Mais de uma escola mística, budista ou vishnuísta, continuou a usar o maithuna yóguico-tântrico, e no entanto o "amor devocional" continuou a desempenhar um papel primordial. A corrente mística profunda conhecida por sahajiya, que é um prolongamento do tantrismo, seja este derivado do budismo ou do hinduismo, mantêm uma primazia pelas técnicas eróticas. Apesar disso, tanto ao nível do tantrismo como do hathayoga, a união sexual é compreendida como um meio para atingir a "beatitude suprema", a mahasukha, que não se deve alcançar jamais mediante uma emissão seminal. O maithuna surge-nos então como o desfecho de uma longa e árdua aprendizagem ascética. O neófito deve dominar perfeitamente os seus sentidos, e mediante este propósito deve aproximar-se gradualmente da "mulher devota" (nayika), e transformá-la, mediante um desenrolar teátrico iconográfico préviamente interiorizado, em deusa. Para isso, deve servi-la como um criado, durante os primeiros quatro meses; primeiro dormir no mesmo quarto que ela, e depois aos seus pés. Durante os quatro meses seguintes, apesar de a continuar a servir, deverá dormir na sua cama, ao seu lado esquerdo. Deverá dormir ao seu lado direito durante outros quatro meses, e depois abraçados, etc. Todos estes preliminares têm por objectivo a "autonomização" da voluptuosidade - considerada como a única experiência que poderá conduzir à beatitude nirvânica - e o domínio dos sentidos, assim como a detenção seminal. No Navika-sadahna-tika é descrito todo o cerimonial em grande detalhe. Este é composto por oito partes, começando pela sadahna - a concentração mística com a ajuda de fórmulas litúrgicas; seguido da smarana (a recordação, o penetrar na consciência), o aropa (atenção dada a outras qualidades do objecto) quando se oferecem cerimonialmente flores à navika (que começa a tranformar-se em deusa); manana ("recordar a beleza da mulher quando ela está ausente"), que já implica uma interiorização do ritual. Na quinta etapa, dhyana (meditação mística), a mulher encosta-se à esquerda do seu devoto e é abraçada "de forma a que o espírito se consiga inspirar". Na puja, (o "culto" própriamente dito), é adorado o local em que a navika se senta, fazem-se oferendas e banha-se a mulher como se banha uma imagem de uma deusa. Durante este tempo, o praticante vai repetindo mentalmente fórmulas. A concentração alcança o seu grau máximo quando se leva a navika nos braços e se a deposita no leito, repetindo a fórmula: Hling kling kandarpa svaha. A união tem lugar entre "os deuses". O jogo erótico realiza-se num plano transfisiológico, porque nunca tem fim. Durante o maithuna, o yoguin e sua nayika incorporam uma "condição divina", no sentido em que não só experimentarem a beatitude, mas poderem também contemplar directamente a realidade essencial.
Não se deve esquecer que o maithuna não deve nunca terminar numa emissão seminal: boddhicitam notsrjet, "não se deve emitir o semen", repetem o textos. Caso contrário, o yoguin ficará à mercê da lei do tempo e da morte, como um libertino vulgar. Com estas práticas, a "voluptuosidade" exerce o papel de um "veículo", permitindo a tensão máxima e abolindo a consciência vulgar, inaugurando o estado nirvânico, o samasara, a experiência paradoxal da Unidade. Como já tinhamos visto - o samasara obtem-se apartir da "imobilização" da respiração, do pensamento e do sémen. Os Doha-kosa de Kanha insistem constantemente neste ponto: a respiração "não sobe nem desce; não faz nem uma coisa nem outra, permanece imóvel". "Quem a tiver conseguido aquietar na raíz do seu espírito mediante a identificação do gozo (samasara) num estado inato (sahaja), converte-se imediatamente num mago; não teme a velhice nem a morte."
