeu "ele já não está aqui", ou algo do género, sei que não prestei atenção, ela continuou a falar, entretanto acordei... Passados dois dias sei que o senhor faleceu... Resta-me a consolação de pensar que de alguma forma estive com ele antes do senhor atravessar o véu... 




1 de jan. de 2019

Os Amantes sem Dinheiro, Eugénio de Andrade



Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio à roda de seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.



A Palmeira Jovem, Eugénio de Andrade




Como a palmeira jovem
que Ulisses viu em Delos, assim

esbelto era o dia 
em que te encontrei;

assim esbelta era a noite
em que te despi,

e como um potro na planície nua
em ti entrei.






Os Pequenos Prazeres, Eugénio de Andrade


O copo de água fresca
sobre a mesa
a réstia de luz incendiando 
ainda a mão,

as palavras que dão sentido à arte
dos dias a caminho do fim,
"a beleza 
é o esplendor da verdade",

o sol
que dos flancos do muro sobe
ao olhar do gato,
o silêncio de ramo em ramo,

a chuva em surdina
na folhagem dos jardins
- a chuva e a cumplicidade
de Gieseking e Debussy.