É a "identidade do gozo" que ocorre durante a experiência incomensurável da Unidade (samasara), quando se alcança o estado de sahaja, o estado do não-condicionamento, da espontaniedade pura. Por outro lado, todos estes termos são de difícil tradução. Cada um se esforça por expressar o estado paradoxal da não-dualidade absoluta (advaya) que desemboca no mahasukha, a Grande Beatitude. Assim como o bramhan das Upanishades e dos vedas, o nirvana dos mahayanistas, o estado do sahaja é indefinível; não se pode conhecer a um nível dialético, apenas se poderá apreender através de experiências vividas. "O mundo inteiro, diz-nos o Hevajratantra, encontra-se patente na essência do sahaja, uma vez que o sahaja é a quintessência (svarupa) do todo. Esta quintessência é o nirvana para quem possuír o espírito (citta) puro." Poderemos chegar ao estado do sahaja após transendermos a dualidade; por essa razão, os conceitos de advaya (não-dualidade) e yuganddha (princípio da união) ocupam um importante lugar dentro da metafísica tântrica.
Esta dialética é o tema favorito da corrente madhyamica e de uma forma geral de todos os filósofos mahayanistas. Mas o tântrico interessa-se particularmente pela realização (sadhana); deseja "realizar" o paradoxo expresso em todas as fórmulas e imagens que caracterizam a união dos contrários, deseja aceder através da experiência ao estado da não-dualidade. Os textos budistas têm popularizado sobretudo os "pares opostos": prajna, a sabedoria, e upaya, o meio de a obter; sunya, o vazio, e karuna, a compaixão. "Unificá-las" ou "transcendê-las" equivalia em suma aceder ao estado paradoxal de um bodhisattva; na sua sabedoria, este não vê mais pessoas (sendo que metafísicamente, a "pessoa" não existe; o que existe é um conjunto de elementos), e portanto, mediante a sua compaixão, o bodhisattva esforça-se por salvar as pessoas. O tântrismo multiplica os "pares opostos": sol e lua, Shiva e Shakti, idá e pingalá, etc., e como acabámos de ver, esforça-se por "unificá-los" mediante técnicas fisiológicas subtis e também através da meditação. É importante sublinhar este feito: independentemente do nível do que se consiga realizar, a união dos opostos representa a superação do mundo dos fenómenos físicos, a abolição de toda a experiência da dualidade.
As imagens utilizadas sugerem o retorno a um estado primordial de não-diferenciação: a unificação do Sol e da Lua traduz a "destruíção do cosmos" e, consequentemente, o regresso à Unidade primordial. No hathayoga, o indivíduo esforça-se por obter a "imobilização" da respiração e do sémen; é-lhe também pedido o "retorno do sémen", o que em si mesmo é um acto paradoxal, impossível de ser concretizado num contexto fisiológico "normal", dentro duma noção "normal" de cosmos. Por outras palavras, o "retorno do sémen" traduz, no aspecto fisiológico, a "transcendência" do mundo dos fenómenos, o acesso à liberdade. Não é mais do que uma aplicação prática do acto de "ir contra a corrente" (ujana sadhana), o processo regressivo (ulta) dos Nath-siddha, implicando uma total "inversão" de todos os processos psico-fisiológicos. No fundo não mais do que a misteriosa noção de varavrtti, amplamente documentada nos textos mahayanistas, e que no tantrismo também se designa por "retorno do sémen". O "retorno", a "regressão" implicam - para quem as realiza - a aniquilação do cosmos e consequentemente, a "saída do Tempo", o acesso à imortalidade. No Goraksa-vijava, Durga ("Shakti, Prakrti"), dirige-se a Shiva nos seguintes termos: "Como é possível, Senhor, que tu sejas imortal, e que eu seja mortal? Revela-me a verdade, Senhor, para que eu também me possa converter em imortal!" É aqui que Shiva revela a doutrina hathayoga. Sendo assim, a imortalidade obtem-se detendo a manifestação, o processo de desintegração; há que "ir contra a corrente", e reencontrar a Unidade primordial, imóvel, que existia antes da ruptura. É isto que fazem os hathayoguis ao unir o "Sol" com a "Lua". Este acto paradoxal efectua-se através de vários níveis; mediante a união de Shakti (kundalini) com Shiva no nosso próprio corpo, obtem-se a inversão do processo cósmico, a regressão a um estado indiferenciado de Totalidade original; "fisiológicamente", a conjunção Sol-Lua traduz-se por uma união de prana e apana, ou melhor, uma "totalização" da respiração, mediante a sua detenção. Em último lugar, a união sexual, mediante determinada postura (vajrolimudra), leva ao "retorno do sémen".
Mircea Eliade, O Erotismo Místico na Índia |